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10.10.2025POR Lexi Narovatkin

OUT.FEST 2025 – Fora de órbita na cidade satélite

A 21ª edição do Out.Fest voltou a mostrar um fio condutor curioso, que nos apanha de surpresa por todas as direções. Pelo Barreiro, um dos festivais mais intrépidos do país, fez de nós testemunhas de atuações únicas, separáveis por diferentes abordagens à música, mas coesas pela surpresa e pelo gosto.

Dia 1

A chegada da RUC ao Barreiro começou logo pela visita à Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense “Os Penicheiros” – e num compasso de espera antes do início das atuações, o artista sírio-alemão Rashad Becker seria a primeira entrevista de cobertura a ter lugar no evento. 

Durante a tarde pairava um ambiente de antecipação, coberto pelos sons da vida de rua, e da comunidade que por lá vive, à qual no mesmo espaço, lentamente, se juntava a massa agregadora de corpos que serviriam de interface de captação a toda a música, e conversas, que a oferta do festival proporcionou nesta edição. Em simultâneo, decorria já no Auditório da Casa da Cidadania Cabós Gonçalves a conversa entre Raquel Castro e Matilde Meireles, inserida no projeto tekhnē. 

Caras conhecidas ao longo do tempo juntavam-se já por dentro dos Penicheiros e o concerto de Carme López começava a horas certas. A artista que une a gaita-de-foles a estruturas contínuas do drone, e que investiga também a tradição oral da música da Galiza, entregou um intróito de festival que se pode descrever de forma sobretudo hipnótica, e de jeitos circulares, deixava o público fixo na corrente de som que preenchia a sala onde mais espetáculos iam decorrer. Não foi só na conjunção da gaita-de-foles com a eletrónica que Carme López abraçava o público, mas também com outros instrumentos bocais e um segmento final longo, onde juntou a sua voz.

Seria a vez de Rashad Becker tomar palco, o artista conhecido pelo seu trabalho de masterização e pelos dois volumes de ‘Traditional Music of Notional Spaces’ (2013 & 2016), e mais recentemente pelo lançamento de ‘The Incident'(2025), sob o seu próprio selo, Clunk, entregou a prometida live semi-modular, desafiando convenções mesmo dentro daquilo que chamamos de experimental. Antes do concerto, Rashad Becker admitia à RUC que não tinha a certeza do que ia tocar, considerando a música ao vivo uma boa praxis para testar e corrigir erros, indo algo de encontro à sua busca em significar o som enquanto experiência. Este momento contou com uma viagem, por vezes estridente, por vezes ritmada, e sempre em textura tácita, nunca descartando o surpreendente. 

Uma breve pausa para jantar iria anteceder a caminhada para a Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios (ADAO), onde iriam respirar três atos musicais. O próprio espaço-sede da ADAO impressiona pela sua magnitude, pelos tetos altos e pelas paredes com corpo, que lá guardam memórias de anteriores edições. 

Um corredor escuro levava-nos ao encontro da rispidez infernal de Leila Bordreuil. Com maquinaria em mesa, e o seu violoncelo, um concerto de harsh noise visceral atacava os ouvintes, os seus movimentos causavam feedback agonizante (no melhor possível dos sentidos), e o festival vivia uma verdadeira e genuína mostra de noise. Sons agudos e distorção juntavam-se à brutalidade metódica com a qual a artista dominava o violoncelo. Para alguns, uma mostra desejada, para outros, seria em atuações seguintes que o seu gosto iria encontrar casa. 

Uma das atuações mais expectantes, planeada em residência pela lisboeta Galeria Zé dos Bois, uma junção de backgrounds sociais e artísticos diferentes – uma questão – Wolf Eyes & DJ Nigga Fox apresentavam em estreia o seu trabalho colaborativo. Nate Young e John Olson, veteranos do noise e da improvisação através de Wolf Eyes, projeto que conta uma extensa discografia e diversas colaborações, juntaram-se ao prodígio da Príncipe, DJ Nigga Fox, nome com grande relevo nas salas portuguesas e internacionais. O que se seguiu foi quase um concerto de downtempo, com similitudes ao krautrock, acompanhadas pela batida – não tão característica à Príncipe – mas cuidadosamente adaptada. Muitos elementos do público consideraram o concerto impressionante, e foi um dos pontos altos em toda a programação. 

Foi o rap incisivo e carregado de batidas intensas de Billy Woods que fechou a primeira noite do festival. Uma atuação enérgica, vocal, com interação ao público e temas do seu recente ‘GOLLIWOG’ (2025), emanando uma vontade que iria garantir o retorno dos festivaleiros para o dia seguinte. 

Dia 2

A primeira instância de retorno ao Barreiro iria levar para a Casa da Cidadania Cabós Gonçalves a conversa de João Polido, que se seguia à conversa de Carme López, ambas inseridas no projeto tekhnē. Polido apresentava ao auditório a conversa titulada “Spectral Lore of Tradition”, tratando de temas como a influência das estruturas de poder em Portugal durante o Estado Novo sobre a música tradicional, e como estas musicalidades vivem quase num “loop eterno”, desajustadas da memória oral do folclore português. 

O concerto de abertura nos Penicheiros aconteceu a cargo de Vlady Che, sob o nome artístico ϙue, a apresentar pela primeira vez o seu disco ‘TIME’ (2024), produzido em conjunto com Comechelet, e apresentado no Out.Fest com apoio visual às mãos de equii. Uma performance de ambient nas suas formulações mais naturalistas, com um leque de sonoridades que sussurravam e que se transformavam nas texturas em projeção, com momentos suspensos no tempo, e topografias mentais que se materializavam nos momentos mais graves. A atuação terminou com a dupla a erguer uma bandeira da Ucrânia e as palavras “This performance is dedicated to the artists who sacrificed their freedom to create, in order to defend Ukraine and Europe from russia’s war of aggression”, projetadas no momento final. 

Uma breve pausa tinha lugar no exterior, terminada prontamente pelo stage manager da sala a avisar em megafone que a live de Beatrice Dillon iria ter início. 

A artista britânica trouxe à mesa a sua característica abordagem melódica a formatos de música eletrónica mais clássicos, alterados às suas mãos, e com uma sala cheia e escura, atentamente a ouvir o trabalho da artista. O seu som espacial não ficaria fora daquilo que esperávamos, tendo em base o trabalho publicado de Beatrice Dillon, sendo um nome ao qual há sempre um carinho e uma atenção agarrados quando vem a território nacional. 

O público em regresso à ADAO encontrava seis atuações à sua espera – começando com a entrada fantasmagórica de Devi Mambouka, sob o seu nome artístico Masma Dream World, que evocava os seus mantras vocais e temas sacros, enfeitiçando o público num momento ritual de abertura da noite.

O drone eletrónico e minimalista de David Maranha, e o jazz nas suas manifestações improvisadas de Rodrigo Amado, preenchiam a atuação dos dois músicos, e tonante quase como um arrasto de sopros e ambiências introspetivas, iria abrir caminho para outra atuação com foco na densidade. 

O regresso titânico de Divide & Dissolve a Portugal trouxe também a magnitude do doom metal para o Out.Fest, com Takiya Reed e Scarlet Shred em toda a potência a transmitir a mensagem do projeto: a destruição da supremacia branca. T-shirts com as palavras “Divide & Dissolve colonial borders” viam-se pela crowd e a presença inigualável e calorosa, também íntima, de Reed, trazia sorrisos à cara das pessoas, entre os acordes mais densos tocados pela guitarrista. 

As últimas três atuações iriam decorrer de forma oscilatória, com a descarga berrante e visceral do trio japonês BBBBBBB em estreia nacional, com o seu exorcismo de hardcore digital, seguidos por um clarão que veio a cargo de Devon Rexi, estabilizando a energia e a própria forma de estar, que viria a ser levantada de novo pela DJ e produtora holandesa, upsammy, e a sua mistura, já junto à pista, de drum and bass efusivo e breakbeat, no seu bpm predileto: 170.

Dia 3

O penúltimo dia de atuações, e aquele com mais nomes, iria começar com o português Pedro Tavares, conhecido no meio artístico e no underground nacional enquanto funcionário.

Em apresentação esteve o seu mais recente lançamento ‘horizonte’ (2025) com o selo da Holuzam, onde já tinha lançado previamente, e nesta edição do Out.Fest, funcionário entrou como artista integrado no último ano da plataforma de artistas emergentes, comissionada pela União Europeia, SHAPE+. Pedro Tavares conversou também com a RUC sobre o seu concerto e o mais recente disco, bem como as suas inspirações. 

Uma sala cheia tinha-se já materializado para o concerto do japonês Rai Tateishi, que num concerto cerimonial, tocou vários instrumentos de sopro ancestrais, como o shinobue ou o shakuhachi, e contou o processamento do seu som em tempo real por Koshiro Hino, cabeça da editora NAKID, onde Tateishi lançou o seu primeiro álbum a solo, ‘Presence’ (2025). Simultaneamente, na Sala 6, tocava a baixista Martina Berther, harmónica, abstrata e experimental na técnica. 

Os Penicheiros alojavam o concerto conjunto de Joana Guerra e Yaw Tembe, cuja colaboração surge de uma proposta pelo espaço lisboeta Damas, tendo se já corporificado através de ‘Orogénese’ (2025). Os dois artistas, com a bandeira palestiniana em palco, trasladaram no auge da experimentação, com Joana Guerra no violoncelo, flauta de madeira, harmónica, voz e componente eletrónica, e Yaw Tembe a magicar no trompete, na percussão, flauta transversal e nos comandos maquinados. Uma hipnose, digna de mergulho nos territórios mais estranhos da multi-instrumentação, colocou em 8 temas um público em escuta cerebral. 

À semelhança da anterior sobreposição, na Sala 6, tocava o guitarrista do Butão, Tashi Dorji, muito na base da técnica improvisada, que chamou à sala aqueles que mais se entusiasmam com a instrumentação orgânica, e que entre estes dois concertos ou tomaram escolhas ou tentaram estar presentes em ambos os locais. 

Outra sobreposição iria ter lugar, com Miki Yui, japonesa residente na Alemanha, com a sua já experiente mostra de quietude sublime, aos gostos de quem se interessa pelos nomes clássicos da eletroacústica por exemplo, e iria tocar paralelamente a Lord Spikeheart, que fazia da Associação Cultural e Desportiva Gasoline o seu trono, numa atuação praticamente lotada, de fusão de vários géneros musicais como o noise, rap, hardcore ou mesmo death metal (não nas formas que um purista as caracterizaria), num concerto que poderá ser descrito por suor, intensidade, corpo e colisão. Uma mostra intensa, que quase não permitia fôlego de quem quisesse abandonar o espaço – mas para quem procurava a descarga, serviu como um breve escapismo berrante. 

No mesmo lugar, chegava a vez dos portugueses bbb hairdryer de impulsionar o seu ‘A Single Mother / A Single Woman / An Only Single Child’ (2024). Já conhecidos pelas salas e festivais de cá, Elisabete, Francisco, Chica e Miguel, conversaram com a RUC sobre a trajetória da banda desde o início, e da sua maturação procurada pelo novo lançamento. 

O dia em questão tinha já todos os bilhetes esgotados e a massa totalizante de pessoas era verificável na ADAO, que iria contar com mais seis atuações. 

Começando por Amuleto Apotropaico, dupla estabelecida entre Francisco Oliveira e António Feiteira, envolvia o público no seu homónimo, caracterizado pelo reprocessamento das suas anteriores lives. O som artilhado de forma limpa, aliado a uma performance que apesar de breve, continua a ser ouvida atentamente, neste que é o novo capítulo do projeto, e que tem casa na recente-criada editora Perf. 

A mobilização seria feita para a entrada da ADAO, com o som e o público posicionados em quadrado, à espera da entrada de Michael Fiedler, sob o nome Ghost Dubs, que entregou uma potente live de dub, iluminado pela luz azul, fez com que os corpos se prendessem ao espaço. Foi um dos pontos altos para os entusiastas da bass music, tendo em certas partes relembrado sonoridades análogas àquelas de Basic Channel, quentes mas que no entanto lembram a estética a preto e branco do dub mais frio, levando as mãos em pistola e o habitual balançar de dança a um último tema de dubstep forte. 

O fio condutor do festival voltava a levar-nos por caminhos inesperados, desta vez com a potência gutural e distorcida do concerto de Cuntroaches, havendo abertura para um moshpit. O concerto breve, mas eufórico, guiou de novo o público para a outra sala, com destino a HHY & The Kampala Unit, um espaço polirrítmico, a manobrar sopros, dub e o gqom.

Já perto do final do concerto anteriormente mencionado, uma porção dos festivaleiros guardava lugar na sala maior, prontos para o concerto de Moin. Um início instrumental, iluminado a verde, cuidadosamente tocado, encobria-nos com o véu do foco, a perícia na bateria por Valentina Magaletti era impossível de se desviar, e Joe Andrews e Tom Halstead, que compõem a dupla Raime, não ficavam atrás. 

Uma onda de euforia tomou conta de quem já conhece bem o projeto, com a entrada de Sophia Al-Maria em palco, e a interpretação do tema Lift You, inserido em ‘You Never End’ (2024), tendo participado também em mais instâncias ao longo do concerto. Foi um dos slots mais memoráveis desta edição, e talvez um dos projetos que continua a ser dos mais procurados no circuito de eventos nacionais.

A noite iria fechar com TAYHANA, e o seu clubbing efervescente, indo buscar temas aos vastos repertórios do latin club, techno, e até mesmo do kuduro, tendo para o fim misturado Sex on the Beach de DJ Assault e um tema da banda sonora de Twin Peaks.

A noite mais cheia do festival terminava assim, em momentos que antecipavam já um fim, numa espécie de melancolia ainda por colidir. 


O último dia do evento não contou com a RUC presente, por motivos logísticos, mas teve três momentos para encerrar o Out.Fest 2025: o produto final da micro-residência do projeto tekhnē, onde seis artistas, Billy Moisseron; Radoslaw Hada-Jasikowski; Daina Šteinerte; Paola Avilés; Nischal Khadka e Henrique Varanda, apresentaram as suas recolhas sonoras de gravações de campo pelo Barreiro, bem como as suas perspetivas e relatos durante este trabalho. Foram seguidos pela apresentação de Matilde Meireles, que se juntou ao Arquivo Sonoro do Barreiro, com mais recolhas e consequente manipulação da vida sonora do concelho. 

O momento de encerramento iria contar com o norueguês Erik Dæhlin, junto do Grupo de Percussão da Orquestra de Câmara Portuguesa, do Coral TAB e da Banda Municipal do Barreiro, numa última peça que integra ainda mais quem vive o local onde o festival nasceu. 


Em antevisão do Out.Fest, Rui Dâmaso, diretor do festival, admitia à RUC que o Barreiro era visto na prática como uma cidade satélite da capital. Por cá, nunca descreditando o peso cultural que a cidade acarreta, consideramos que coloca-la fora de órbita, por quatro dias do ano, assenta bem a sua posição de irreverência.

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