AUTOR: Lexi Narovatkin

DATA: 09.10.2025

DURAÇÃO: ...

Rashad Becker em entrevista à RUC antes da sua atuação no primeiro dia do Out.Fest, com a entrevista transcrita e traduzida para português. O áudio original encontra-se em inglês.

Olá, Rashad. Obrigado por teres dispensado algum do teu tempo à Rádio Universidade de Coimbra. Para começar, vais apresentar o mais recente ‘The Incident’ por aqui?

Honestamente, ainda não tenho certeza. Ando a tocar esta música há mais de dois anos, porque eu toco música durante muito tempo antes de a começar a gravar. Eu não gosto de editar, e quero gravar a música da forma que ela vai viver depois, então, tocar a música ao vivo é uma boa prática para eu entender as peças, encontrar erros nelas e também poder gravá-las sem fazer muito trabalho de multitracking para editar depois.

Ainda não tenho certeza da atmosfera que a sala vai ter, por isso vou esperar para isso se manifestar, e aí tomar uma decisão.

Os teus últimos lançamentos foram os dois volumes ‘Traditional Music for Notional Spaces’, tendo em conta que o último saiu em 2016, o que te influenciou durante esse tempo todo para o teu trabalho mais recente?

Influenciado? Boa pergunta. Nos últimos anos intriguei-me principalmente pelo simbolismo sonoro, e pelo modelo de transferência entre som e música, que pode resultar de uma exposição a certos fenómenos, e na experiência que ganhamos com eles. Esse foi o meu quase que principal campo de estudo, quero dizer, porque estive a ensinar ao longo dos últimos anos, e tive a oportunidade de ter tido uma aula relativamente grande, para pesquisar sobre esses aspetos da semiótica do som, e essas questões – acerca de como o significado viaja, quais as condições de realismo, hiperrealismo e surrealismo no som e na música – e como é que uma transformação de significado possa ser lida coletivamente, consciente ou inconscientemente, então acho que sim, que foram esses os aspetos que integraram o lançamento na sua conceção. Não sei se foram mesmo as influências, mas foram o principal interesse. 

Para o ‘The Incident’, caracterizas o ábum como um “pseudo-musical” conduzido pela narrativa, o que pretendes documentar nisto?

Bom, “documento” é um termo complicado, certo? Eu pessoalmente acredito que o documentável é um estado impossível, em termos de poder ser apropriado ou pirateado, tudo pode ser declarado enquanto um documento, porque a ideia de um documentário é impossível de conceber ou de produzir. Portanto 0 que estou a tentar documentar? Não penso nessa pergunta, não é sobre um incidente específico (‘The Incident’), não pode ser lido enquanto um retrato, nem convertido para uma linha temporal específica, ou sequer uma prova de consistência de algo que tenha realmente acontecido. Portanto o sujeito [de ‘The Incident’] está em branco, não é especificado…Deixa-me pensar nisto mais tarde.

Podemos desenvolver estas ideias depois. Este é o primeiro lançamento na tua própria editora, Clunk, e o primeiro de uma série com o título “Based on a True Story”. Previamente [em entrevistas anteriores], dizias que querias interpretar a tua música enquanto um sociograma, mas não necessariamente capturada num momento temporal, mas algo mudou para este lançamento, correto?

Posso considerar que sim, é uma narrativa radicada no tempo, sim. Antes disso eu andava mais interessado em composições sem fim, ou narrativas condicionadas (não-lineares), que significa que não são narrativas que começam num ponto A e terminam num ponto B, mas sim uma narrativa que propõe um certa condição, a um “alguém”, ou a um grupo de pessoas, ou a um contexto social. Há um estabelecimento de uma condição, narrando a condição durante um certo período até simplesmente parar.

No caso do ‘The Incident’, acontece um arco mais clássico do que é a narrativa, construído mais à base de suspense e libertação, e coisas assim.

Por exemplo, um dos capítulo em ‘The Incident’ chama-se “The currency of an urgent moment”, e um outro localiza-se no fim da Era da Informação. Com base nisto, como vês o mundo de hoje em dia? Porque falas na tua música não necessariamente enquanto expressão pessoal, mas deves ter alguma da tua visão do mundo impreganada aqui, não?

Eu vejo o mundo como algo de certa forma inalterado desde que sou adolescente. Não vejo grande coisa que valha a pena proteger nas sociedades que encontrei até agora, o mundo está inteiramente errado e precisa de mudar a um nível altamente substancial, não sei se isso te responde à pergunta.

Falas também em como estruturas sonoras não casuais alteram as nossas experiências de vida, e como guiam os nossos seres sociais…

Acerca das formas como provamos a interação de sistemas à nossa volta?

Sim, sentes que [com The Incident] tentas chegar de certa forma a meios para responder a essa pergunta?

Não o considero enquanto uma resposta, mas mais um trabalho de campo. Para mim é uma pesquisa contínua, mesmo que não muito sistemática, sobre essas questões de transferência, e também de estruturas semióticas, como o Index, o Símbolo, e todas essas propriedades, que aplicamos principalmente a práticas visuais ou de linguagem. Como é que elas podem ser verificadas coletivamente…a forma como usamos o som para construir as nossas realidades, sob princípios de causalidade, porque em grande parte dos casos, o som é um corroborador, corrobora a interação entre dois elementos, numa espécie de conexão.

O Som é um sistema cinético, não é algo por si só, é uma vibração induzida pela energia cinética que coloca uma ideia de significado em nós, em oposição à luz, que na realidade é algo menos abstrato. Portanto quando colocamos uma garrafa numa mesa de madeira, e ouvimos um som metálico, esse tipo de leitura de provas da realidade não é verificável.

Um exemplo seria quando o som se comportaria com uma qualidade surrealista, e é aqui que sou muito precioso com o som sintético, porque não há um conceito formado, de interação cinética entre pelo menos dois componentes, não podemos entender esta natureza em ambientes de som sintéticos, e por isso temos mais liberdade em construir gestos, e tentar colocar pistas para chegar a um significado, e por padrão, gravitamos para a semiologia musical ocidental, para construir esse significado através da chamada doutrina de efeitos, que é no fundo um sistema barroco de compreensão de emoções na música. O que nós pomos em ação, quando trabalhamos com artefactos, como música, ou sound design, lemos o contexto sentimental ou emocional como significado através dessa doutrina de efeitos.

E neste momento do meu trabalho, com ‘The Incident’, estou mais interessado em encontrar gestos que pareçam que tenham significado, independentemente do facto que não os consigamos provar, ou sequer lê-los, o que eu acho que é uma posição justa para com a realidade, entendes, a maior parte do significado, são conjuntos de acordos com alcances territoriais, culturais ou empíricos, e isso para mim está impregnado numa questão geral sobre o que uma leitura coletiva pode e vai produzir, e como podem surgir ideias acerca de, por exemplo, um ícone surreal de som, no qual as pessoas vão fazer um esforço para o preencher de significado, e nunca o poderão colocar num contexto das suas aprendizagens empíricas, ou daquelas que já lhes são conhecidas, nos contextos que já lhes são conhecidos na música.