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Vai, observa e baila: segundo dia da Romaria Cultural
A noite do segundo dia foi para bailar com os Birds Are Indie, Máquina. e os DJ “A Boy Named Sue” e Barrosa. A manhã foi preenchida com um passeio de observação de aves.
A tarde iniciou com jogos de tabuleiro, cinema e Lúcia Lima. Depois os festivaleiros dividiram-se entre a apresentação de livros e a visita às exposições com os artistas.
Já a caminhada matinal levou-nos até ao Mirante do Paixotão, onde tivemos a oportunidade de observar várias espécies, desde as comuns andorinhas-dos-beirais até à imponente águia, entre muitas outras.
Guiados por Ricardo Brandão, do Cervas, aprendemos a identificar as aves pelo seu canto e a distingui-las pelas características da plumagem, como a cor e o tamanho das penas.
Nesta atividade acompanhou-nos também um grupo de praticantes de dança do Ponta Solta, da freguesia de Carregosa, em Oliveira de Azeméis. Durante a tarde, apresentaram o espetáculo “A Dança Que o Mundo Não Vê” no Teatro-Cine de Gouveia. O grupo despediu-se de nós na Casa da Torre, espaço onde o Cervas recebe os visitantes para as suas visitas guiadas.
A tarde começou com uma sessão de cinema do Doc Coimbra, nas Galerias João Abel Manta. No Mirante do Paixotão tiveram início os Jogos de Tabuleiro, enquanto na Praça de São Pedro decorria o Espaço Lúcia Lima, com “Casa Corpo – Habitat”, de Johnny Gil e Cláudio Vidal. Mais tarde, no Mirante do Paixotão, teve lugar a apresentação do livro de poesia de Ricardo Jerónimo.
“A luz não se distingue da sombra”, de Ricardo Jerónimo, foi apresentado na Romaria Cultural de Gouveia numa conversa intimista sobre escrita, memória, criação e o lugar da cultura na sociedade.
Entre perguntas dos editores da Lado Esquerdo, Nuno Abrantes e Maria Sousa, e as respostas do autor, ficou evidente que este não é apenas um livro de estreia, mas o resultado de um percurso criativo amadurecido ao longo dos anos.
Logo no início da sessão, a editora destacou a raridade de encontrar um original com a qualidade do manuscrito enviado por Ricardo Jerónimo. Depois de um período em que a Lado Esquerdo privilegiou sobretudo traduções devido à falta de obras portuguesas que correspondessem aos seus critérios editoriais, o livro do autor representou uma exceção.
“Foi quase uma festa”, confessou a editora, explicando que a obra lhe devolveu algum entusiasmo pela poesia portuguesa contemporânea. Apesar de ser um primeiro livro, considerou-o “muito maduro”, uma opinião partilhada por outros leitores envolvidos no processo editorial.
Questionado sobre a origem da obra, Ricardo Jerónimo explicou que os poemas foram escritos ao longo dos últimos quatro anos. Antes disso, a sua relação com a poesia limitava-se a textos ocasionais, escritos para oferecer a pessoas próximas. A mudança surgiu após a pandemia, num período de transformação pessoal.
“Houve qualquer coisa, talvez no pós-pandemia e numa situação de transformação psicológica e mental, que me levou a começar a escrever poemas”, explicou.
A escrita nasceu sobretudo da necessidade de criar. Embora seja um consumidor atento de música, literatura, cinema e teatro, o autor reconhece que sente igualmente necessidade de produzir.
Inicialmente, os poemas não tinham qualquer intenção de formar um livro. Existiam como textos independentes até que, ao enviar o original à editora, recebeu o desafio de organizá-los como uma obra coerente. Esse trabalho levou-o a estruturar o conjunto em cinco partes temáticas, permitindo-lhe olhar para o resultado final como um verdadeiro livro e não apenas como uma reunião de poemas.
Emoções, imagens e cinema
Durante a conversa, Ricardo Jerónimo revelou que raramente parte de uma ideia racional quando escreve. A maior parte dos poemas nasce de uma emoção ou de uma imagem que permanece na memória.
“Às vezes começo por uma imagem, uma coisa que vi, que vivi ou que senti, e tento transformá-la em palavras.”
Esta dimensão imagética levou um dos entrevistadores a comparar o ritmo e a atmosfera do livro ao cinema de Terrence Malick, conhecido pela sucessão de imagens contemplativas e pela forma lenta como constrói a narrativa. Embora tenha reconhecido apreciar filmes como “A Árvore da Vida”, o autor admitiu nunca ter pensado nessa aproximação.
O prazer das interpretações
Longe de procurar uma leitura única para os seus poemas, Ricardo Jerónimo afirmou que uma das experiências de que mais gosta é ouvir as interpretações dos leitores.
“Quando alguém interpreta um poema, acho sempre muita piada. Às vezes coincide com aquilo que eu pensava; outras vezes não tem nada a ver. E isso também é maravilhoso.”
Para o poeta, a leitura transforma inevitavelmente o texto e acrescenta-lhe novas possibilidades de significado.
Um processo de escrita em permanente revisão
Um dos momentos mais curiosos da conversa surgiu quando o autor revelou que escreve praticamente todos os poemas no telemóvel.
A confissão já tinha surpreendido o público na apresentação realizada anteriormente na Feira do Livro de Coimbra, mas, para Ricardo Jerónimo, faz todo o sentido. O telemóvel está sempre disponível, permitindo-lhe escrever em qualquer momento e regressar constantemente aos textos.
O processo de revisão pode durar semanas ou meses. No documento onde guarda os poemas utiliza um sistema de cores: palavras assinaladas a azul representam escolhas provisórias; a vermelho ficam aquelas que sabe, desde logo, que terão de ser substituídas.
Influências difíceis de identificar
Apesar de ler regularmente, Ricardo Jerónimo reconhece que a poesia não é o género literário que mais frequenta atualmente. Questionado sobre influências, respondeu que nunca escreve com a intenção de se aproximar de um determinado autor.
“Tenho seguramente muitas influências, mas não são conscientes.”
Os editores concordaram, sublinhando precisamente a existência de uma voz própria, algo que consideram raro na poesia contemporânea.
A música como paisagem sonora
Convidado a imaginar uma banda sonora para o livro, o autor escolheu música instrumental.
O nome que surgiu de imediato foi o do pianista alemão Nils Frahm, cuja combinação de piano, sintetizadores e ambientes sonoros considera particularmente adequada ao universo do livro.
O papel da poesia e da cultura
Na parte final da conversa, Ricardo Jerónimo refletiu sobre o lugar da cultura na sociedade portuguesa, lamentando que artistas e autores tenham cada vez menos influência na formação do pensamento coletivo.
Para o escritor, aquilo que verdadeiramente permanece na sociedade não são os indicadores económicos nem as infraestruturas, mas sim os livros, a música, o cinema e as restantes manifestações culturais.
Criticou igualmente a forma como os artistas são frequentemente chamados a participar gratuitamente em iniciativas solidárias, enquanto todos os restantes intervenientes são remunerados, considerando que essa realidade revela uma desvalorização estrutural da cultura.
Ainda assim, defendeu que a poesia continua a ser necessária precisamente por fazer parte da identidade coletiva e por constituir uma das formas através das quais uma sociedade se compreende e se preserva.
A sessão terminou com o convite para a leitura de alguns poemas, entre eles textos inspirados nas memórias de infância do autor em Gouveia, cidade onde passou vários verões junto da avó e que continua a ocupar um lugar especial na sua memória afetiva.
Entre concertos e performances, a Romaria Cultural contou com exposições e instalações permanentes que, ao serem fruto de uma profunda simbiose entre o território e os artistas que de algum modo o foram habitando, coloriu vários espaços da cidade jardim.
Ao longo da tarde, a programação continuou com uma vista guiada a diferentes espaços na cidade de Gouveia onde foi possível experienciar diversas destas exposições e instalações que reuniam os diversos elementos da pintura, da fotografia, da música, da biologia e da literatura.
El orden que habita el caos
No estabelecimento Chocolate e Eu, Pilar Gutiérrez Pulido apresentou a exposição de sua autoria “El orden que habita el caos”, conjunto de aguarelas que convida o visitante a desacelerar o olhar e a descobrir a delicada ordem escondida por detrás da aparente imprevisibilidade da natureza. No ambiente intimista da chocolateria, as obras estabeleceram um diálogo silencioso entre a fragilidade da matéria, a passagem do tempo e a beleza que nasce precisamente daquilo que escapa ao pleno controlo humano.
Na apresentação da exposição, a artista espanhola explicou que o seu trabalho parte da observação da natureza enquanto sistema simultaneamente perfeito e vulnerável. Se, por um lado, o crescimento de uma flor ou o desenho do voo de uma traça parecem obedecer ao acaso, existe para lá dessa aparente desordem uma estrutura invisível, próxima da linguagem da matemática, da geometria. Contudo, essa ordem nunca é absoluta: o vento, a chuva, o sol ou a simples passagem de um outro ser alteram-lhe constantemente o percurso, tornando cada forma irrepetível e cada instante singular.
É precisamente essa condição efémera que Pilar Gutiérrez procura transportar para a aguarela, técnica que é em si mesma inseparável da própria ideia de vulnerabilidade – uma vez que tal como a natureza, também a água, o papel, a humidade ou a temperatura condicionam o resultado final, impedindo qualquer reprodução exata da mesma pintura. A aguarela deixa, assim, de ser apenas um meio artístico para se tornar uma extensão do próprio conceito da exposição: um exercício permanente de equilíbrio entre aquilo que o artista orienta e aquilo que inevitavelmente lhe foge das mãos.
Mas “El orden que habita el caos” é, ainda, uma reflexão profundamente pessoal. Pilar Gutiérrez descreveu o desenho como uma forma de terapia, um espaço onde procura encontrar ordem no caos do quotidiano.
Entre as exigências da vida familiar e da maternidade, são os pequenos blocos de tempo – um instante roubado às tarefas do dia – que alimentam a criação. Para a artista, é precisamente essa efemeridade escassa que dá valor ao desejo de criar, fazendo com que cada desenho represente não apenas uma imagem da natureza, mas também um breve momento de equilíbrio conquistado no meio da fugacidade da desordem da vida.
Pode ouvir a conversa com a artista no ‘podcast’ seguinte:
Continuamos com a visita guiada, desta vez para uma breve exposição do CERVAS, guiada por Ricardo Brandão sobre a fauna e a flora que podemos encontrar na zona centro do país. Exposição permanente que dá a conhecer mais profundamente o trabalho e acervo do CERVAS, organização já bem conhecida destas crónicas, e que pode ser visitada a qualquer momento na Casa da Torre.
Entre o Voo e a Palavra
Seguimos, então, para a exposição “Entre o Voo e a Palavra”, que unia caligrafia, fotografia, pintura, artes plásticas e música numa experiência que deixou todos os presentes imersos em nostalgia.
Os artistas Binau e Iuri Coelho tinham chegado dias antes para a elaboração de duas pinturas murais para além das obras que planearam ter em exposição.
Tivemos oportunidade de conversar um pouco com Iuri Coelho relativamente à sua participação na exposição que consistia na vertente da caligrafia e das artes plásticas. As suas obras consistem numa junção refrescante de objetos construídos a partir de vidro. O tema explora elementos da natureza como pássaros e plantas e liga-os à vertente da caligrafia através de algumas palavras que podíamos encontrar presentes nas obras e cujo significado se alinhava harmoniosamente com a estética já presente.
Pode ouvir a conversa com o artista no ‘podcast’ seguinte:
Ser
A par de “Entre Voo e a Palavra” as Galerias João Abel Manta acolheram “Ser”. Sendo uma instalação concebida por Simão, Vasco Bicker e Rúben, propunha-se a criar um contexto onde a fotografia analógica e a paisagem sonora se unissem para criar uma experiência artística imersiva e contemplativa.
Não se limitando à exposição de imagens, “Ser” propunha-se convidar o visitante a permanecer, a escutar e a construir uma relação mais demorada com cada fotografia, transformando a galeria num espaço introspectivo – onde o som prolonga o olhar e o olhar reconfigura o som.
À conversa com Simão, percebemos que a exposição nasceu tanto da proximidade que mantêm há vários anos com a Romaria Cultural – sendo os criadores romeiros de longa data – como da vontade de apresentar um projeto em que se reuniam um conjunto de fotografias analógicas captadas por cada um dos autores, provenientes de diferentes viagens e paisagens. Às fotografias acrescentaram uma composição sonora original que funcionava como pano de fundo imersivo de toda a experiência. O objetivo era o de criar um ambiente que convidasse cada visitante a construir a sua própria leitura da exposição.
Embora captassem diferentes olhares sobre o mundo, as fotografias acabaram por revelar, durante o processo de seleção, alguns elementos comuns. Paisagens e figuras humanas surgiam repetidamente nos arquivos dos três autores. Para Simão, o sentimento dominante aproxima-se de uma “melancolia alegre”: uma combinação entre serenidade, nostalgia e esperança que cada visitante é livre de interpretar de forma distinta, deixando que a experiência seja tão pessoal quanto as memórias despertam.
Também o espaço expositivo desempenha um papel fundamental na experiência. Os autores confessaram ter sugerido desde o início as Galerias João Abel Manta para acolher a sua proposta, precisamente pelas características arquitetónicas e pela forma como o som se prolonga para além da sala, dialogando com quem percorre o edifício.
A receção do público, conta, tem confirmado a boa escolha, destacando precisamente a harmonia entre fotografia, música e espaço. Antes de nos despedirmos, deixaram ainda um apelo para que iniciativas dedicadas à criação artística independente continuem a encontrar lugar em eventos como a Romaria Cultural, contribuindo para dar maior visibilidade a projetos que habitualmente permanecem fora dos circuitos.
Pode ouvir a conversa com a artista no ‘podcast’ seguinte:
Pena Suspensa
Nos interstícios desta visita guiada às exposições, a programação contou com um momento de performance trazida pelo coletivo “Grande Coisa!” nos paços da Câmara Municipal de Gouveia. O momento foi construído sobre a obra “Pena Suspensa”, peça que parte do trabalho literário, escrito sob a forma de correspondência, de uma antiga presidiária do Estabelecimento Prisional de Tires e que havia sido promovido pelo coletivo de defesa dos direitos e da dignidade das pessoas encarceradas “Vozes de Dentro”. A obra tratava de temas inerentes à experiência da ausência da liberdade como a solidão e o profundo sentimento de perda e alienação dos momentos alegres da vida humana.
Ao passo que declamavam o texto, os artistas iam entregando dois papeis presos por um delicado cordel – “Para Rislei” e “Para Syro”, escrito em cada um deles – aos espectadores, por forma a que estes deixassem uma mensagem. Mensagens que, de resto, constituíram o momento final da performance, no qual os artistas foram recolhendo e encenando num ambiente do mais puro intimismo e comunhão na introspecção.
Exposição Familiar
Para finalizar este pedaço da tarde marcado pelas exposições artísticas, tivemos oportunidade de relembrar a memória de António Pires através da sua exposição artística que consistia em diversas pinturas a óleo. Embora variassem muito no tema – nelas foram incluídas paisagens, animais e retratos – possuíam todas uma elevada qualidade técnica e artística.
Conseguimos encontrar um pequeno pedaço para conversar com as filhas do artista e professor de artes visuais e geometria descritiva, Paula e Carla Pires.
Fomos informados que António Pires já tinha exposto algumas das suas obras anos antes, em 2014 – na primeira edição da Romaria Cultural.
O artista pintava sobretudo de memória e com base em fotografias que tirava de paisagens. Era um amante da natureza e dos animais o que se torna óbvio através das suas obras. Foi ainda realçado pelas filhas do artista a relação muito próxima que tinha com a sua gata “Kitty” – que tinha mesmo reservado lugar na exposição na forma de um quadro central.
Pode ouvir a conversa com as filhas do artista no ‘podcast’ seguinte:
Chegou a noite e, com ela, regressam os momentos musicais….
Andorinhões are Indie
Nesta noite em específico o espetáculo iniciou-se com a banda Birds Are Indie. Após um concerto de 90 minutos, repleto de momentos caricatos, que incluíram uma história sobre um cartaz que dizia “Faz-me um filho, Rui Veloso!”, de momentos musicais íntimos e imersivos, e do arrumo dos instrumentos, tivemos finalmente oportunidade de conversar um pouco com o trio, já ao som dos “Máquina.” que ocupava o palco nesta altura da noite.
Começámos por falar sobre como surgiu a oportunidade de ir tocar a Gouveia. Sabíamos que já não era a primeira vez que o grupo participava na Romaria – que o tinha feito em 2016 – e ficámos a saber que isso foi um fator para este reencontro, mas que também havia uma ligação familiar com Gouveia por parte de Ricardo Jerónimo e Henrique Toscano que, de certa forma, facilitou também esta conexão.
Em relação ao alinhamento que escolheram para o concerto, ficámos a saber que grande parte dos temas que decidiram tocar foram dos seus últimos dois álbuns mas que também tocaram algumas músicas mais antigas.
Explicaram também que a escolha para os alinhamentos estava relacionada com os instrumentos necessários para a performance, já que Joana Corker e Henrique Toscano, sendo multi-instrumentalistas, incluem uma variedade de instrumentos no seu reportório o que afeta a logística dos concertos.
Outro aspeto pertinente relativo à banda é a alternância entre vocais principais e secundários por parte de Joana Corker e Ricardo Jerónimo. Perguntámos se havia algum motivo para tal e foi-nos esclarecido que era puramente uma decisão estética e que não estava relacionado com quem escreve as letras – já que a autoria dos textos pertence ao Ricardo apenas.
Conversámos um pouco sobre a receção do último projeto do grupo, lançado em março, intitulado de “The Stone Of Madness”. Partilharam connosco que o acolhimento do público estava a ser positivo e que tinha sido atraído pelo som característico da banda, que inclui indie, folk e bedroom pop, ou seja, sons e instrumentos diferentes.
Por fim, quisemos saber também quais eram as próximas atuações dos artistas e os seus planos para o futuro mais próximo. Esclareceram-nos que iriam tocar no início de agosto em Paiva no festival “Croka’s Rock”, e que depois voltariam a tocar no dia 5 de setembro em Coimbra, no Parque Dr. Manuel Braga e, por último, está planeado tocar na Festa D’Anaia em outubro.
Pode ouvir a conversa com os Birds Are Indie no ‘podcast’ seguinte:
A Máquina. e as Serras
Pouco depois do concerto – acabada a desmontagem do equipamento e o encontro com os romeiros mais entusiasmados – tivemos a oportunidade de conversar com os três elementos dos Máquina. A estreia em Gouveia, no âmbito da Romaria Cultural, assumia um significado especial: para alguns dos membros era a primeira visita à cidade, enquanto para outros representava um regresso a uma região onde permanecem laços familiares. Foi entre a expectativa e a familiaridade que a banda transformou o anfiteatro numa autêntica pista de dança.
Bastaram os primeiros minutos de concerto para que o público percebesse que a proposta dos Máquina. dificilmente cabe em rótulos convencionais. Entre o rock industrial, o techno e uma pulsação eletrónica incessante, o trio construiu uma atuação de enorme intensidade física, onde o movimento do público parecia tornar-se parte integrante da própria música. A dança não era apenas consequência do concerto: era um dos seus objetivos declarados.
Ainda nos bastidores, os músicos explicavam-nos que nunca existiu uma estratégia consciente para fundir géneros. A identidade da banda nasceu de forma espontânea, da partilha de referências musicais e de longas sessões de improvisação, onde cada elemento tocava aquilo que lhe surgia naturalmente. Vindos de um percurso ligado aos DJ sets e à música eletrónica, acabaram por transportar essa linguagem para os instrumentos mais tradicionais do rock, encontrando uma sonoridade que cruza o caráter repetitivo do krautrock, a energia do rock industrial e a força da música de dança eletrónica.
Essa liberdade criativa tornou-se precisamente uma das imagens de marca do projeto. Durante muito tempo, confessam, nem eles próprios acreditavam que estivessem a criar algo particularmente distinto. Foi apenas através da reação do público, concerto após concerto, que perceberam existir espaço para explorar ainda mais aquela combinação improvável entre guitarra, baixo, bateria e ritmos eletrónicos. A partir desse momento, o projeto ganhou uma identidade cada vez mais definida.
O concerto em Gouveia serviu também para apresentar ao público o mais recente álbum da banda, Body Transmission, lançado há apenas alguns dias. A receção, contam, tem sido calorosa, ainda que admitam ser difícil avaliar um disco no qual trabalharam diariamente durante meses. O objetivo, porém, era claro desde o início: criar um álbum pensado para a pista de dança, capaz de manter a mesma intensidade tanto ao vivo como numa escuta mais intimista. Um disco sem pausas, construído em torno de uma sucessão constante de temas carregados de energia.
Essa intenção tornou-se evidente no alinhamento apresentado na Romaria Cultural. As novas composições surgiam sem grandes momentos de descanso, mantendo uma tensão contínua que dispensava qualquer contemplação prolongada. O público respondeu da única forma possível: dançando. A primeira faixa do disco, significativamente intitulada “Dança”, parece funcionar como uma declaração de intenções para todo o espetáculo.
O processo criativo do álbum foi igualmente marcado pelas colaborações e pelas influências que moldam o universo dos Máquina. A participação de Sílvia Konstance, dos Dame Area, surgiu de forma inesperada, mas rapidamente se transformou numa das experiências mais gratificantes da banda, tanto em estúdio como em palco. Ao mesmo tempo, referências tão diversas como Sepultura, Boy Harsher ou Slayer coexistem naturalmente numa linguagem musical que recusa fronteiras rígidas entre géneros.
Apesar do sucesso crescente, o percurso da banda continua profundamente marcado pelo trabalho constante. Depois de centenas de concertos em Portugal e no estrangeiro, encontraram ainda espaço para dedicar semanas inteiras à composição e gravação do novo disco. O segredo, explicam, não reside em qualquer fórmula especial, mas numa dedicação integral ao projeto, encarado há muito como uma profissão e não como um simples passatempo.
Essa dedicação leva inevitavelmente a uma reflexão mais ampla sobre o panorama musical português. Durante a conversa, os músicos sublinharam a precariedade que continua a caracterizar grande parte da música independente nacional e lamentaram que o reconhecimento social da profissão de músico permaneça limitado. Ainda assim, recusam qualquer pessimismo: acreditam que é possível viver da música, desde que exista persistência, autenticidade e vontade de continuar a criar.
Foi precisamente essa autenticidade que deixaram como principal conselho para quem agora começa. Mais do que procurar tendências ou fórmulas de sucesso, defendem que importa fazer a música em que verdadeiramente se acredita. Afinal, recordam, nunca é possível prever quem estará na plateia de um pequeno concerto nem que portas poderão abrir-se a partir daí.
Depois da passagem por Gouveia, a agenda dos Máquina. continua preenchida, com concertos em Aveiro, Cadima, Constantina e Lisboa, antes de regressarem às digressões internacionais. Para quem assistiu ao concerto da Romaria Cultural, ficou a certeza de que a banda encontrou na Cerca um público disposto a aceitar o convite que lhes deixaram desde o primeiro instante: esquecer as etiquetas, deixar o corpo responder ao ritmo e, simplesmente, dançar.
Pode ouvir a conversa com os Máquina. no ‘podcast’ seguinte:
Findos os concertos, com o avançar da noite e com a trilha sonora do canto dos mochos e corujas destas Terras, continuou-se o baile na romaria…
Se os concertos marcaram o ritmo do segundo dia da Romaria Cultural, a noite ainda estava longe de terminar. Assumindo a controladora, chegaram o DJ A Boy Named Sue e Barrosa para, noite fora, prolongar a celebração num back-to-back que manteve a energia do público muito para além do encerramento dos espetáculos ao vivo. Entre as seleções que cruzavam as diferentes sonoridades de cada um, criou-se um exercício de diálogo musical, constantemente desafiante para ambos. A música continuou a reunir os romeiros, transformando o espaço num último ponto de encontro antes do amanhecer.
Entre o público, estavamos também nós que, após acabada a entrevista aos Máquina.,acabamos por ficar à conversa com eles – num diálogo que se veio a revelar uma espécie de entrevista mic-off , numa primeira fase, e numa troca de ideias e experiências particularmente agradável à medida que a madrugada ia tomando o seu devido lugar. Com o avançar das horas, o ambiente tornava-se cada vez mais descontraído. Os últimos resistentes, ainda em grande número, permaneceram na pista ao som da aparentemente infindável coleção de vinis de Sue – com a sua forte energia de rock’n’roll cruzado com rythm & blues, soul, punk rock e um cheirinho de música do mundo – e das malhas de Barrosa – num perpétuo flertar com o stoner e com o rock psicadélico.
Quando os primeiros sinais da madrugada começaram a surgir sobre Gouveia, deixando-se entrever pelas copas das árvores da Mata da Cerca, a Romaria Cultural confirmava uma vez o privilégio de se fazerem coexistir concertos, exposições, conversas, instalações e momentos de festa num mesmo percurso.
Entre as paisagens, as caminhadas, as galerias, a intensidade dos palcos e a pista de dança que resistiu até ao raiar do dia, a Romaria voltou a afirmar-se enquanto proposta multifacetada que se concretiza numa belíssima encruzilhada de encontros.
Texto e fotografias: Margarida Mendes e Miguel Henriques
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