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Rumando à Palavra: primeiro dia da Romaria Cultural de Gouveia
Entre os dias 24 e 26 de julho, Gouveia voltou a afirmar-se como um ponto de encontro entre criação artística, património e comunidade com a realização da 12.ª edição da Romaria Cultural.
Ao longo de três dias, concertos, cinema, performances, exposições, oficinas, caminhadas e atividades de natureza espalharam-se por vários espaços da cidade, reafirmando um modelo de programação que privilegia o diálogo entre a cultura contemporânea e a paisagem cultural e natural desta cidade do sopé da Serra da Estrela. A Romaria Cultural voltou a assumir-se como um espaço de encontro entre artistas, habitantes e visitantes, onde diferentes linguagens artísticas partilharam o mesmo território e o mesmo espírito de proximidade.
Na margem da margem da margem…
Momentos antes do concerto de GANA, primeiro grande momento musical da noite no Anfiteatro da Cerca, tivemos a oportunidade de conversar com os quatro elementos deste coletivo. Foi a primeira vez que Raffa, Zandré Ramos, Freddy e Fábio Rodrigues, que substituia Dosha na bateria, rumaram até Gouveia para atuar na Romaria Cultural, a convite de Tiago Mota. O alinhamento que conceberam era já materialização do conceito do próprio coletivo: cruzar a palavra, instrumento por excelência da Spoken word e do RAP, com as influências musicais do rock alternativo e de uma produção mais eletrónica nas teclas.
Alinhamento que foi pensado para divulgar o seu mais recente álbum, “Outros Dias”, lançado em outubro do ano passado, mas também de manter em contacto e diálogo com os trabalhos anteriores do coletivo.
Sendo, nas palavras de Raffa, “um álbum mais conceptual, mais dedicado à palavra e um bocadinho mais calmo” entenderam que, em bom espírito de Romaria, deveriam trazer ao palco uma reimaginação da sonoridade que cruza a essência mais calma do álbum com o espírito de festa da ocasião. Foi sob este mote que tomaram de assalto o palco do Anfiteatro da Cerca, numa exibição repleta de energia e duma profunda simbiose entre as palavras de Raffa e um registo “um bocadinho mais rock, um bocadinho mais mexido”.
O álbum “Outros Dias” conta com colaborações de destaque com artistas como Andrea Verdugo, A Garota Não e Maze (dos Dealema), ainda que não estivessem presentes neste espetáculo, as faixas que resultaram destes diálogos fizeram parte da exibição e colheram largos aplausos do público.
Público esse que se reuniu no anfiteatro e que foi acompanhando o concerto com interesse, captado pelas palavras, pelo ritmo e pela mensagem que não se mostrava nada tímida ou inibida de tecer críticas assertivas do “estado a que chegamos”.
No backstage, ainda antes do concerto, falavam-nos muito do processo de criação por detrás do som e do sentido: o coletivo surgirá de um convite mútuo entre os membros por partilharem todos as paisagens de Arruda dos Vinhos, Raffa trouxe para a mesa a ligação próxima ao Hip-hop, subcultura que era largamente desconhecida pelos restantes membros da banda. Foi sobre a spoken-word e nessa estranheza que se começou a edificar a mistura inusitada que viria a dar origem à identidade do coletivo, que dizem subscrever ao “Hip-hop Progressivo”.
Ao longo do concerto foram vários os temas comuns, temas com os quais o público se identificava de forma clara: a crítica política geral mas, especialmente, a reflexão em torno da experiência das periferias – especialmente no tema “Periferias” – encontrou no público em Gouveia caixa de ressonância das dificuldades sentidas por duas zonas diferentes, Arruda dos Vinhos e Gouveia, num país que sentem que à parte Lisboa, “é paisagem”.
Antes de pisarem os palcos da Romaria passaram recentemente pelo Porto, por Lisboa e pela Figueira da Foz, mas, para os que não conseguiram estar presentes, anunciaram que a 20 de Novembro farão um concerto, em Arruda dos Vinhos, concerto que contará com os artistas convidados do “Outros Dias”.
Pode ouvir a entrevista aos GANA no ‘podcast’ seguinte:
No intervalo entre bandas os festivaleiros foram convidados a conhecerem os bichos noturnos da Mata da Cerca.
Numa noite marcada por alguma neblina e temperaturas pouco convidativas, a Mata da Cerca, em Gouveia, voltou a revelar a extraordinária biodiversidade que ganha vida quando o sol se põe. A iniciativa “Bichos da Noite”, promovida pelo CERVAS – Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens –, levou participantes a descobrir um universo de espécies frequentemente desconhecidas do grande público ou conhecidas mas mal amadas como as traças.
No intervalo da atuação entre os Gana e os Esquerda, vários insetos noturnos responderam ao convite da luz instalada junto ao carvalhal da Mata da Cerca. O objetivo foi dar a conhecer a fauna que habita este espaço natural, onde coexistem morcegos, corujas, mamíferos como a gineta e o corço, além de uma enorme diversidade de insetos.
Durante a sessão, Ricardo Brandão, coordenador do CERVAS, explicou que as traças são um dos grupos mais numerosos da fauna portuguesa, existindo cerca de três mil espécies no país. Em comparação, as borboletas diurnas representam apenas cerca de 150 espécies.
Apesar da má reputação associada às traças, sobretudo por algumas espécies atacarem a roupa, o especialista recordou que estas representam apenas uma pequena fração do grupo. A grande maioria desempenha funções essenciais nos ecossistemas, nomeadamente na polinização de inúmeras plantas durante a noite, complementando o trabalho realizado de dia por abelhas, vespas e borboletas.
Ao longo da observação, os participantes puderam conhecer diferentes famílias de borboletas noturnas, descobrir as suas estratégias de camuflagem e compreender como muitas desenvolveram mecanismos de defesa para escapar aos seus principais predadores, os morcegos.
Um dos exemplos apresentados foi uma espécie que apenas revela, por breves instantes, uma intensa coloração avermelhada escondida sob as asas, permanecendo quase sempre perfeitamente camuflada contra os troncos das árvores.
Uma das maiores traças da Europa
Entre as curiosidades partilhadas destacou-se o grande pavão-noturno, considerado uma das maiores traças da Europa. Apesar das suas dimensões impressionantes, a fase adulta desta espécie dura apenas cerca de uma semana, tempo suficiente para acasalar, colocar os ovos e terminar o seu ciclo de vida. A maior parte da sua existência decorre ainda na fase larvar.
Também foram apresentados outros habitantes da Mata da Cerca, como a vaca-loura, o maior escaravelho europeu, dependente de carvalhais maduros e madeira em decomposição. Neste caso, a fase larvar prolonga-se durante cerca de três anos, enquanto o adulto vive apenas alguns meses.
Além das traças, a luz atraiu ainda diversos gafanhotos, alguns bem pequenos, permitindo aos participantes observar espécies pouco habituais em atividades noturnas.
Ciência ao alcance de todos
Uma das mensagens centrais da sessão foi mostrar que qualquer pessoa pode contribuir para o conhecimento científico. Ricardo Brandão explicou que basta uma simples fonte de luz, instalada numa noite quente e num local pouco iluminado, para observar uma surpreendente diversidade de insetos.
O coordenador do CERVAS destacou igualmente o trabalho desenvolvido pela Rede de Estações de Borboletas Noturnas, uma associação de voluntários que monitoriza espécies em todo o território nacional e publicou um guia de identificação das principais traças portuguesas.
A utilização da aplicação iNaturalist foi também recomendada como ferramenta de ciência cidadã. A plataforma permite fotografar plantas, insetos, aves ou outros animais, recebendo uma identificação inicial baseada em inteligência artificial, posteriormente validada por uma comunidade de especialistas. Os registos recolhidos contribuem para mapear a distribuição das espécies e já permitiram identificar espécies raras e até novos registos para a Serra da Estrela.
O CERVAS é muito mais do que recuperação de animais
Embora seja conhecido sobretudo pelo trabalho de recuperação de fauna selvagem ferida, o CERVAS aproveitou a iniciativa para recordar que a sensibilização ambiental é uma das suas principais missões.
Ao longo do evento foram ainda divulgadas outras atividades inseridas na programação da Romaria Cultural de Gouveia, incluindo observação de aves urbanas, sessões dedicadas aos andorinhões, conversas sobre os 20 anos do CERVAS e libertações de aves recuperadas na natureza.
No final, ficou o convite para olhar a noite com outros olhos. Afinal, enquanto a maioria das pessoas dorme, milhares de espécies continuam a desempenhar um papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas, muitas vezes invisíveis, mas absolutamente indispensáveis.
Após o segmento dos Bichos da Noite, o público regressou ao Anfiteatro da Cerca onde o Grupo Esquerda os aguardava, prontos para exceder expectativas.
O grupo de rock alternativo de Leiria deu um espetáculo que para alguns foi até um pouco inesperado pela positiva tendo em conta a quantidade reduzida de material que têm lançado online até à data.
Os singles “Sangue Menstrual” e “Corpos na Revolta” proporcionaram aos que seguem a banda nas suas redes, um pequeno sabor prévio do que os elementos do grupo conseguiram entregar durante a sua atuação aqui no Anfiteatro da Cerca. Os artistas não só tocaram temas que não se encontram disponíveis online como ainda apresentaram um cover do grupo Repórter Estrábico da música “Mama Papa”.
Após o concerto tivemos oportunidade de conversar um pouco com os elementos de Esquerda que muito atenciosamente se apressaram no arrumo dos seus materiais para nos receberem e nos esclarecer relativamente a diversas lacunas que tínhamos relacionadas não só a informações sobre o material que a banda estava a trabalhar mas também sobre a sua sonoridade, influências e posições políticas.
Quando questionados relativamente às suas influências e ao cover que apresentaram dos Repórter estrábico, Idalécio Francisco (Guitarrista) informou-nos que cada um dos elementos trazia diferentes influências para o grupo e que a música “mama papa” tinha sido algo que ele próprio gostava muito pessoalmente e que se enquadra também liricamente com os valores que todos apoiam.
Outro aspeto que sobressai é a sua escolha da peculiar entrega vocal. Queríamos saber se a sua escolha de vocais mais falados era puramente estética ou se servia para trazer mais atenção ao conteúdo lírico que queriam transmitir. Foi-nos esclarecido que era uma escolha estética de que eles gostavam também por sublinhar a pertinência da lírica na sua música. Acrescentaram que não era algo pelo qual eles tencionam ativamente que os defina nem sabem se no futuro irão continuar com o mesmo tipo de vocais, mas que para já, é o que faz mais sentido.
Um outro elemento muito presente na música do grupo é a sua orientação política o que nos levou a questionar como a banda conjugava a sua vertente lírica e a sua vertente sónica. Ficámos a saber que a vertente sónica é a que surge primeiro no processo criativo e que apenas depois é que surge a letra, que é adaptada aos sentimentos que surgem com a sonoridade criada. Disseram-nos também que num tom mais humorístico que gostavam de quando ocorriam reações negativas à sua vertente lírica porque para eles significava que estavam a incomodar as pessoas que queriam de facto incomodar e com quem discordam.
Uma informação também muito pertinente que queríamos esclarecida era o material que tinham tocado no concerto e que não se encontrava disponível online. Tendo sido questionados sobre tal, disseram-nos que na realidade já tinham gravado material para um álbum que contavam em lançar ainda em 2026. Embora todas as músicas já estejam selecionadas e gravadas, ainda não há uma capa de álbum definida ou um título.
Por fim, quisemos saber o que é que havia programado para o futuro próximo da banda em termos de performances ao vivo. Ao que nos foi dada a informação de que não havia nada programado para agosto mas que já tinham um concerto agendado para setembro em Leiria e um outro em Coimbra, mais especificamente no Teatrão, em finais de outubro.
Pode ouvir a entrevista aos Esquerda no ‘podcast’ seguinte:
Texto e fotografias: Margarida Mendes e Miguel Henriques
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