[object Object]
04.09.2025POR Lexi Narovatkin

Les Siestes Coimbra 2025 – Na vanguarda cultural da cidade

Em Coimbra voltámos a receber a dança e a experimentação musical em atuações de qualidade, num exemplo do que se mostra ser saudável para a dinamização cultural no meio urbano, e que poderá deixar iluminado um caminho-guia a seguir nos próximos tempos.

A anual manifestação em Portugal do festival originalmente criado em Toulouse, na França, teve lugar nos dias 29 e 30 do passado mês de agosto, e fez do Jardim da Sereia palco para um fim de semana com um alinhamento inédito, e que se pode argumentar ter sido um dos mais elevados a nível de qualidade nos últimos anos por cá.

Num horário compreendido entre as seis da tarde e a meia noite, de entrada gratuita, num dos maiores espaços verdes do centro de Coimbra, centenas de pessoas tiveram oportunidade de escutar momentos de imersão cuidadosamente entregues, e ainda picos de dança efusivos, que trouxeram pessoas de outras cidades do país precisamente pela curadoria musical do festival, que anteriormente partilhou com a cidade nomes desde Damien Dubrovnik a Radio Hito. 

Dia 1 – Psicodelia, textura e mistura 

Na sexta feira de dia 29 já estava tudo montado pelo Jardim da Sereia, tapetes verdes estendiam-se pelo chão, alguns puffs estavam colocados de frente para o palco para as primeiras horas de escuta deitada, e um público que lentamente encontrava o seu caminho para dentro do jardim iria dar o corpo que faltava para o momento de comunhão. Apareciam caras conhecidas e outras curiosamente levadas pelo som, rapidamente apossando os lugares que o espaço permite ocupar de forma livre. 

Foi com Isabel Pereira, sob o nome Son Objet, que iriam soar as primeiras musicalidades desta edição, a exploradora de arquivos-áudio e entusiasta pelo som que possa soar estranho ou deslocado, tomou conta dos decks com uma seleção que girou temas adjacentes à música folclórica e psicadélica, híbridos de kraut e outros não caracterizáveis a caixas de género, sempre priorizando aquele tipo de som que ficou fora da grande indústria, e que vive às mãos de quem o cuida e apresenta delicadamente, como uma mostra de um museu de estranheza e nostalgia não experienciada.

O trabalho da artista pode ser ouvido no seu programa Time Capsule na Sphere Radio, que conta também com artistas convidados por Son Objet. 

Já perto do final do primeiro act, com o recinto mais cheio, o céu virava para o cinzento, e a equipa de produção mostrou-se preparada para qualquer entrave meteorológico, protegendo o material de forma preventiva. Não seria caso de interromper nenhuma atuação, pois para a plataforma central entrava Vanessa Bedoret, artista francesa e sediada em Londres, que levou o seu mais recente disco Eyes (2024) a ser apresentado em Coimbra. 

A sua interpretação da música electrónica que tanto a influenciou foi acompanhada de violino processado por efeitos, e pela sua voz que se chegava aos ramos mais altos do jardim, por vezes entravam kicks característicos da música de club, mas que voltavam a imergir para o universo de texturas mais hipnóticas que moldam o seu mais recente trabalho.

Foi um concerto belo, e acima de tudo, uma ilação que prova a fluidez e junção de diferentes culturas sonoras, onde se encontra a verdadeira beleza criativa, não redutível a um único mundo de som.

A terceira atuação foi da cortesia de Amuleto Apotropaico, dupla composta por António Feiteira e Francisco Oliveira, que em regresso a Coimbra, tocaram o seu álbum homónimo (2025), um concerto com cerca de meia hora, que contou em formato live, com o reprocessamento das suas anteriores gravações ao vivo, e mergulharam o público num autêntico buraco negro de arranjos electrónicos, espirituais e magnéticos.

A luz cor de rosa e a máquina de fumo incessante acrescentaram ainda mais a ambiência expansiva da sua mostra musical, Francisco Oliveira falou à RUC acerca do trajeto mais recente da dupla e de como tem sentido a sua performance ao vivo. 

Faltavam dois atos para o final do primeiro dia e o afunilar da noite começou com a dupla energética Takkak Takkak – Shigeru Ishihara e Mo’ong Santoso Pribadi aproximaram o público para um concerto polirrítmico, distorcido, por vezes gritado, acompanhado sempre do multi-instrumentalismo das criações DIY de Pribadi, que mostrou em Coimbra instrumentos não convencionais construídos por si mesmo.

As tradições sonoras da Indonésia e do Japão, adaptadas à mentalidade incisiva da dupla, e unidas à música de club, trouxeram o primeiro momento de dança do festival. 

O final do primeiro dia ficou a cargo de Beatrice M, DJ residente em França e nome que está por trás da editora Bait, mestre na mistura e na seleção de dubstep puro, colocou a pista em dança (e em mãos de pistola, como rege a música que toca), numa hora e meia unicamente em vinil e com foco nas frequências baixas. Beatrice Masters tocou pela segunda vez em território nacional depois de ter passado pelo Outra Cena em Lisboa, e atualmente corre várias salas pela Europa, priorizando e divulgando a bass music a quem mais por ela se entusiasma. 

A energia densa de Takkak Takkak foi transformada num momento mais sólido de dança, com um som viciante e o público sempre à espera da próxima faixa, o último DJ set encerrou assim a primeira noite de Les Siestes e deixou uma ânsia para o segundo dia de festival que iria contar com mais perícia atrás dos decks. 

Dia 2 – Arregalados pelo talento

De igual modo ao primeiro dia, o sábado começou também com a chegada progressiva de corpos ao Jardim da Sereia, e com o preenchimento do centro e das laterais do espaço que funcionou enquanto recinto. O sol mantinha um efeito de calma quando passava pelas folhas altas e não tardou até dar início o primeiro concerto, das I’A’V. 

O trio composto por Inês Malheiro na voz e na electrónica, Arianna Casellas no violoncelo, e Violeta Azevedo na flauta transversal, entregou um dos momentos mais bonitos do evento, uma mostra hipnótica, íntima, mas que ainda assim não são as palavras indicadas para fazer jus a uma totalização que possa descrever esse primeiro concerto.

As três artistas falaram à RUC sobre o seu momento criativo, que começou enquanto uma proposta do bracarense gnration e que as tem levado a tocar pelo país, esperam ainda o lançamento do seu álbum, que se encontra já gravado e certamente é um dos mais esperados para quem já teve a oportunidade de o ouvir ao vivo. 

O ambiente relaxado foi complementado por Harry Gorski-Brown, artista de música gaélica que se apresentou pela primeira vez em Portugal com as palavras: “What I am going to play are songs that are one hundred years old, and songs about love with one hundred years” (“O que eu vou tocar são músicas com cem anos, são canções sobre amor de cem anos”). O concerto voltou a representar uma estética folclórica, acompanhada de gaita de foles com uma mínima componente electrónica e a voz de Gorski-Brown, que seria complementada num dos temas ao vivo por Isa Gordon, que posteriormente à sua participação em palco voltou para junto do público para o resto do concerto. 

Uma pausa mais longa para o terceiro act teve lugar e permitiu ao encontro entre elementos do público e a um momento de feedback orgânico acerca do festival, e já na ausência de luz natural entrava a dupla Rat Section, composta por Ratty Sleigh Johnny e Soopi, que já despertava curiosidade no momento em que foi anunciada. 

A performance iniciou com o tapete de som a ser colocado para o PA e os dois artistas presentes frente a frente com o público, unicamente munidos do seu corpo e dois microfones sem fio. O que se seguiu foi uma mostra em seriedade e movimento corporal bruto, verdadeiramente impressionante pela capacidade de coordenação de coreografia.

O que faltou na manipulação musical ao vivo foi certamente compensado pela sua presença imponente, por vezes acompanhada de trocas vocalizadas e momentos em que ambos criaram tensão um com o outro, apenas através da sua dinâmica silenciosa, preenchida pela música cheia de graves. 

A atuação seguinte, a cargo de Loto Retina, contou com a mudança do set-up para junto do público, uma mesa cheia de hardware, um drum pad circular e um início enigmático preenchido com trejeitos de IDM, que rapidamente culminou numa hibridez de breakbeat e drum and bass, com os corpos em dança à volta de Loto Retina e ao longo do corredor do jardim.

Quem ficasse atento aos movimentos podia afirmar que foi um dos momentos mais libertadores naquela pista, a intensidade e a minúcia electrónica daquele momento parecia que não ia ter fim, e o culminar dançante deste segmento iria estar já a ser preparado, com a equipa de produção a montar a mesa e a ligar os CDJs para Zohar. 

Zohar, outra DJ de renome no panorama internacional, surpreendeu (para quem não sabia o que esperar), com a sua seleção incisiva de bass music cortante, temas tecnóides, de breakbeat, dubstep e alguns até reminiscentes à música industrial. Uma leve chuva caia pela pista mas não causou desistências, escutaram-se temas de editoras importantíssimas ao ouvido versado, como por exemplo a gigante de Munique, Ilian Tape, e pelo público ouviam-se comentários de apreço e admiração pelas faixas colocadas pela DJ e produtora. 

Daqui, em transportes vários, incluindo um autocarro disponibilizado pela Fundação Bissaya Barreto, uma grande parte da crowd seguia para o Teatrão, onde ia decorrer o after oficial do festival até às seis da manhã com cerca de 300 pessoas.

After – Dança na sala grande 

Um segmento que pela primeira vez teve lugar fora da localização principal (não esquecendo os afters no Aqui Base Tango em 2018), materializou-se no Teatrão, com bilhetes de entrada e lotação limitada e um alinhamento de luxo. 

Foram três DJs nacionais que cuidaram de quem não queria o final do evento, David Rodrigues, Dawn Dani e XCI, que passaram por três abordagens diferentes à música electrónica de dança. 

Natural de Coimbra, David Rodrigues, quase dispensado de apresentações ao público local, colocou a sua seleção forte que imediatamente levou uma considerável porção das pessoas para dentro da sala, a sua escolha pelo techno direto, já conhecida e infalível, colocava os pés em movimento, e as caras familiares da noite davam uma ambiência quase já clássica à sala, e com as palavras “Been There Done That”, inscritas na sua camisola e fixas na memória da cidade, guardou o primeiro slot da noite. 

A bracarense Dawn Dani, pela primeira vez em Coimbra, quebrou o habitual (ao nosso público) quatro-por-quatro e entregou duas horas a trasladar pelo ritmo halftime no drum and bass hipnótico, sempre com uma inclinação ao que é o grande chapéu do leftfield electrónico. O foco nas frequências baixas e instrumentação quebrada foi sempre acompanhado pelas texturas altamente sensíveis e envolventes da sua seleção, e para o segmento final guardou as sonoridades do dubstep que preenchiam a sala e vibravam nas nossas caixas torácicas, um verdadeiro colapso na dualidade entre o som e o corpo.

O terceiro e último momento de DJ set ficou a cargo de XCI, natural de Lisboa e artilhado da sua seleção visceral dentro do electro, EBM e em geral na música industrial electrónica, com uma grande influência do repertório punk nestas variantes musicais, permitiu o disparo dos últimos cartuchos da festa. Tocado a alto e bom som, os graves fortes e melodias penetrantes envolviam em movimento quem tinha acompanhado o festival desde o início, trazendo um final mais do que merecido e trancado a chave de ouro. XCI tinha já tocado em Coimbra e quem esteve presente no evento anterior sabia para o que vinha e não saiu desapontado.

Chegou assim ao final mais uma edição de Les Siestes Coimbra, mostrando à cidade uma produção feita com gosto, sem cair no amadorismo e longe de ser mais um evento para as massas. De certa forma podemos considerar o festival como um momento educativo, que traz a Coimbra um festival gratuito, sem constrangimentos, e alguma da curadoria mais improvável, sempre acertada, e acima de tudo que mostra qualidade e atenção na escolha. 

Fotografia por Pedro Cosme.

PARTILHAR: