
Coberturas RUC
Todas as coberturas de festivais realizadas pelas equipas da RUC.
UM PROGRAMA DE:
Programação RUC
O trio de São Paulo Pink Opake, que tocou durante o Extramuralhas 2025 pelo Jardim Luís de Camões, falou com Laura Rosário e Lexi Narovatkin, e contou à RUC as influências e experiências do projeto.
Pink Opake, obrigado por darem um bocado do vosso tempo à antena da Rádio Universidade de Coimbra, depois do vosso concerto aqui na edição de 2025 de Extramuralhas. Em primeiro eu gostaria que se apresentassem os três e dissessem qual é o vosso papel na banda.
P: O meu nome é Paulo, Paulo Beto. Eu toco guitarra e faço as programações eletrônicas.
T: Eu sou a Tatiana Meyer, faço vocal e toco sintetizador.
M: Eu me chamo Mari Crestani, eu toco baixo, saxofone e backing vocals.
É a vossa primeira vez em Portugal a tocar?
T: Não. Nós já viemos em Portugal no ano passado. A gente tocou em Porto, no festival Serralves em Festa. E tocamos em Lisboa, no Lounge. No ano passado. Dessa vez é a segunda vez.
Vocês vêm da cena gótica de São Paulo, correto? Como é que descreveriam o panorama dessa cena local, da vossa cidade? E aqui pergunto se a cena gótica de São Paulo é fechada ou se converge com outras subculturas urbanas?
M: Se converte muito com outras culturas urbanas, porque São Paulo é uma cidade cosmopolita, muito grande, muitas coisas se misturam. Então a cena gótica é bem diversa. Tem bandas que tocam com partes eletrônicas, bandas que são mais com instrumentos analógicos. Então você vai encontrar bandas de vários estilos dentro do gótico e outras vertentes também em São Paulo.
T: É uma cena muito interessante que ela nunca acabou. Mesmo estando mais em alta, menos em alta, a gente percebe. Mas desde a década de 80, e a gente curte mais ou menos desde aquela época, 90 e tal, ela vem se mantendo. E hoje ela está super fervendo mesmo, renovada, com um monte de banda bacana aparecendo. A gente tem casas abrindo. Antigamente eram duas, três casas. Hoje o pessoal está fazendo as próprias festas. Então vários pequenos grupos acontecendo.
Uma cultura mais DIY?
[Todos]: Exatamente.
Tocar num festival numa cidade pequena é diferente de tocar num espaço maior, numa sala maior. As vossas circunstâncias de performance moldam? Como é que apresentam o vosso concerto ao vivo num espaço aberto ou num espaço fechado? Existe alguma diferença de preparação?
P: Sim, existe muita diferença. Tudo é maior, tudo é numa escala maior. Então se você não estiver muito bem preparado em tocar naquilo que você se preparou, você pode até se perder, porque há muito espaço. E a reação também é muito mais gente, as pessoas reagem mais. Ou seja, é uma experiência bastante diferente, sim.
T: A escala daqui pra mim foi muitíssimo interessante. A gente toca muito em lugares fechados e pequenos. Muitas vezes lugares sem palco até. No mesmo nível do público que a gente adora, é muito legal. E esse palco é um palco incrível, grandioso. É um palco alto. Então tem uma diferença grande, mas a energia aqui foi incrível.
M: Acho que a diferença também é que a galera aqui foi muito legal na regulagem. Essa parte toda da equipe técnica é muito importante. A galera aqui do festival arrasou. O som estava muito legal, muito foda. Pode dar muito errado, mas deu muito certo.
Se se lembrarem, qual é que foi a sala mais desafiante para vocês para tocar ao vivo? Para tocar ao vivo?
P: Madame, desafiante? Não, lá é legal.
T: Mais difícil.
P: Mais difícil em termos de público ou de lugar?
Em termos de tudo. Em termos da vossa própria perceção enquanto banda em palco, em relação com o público, nenhuma?
M: Acho que não tem tempo ruim, não.
T: Mas eu acho que o mais difícil é quando justamente a gente não tem um apoio técnico. Porque a gente se prepara muito e a gente vai com tudo super estruturado. Mas se a casa, por exemplo, não tem uma aparelhagem bacana
T: Uma caixa boa
M: Aí isso chateia um pouco. Porque a gente quer ouvir a potência, por exemplo. A potência que teve aqui é o máximo. A gente sabe que não é todo lugar que vai ter. Mas às vezes o lugar é muito ruim.
P: Um dos problemas do Brasil, nesse sentido, é que grupos alternativos, etc., eles não se preocupam muito com a qualidade das caixas.
T: Às vezes não tem grana. A realidade é essa, é muito mais difícil comprar. É muito mais difícil. Então é desafiador nesse sentido. Quando você ouve a caixa, a gente fala.
Relativamente à música que vocês tocam, e além dos gêneros que vocês tocam, quais é que são outras influências que vocês considerem relevantes no vosso percurso, enquanto não só artistas, mas enquanto ouvintes?
P: Olha, falando de música, eu sou apaixonado pela música industrial, mas eu também gosto muito, por exemplo, de Félix Kubin, que é um cara génio. Ele não é considerado um cara do gótico, mas ele é um cara da música eletrônica, muito genial. Então tem o Uwe Schmidt também, da Alemanha, que é um… Não, o Throbbing Gristle eu já falei, do industrial, SPK, essas bandas são a minha paixão mesmo, sabe? E eu era guitarrista nos anos 80, e agora que eu voltei para a guitarra, então eu sempre fui da parte eletrônica. Então, assim, o Pink Opake tem essa característica de trazer de novo o baixo, a guitarra, para os meus trabalhos, sabe?
M: Eu acho que também eu, por exemplo, eu vim do garage rock, do punk rock, né? Então tem essa mistura também de outros estilos, que convergem também com o tipo de som que a gente faz. E para além da música, tem outras artes e estéticas, que acabam influenciando musicalmente, né?
P:Assim, literatura, né? A gente cita bastante literatura no nosso trabalho.
T: Eu acho que o nosso trabalho tem muita influência do punk também, né? A gente quer ter o que falar. Então, tem essa cara dark wave, cold wave, né? Mas eu acho que tem protesto, tem muito do punk também.
Eu queria fazer-vos uma pergunta a propósito de uma citação ou de um certo diálogo sobre o escritor querer ser lido. Porque aquele era muito familiar, mas eu não sei de quem é que é. Por isso, se vocês me pudessem dizer, Hilda Hilst?
T: A música Desejo é inspirada num dos poemas dela. Desejo é lava, depois pó, depois nada. O que a gente fez na música, a gente pegou fragmentos desse poema e fez uma homenagem a ela.
Uma última questão para rematar. O que é que podemos esperar de Pink Opake? Algum disco novo por sair, no qual estejam a trabalhar?
M: Está quase pronto. Várias músicas que a gente tocou hoje são músicas novas, inclusive porque eu acabei de entrar na banda, não faz nem um ano que eu estou na banda. Então a gente está se entendendo. A coisa está se amarrando. E tem várias músicas novas que a gente gravou que não estão nesse CD.
T: Em alguns meses desse ano ainda vai ter disco novo.
P: No passado, eu compunha as músicas, criava tal. Depois eu ia pensar como é que eu ia tocar ao vivo. Mas é muito melhor quando você toca ao vivo, aí você prepara a música realmente para ela ir para o disco. Eu acho mais legal a gente ir trabalhar assim.
T: Inclusive algumas músicas ganharam potência de a gente tocar no palco e perceber como elas funcionam.
M: E tem algumas músicas que têm improvisos no meio, que a gente fez. Então tem essa disponibilidade para o risco, que eu acho que é legal também. Muito obrigado pelo vosso tempo.
Li numa entrevista vossa que vocês adorariam responder qual é a vossa banda favorita. Por isso estou perguntando agora qual é a vossa banda favorita.
T: Eu acho que eu posso dizer. Sempre a primeira que vem. Eu amo um milhão, óbvio. Mas é sempre a primeira que vem. Na minha cabeça é Malaria.
M: Eu vou dizer Mercenárias.
T: Inclusive ele também toca com as Mercenárias.
M: De vez em quando toco. Mas amo, sou fã.
P: A minha banda favorita tem que ser a banda favorita do dia. Eu digo que uma banda moderna, favorita, é o Dame Area, que eu amo.

