
Coberturas RUC
Todas as coberturas de festivais realizadas pelas equipas da RUC.
UM PROGRAMA DE:
Programação RUC
Durante a edição de 2025 de Extramuralhas, Laura Rosário e Lexi Narovatkin entrevistaram Carlos Matos, criador e organizador do festival gótico.
Boa tarde, Carlos. Obrigado por dares um bocado do teu tempo à antena da Rádio Universidade de Coimbra neste último dia da edição de 2025 do Extramuralhas. Como é que está o teu feedback até agora, desde o início do festival?
Bom, antes de mais, deixa-me agradecer a oportunidade de ter antena na RUC, uma rádio que eu ouvia desde jovem. Aliás, eu vivia numa aldeia em que não se apanhava propriamente a RUC e eu agarrava no meu carro e ia até à zona de Pombal para sintonizar a RUC. Portanto, para mim é muito importante estar a reportar “o meu festival”, porque apenas estou a cara mais conhecida de uma grande equipa, na Rádio Universidade de Coimbra. Bom, agora em relação à pergunta que me fizeste, eu não posso estar mais satisfeito. Faltam quatro concertos para acabar, à hora a que me estás a entrevistar, três aqui no Jardim e um na Stereogun. E basta andarmos aqui na zona do festival, na zona central aqui do Jardim, para perceber que as pessoas estão com semblante feliz. E num mundo como o de hoje, em que não há grandes motivos para sorrirmos, ver as pessoas a sorrir e a dançarem com felicidade e estarem, de certa forma, alheadas da realidade, quer seja política, social, quer seja a realidade dos incêndios, etc. São momentos que devem ser valorizados.
Portanto, mais do que a música e mais do que a importância dos artistas, que têm importância, alguns estão a estrear em Portugal, mais importante que isso tudo é a comunhão que se está a viver aqui. E num festival que tem uma mensagem forte, como é o Extramuralhas, que este ano adotou o lema “Mais Empatia, Melhor Humanidade”, não podíamos estar mais satisfeitos com o resultado disso. Aliás, hoje às três da tarde, ontem às onze e tal da noite, fizemos uma espécie de apelo, ou hoje às onze da manhã, olha, já não sei! Mas fizemos um pequeno apelo para que as pessoas, não só os entremuralhenses, como quem se quisesse juntar da cidade, se juntassem a nós ali e, passo o pleonasmo, se juntassem a nós ali nas letras da cidade de Leiria para tirar uma fotografia, para, de certa forma, dar a cara pelo lema que nós temos. Portanto, respondendo diretamente à tua pergunta, eu não podia estar mais felicíssimo, não é? E penso que essa sensação é extensível aos meus colegas e a todos os voluntários que trabalham neste projeto.
Em 2022 escreveste no jornal de Leiria que “se continuássemos a confinar o festival apenas e só entre as muralhas do Castelo, sucumbiríamos a médio prazo, sobretudo pela falta de renovação de públicos”. Sete anos após o rebranding, o que é que verificas?
Eu verifico que, de facto, a nossa estratégia está a surtir efeito. Repara, se em 2018, quando fizemos o primeiro Extramuralhas, arriscando perder uma certa mística que havia, porque a arquitetura do Castelo proporcionava essa mística, a penumbra da noite, o nevoeiro, tudo isso. A forma estética como as pessoas se apresentavam dentro do Castelo, criava uma magia própria. Nós, ao tirarmos o palco principal, que era o Castelo, e expandirmos pela cidade, podíamos realmente perder esse encanto, essa mística que também colora, digamos, o festival. Mas, eu acho que foi o melhor passo que demos, porque temos palcos em que os concertos são pagos, onde continuam a vir os melómanos e os fãs dessas bandas que pagam. Os concertos não são baratos, alguns bilhetes são caros, as pessoas não se importam de pagar para continuar a acompanhar as bandas que mais gostam de ver ao vivo.
Por outro lado, demos oportunidade a uma série de pessoas, e sobretudo jovens, que na altura não tinham dinheiro para ir ao Entremuralhas, quando o Entremuralhas era dentro do Castelo, porque o bilhete era perto de 100 euros, e havia muita gente que não tinha essa possibilidade. Ao abrirmos o festival à população em geral, facultamos a hipótese de uma série de pessoas que nem sequer imaginavam que havia todas estas estéticas e estilos e subgéneros de os usufruírem, de os conhecerem. E numa primeira vez vêm à descoberta, numa segunda vez vêm já com uma t-shirt preta e com vontade de dançar, e numa terceira vez já vêm totalmente convertidos. E quando eu digo que vêm totalmente convertidos, não estou a dizer que eles são góticos, estou a dizer que vêm de mente aberta e vêm com vontade de usufruir das coisas, com vontade de descobrir. Ora, se isso acontece, alguma coisa de bem feito estamos a fazer. E estes jovens que nós vemos aqui de 16, de 15 anos, que ainda não têm 30 euros ou que não arriscam 30 euros para ir ver os concertos do Teatro José Lúcia Silva, por exemplo, vão-no fazer quando tiverem 25 e 26 anos.
Portanto, isto é uma forma de renovarmos o público, porque eu, por exemplo, tenho 55 anos e sou de uma geração em que já há avós e muitos têm filhos, e nós, quando envelhecemos, o corpo já não responde da mesma maneira quando somos jovens, e muitos estavam a deixar de vir. Ora, por isso é que eu disse que sucumbiríamos se não houvesse uma renovação do público, sem dúvida nenhuma, porque cada vez seríamos menos. Ou então éramos um festival geriátrico, e também não queremos ser, porque nós olhamos sempre um pouco para aquilo que se passa atualmente no mundo. Gostamos de ter aqui bandas de culto, com histórico, obviamente, mas também gostamos de ter bandas frescas de coisas que se estão a passar agora e que queremos ter no momento certo.
Assim sendo, para onde é que vês o festival a crescer, ainda além das muralhas?
Eu tenho-me questionado sobre isso, porque realmente, olha, por exemplo, esta edição, e vocês estão a testemunhar isso, o jardim já é pequeno, o jardim já se está a tornar pequeno. Não sei, temos de agarrar o bicho pelos cornos, não é? E eu sou anti-tourada, portanto, isto é uma analogia muito, muito má. Mas sim, a FadeIn sempre conseguiu solucionar, perante a adversidade, conseguimos solucionar com alguma coisa que nos safamos sempre com algo inovador que depois acaba por resultar.
Para já, este jardim ainda tem alguns espaços por explorar. Por outro lado, por exemplo, aqui ao lado do jardim há o Largo do Papa. O Largo do Papa é um espaço que leva milhares de pessoas. Por outro lado, não tem as árvores que criam a sombra e que tornam este espaço muito cozy, muito acolhedor. Mas já chegámos a equacionar montarmos lá o palco e fazermos ali o palco principal e aqui [jardim] a área de restauração, etc. Mas é assim, eu penso que o festival terá sempre 4, 5 palcos vocacionados. Cada palco tem, vocês perceberam, tem uma especificidade. E o palco aberto ao público, se não for no jardim, há de ser num outro espaço nobre da cidade. Por exemplo, agora vamos ter a inauguração da Villa Portela, que é um espaço também que comporta um largo jardim. Nunca se sabe se podemos ter lá a nossa sede.
Eu pessoalmente adoro estar aqui porque estamos no centro da cidade de Leiria. Ou seja, o festival ao decorrer no jardim é uma espécie de coração a bater na cidade. Estamos realmente na zona central e não há melhor metáfora do que esta, que é ter realmente as nossas portas e janelas abertas no coração da cidade. Se nos derem a possibilidade de continuar a fazer aqui, é aqui que faremos.
A relação com o município tem-se mantido consistente ou aconteceram algumas mudanças que achas relevantes de referir aqui?
Bom, a partir de determinada altura, há cerca de 3 anos, a Câmara Municipal deixou de ser co-produtora do evento e passou a apoiar a FadeIn de forma a que a FadeIn ganhasse a autonomia total para fazer a produção do evento. Por outro lado, não deixou, para além do apoio que dá a nível financeiro, ao abrigo de um programa de apoio cultural que também as outras associações em Leiria têm, para além disso também nos apoia logisticamente. Portanto, continuamos a sentir que a Câmara está connosco. A Câmara de Leiria acha que o festival é importante para a promoção da cidade de Leiria, não só nacionalmente como também internacionalmente e por isso está connosco. Agora, a responsabilidade de tudo, de há 3 anos esta parte, é a FadeIn que tem.
Mas sim, nunca sentimos falta do apoio da Câmara e só uma Câmara bastante arrojada e com uma abertura grande é que também… Aliás, eu devo dizer, a Câmara esteve na génese do aparecimento do Festival Gótico de Leiria. Foi um desafio que a Câmara nos fez em 2010, fruto de trabalhos que já tínhamos feito entre 1993 e 1999. A Câmara Municipal achou que a FadeIn tinha já capacidade para organizar algo de maior na nossa cidade e convidou-nos a fazer realmente um festival num castelo e nós aceitámos o desafio. E passados 16 anos e 14 edições, e 2 anos não fizemos por causa do confinamento, estamos aqui agora e de sorriso rasgado na cara.
Como tu sabes, Carlos, eu tenho vindo ao ExtraMuralhas, sou [Laura] de cá, e tenho reparado que praticamente todos os artistas, após ou durante as atuações, agradecem ao Carlos e à Célia. Então, queria perguntar-te o que é que tu consideras mais importante no acolher e trato dos artistas para terem um feedback tão positivo.
Olha, os artistas quando chegam, são-nos apresentados, obviamente, e normalmente são brindados desta forma. Eu sou colecionador de discos, portanto sou um melómano inveterado, também fiz rádio durante muitos anos, um programa de rádio, e tenho uma paixão muito grande em partilhar. O festival, no fundo, também é uma grande partilha.
Mas isto para dizer o quê? Eles são brindados com os discos que eu tenho, ou seja, nós não somos um promotor que contrata bandas a granel, ou seja, nós contratamos exatamente a banda que queremos para o exato dia e para o exato momento, e para o exato palco. E então, quando elas veem que o promotor é alguém que conhece profundamente a obra, eles ficam completamente rendidos, porque a maior parte dos promotores, e não quero ser mau, mas a maior parte dos promotores dos festivais estão nisto pelo negócio. E nós, felizmente, temos os nossos empregos, a FadeIn é um projeto, é uma associação sem fins lucrativos e este festival é um festival erguido com o apoio de voluntários não remunerados.
Portanto, tudo isto revela uma grande paixão, e essa paixão é também, de certa forma, apreendida nos primeiros momentos em que as bandas chegam e que nos são apresentados, e da forma como nós conhecemos e damos a entender que conhecemos a obra dos artistas, é uma forma realmente de os render. E depois, claro, tenho uma equipa extraordinária de pessoas que trabalham connosco, trabalham voluntariamente, ou seja, são pessoas também da FadeIn e outras que gravitam próximos da FadeIn, amigos da FadeIn, e que têm também esta doutrina, que é a de receber de braços abertos e com sorrisos nos lábios. E isso aí é empatia, e a empatia faz magia.
E é o slogan este ano, não é?
Exatamente, mais empatia, melhor humanidade.
Passando agora para uma pergunta menos institucional, há algum nome atualmente inativo que adorarias ter tido em palco?
Sim, os Front 242. Tentámos o ano passado, eram uma das bandas grandes que ainda faltavam no currículo da FadeIn. Felizmente já não faltam assim tantas, mas daquela fornada do final dos anos 80 e início dos anos 90, era uma das que me faltava. E o ano passado, quando soubemos que eles iam fazer a digressão final, nós fizemos um esforço enorme para os trazer. Infelizmente não conseguimos porque o cachê deles era demasiado elevado para nós oferecermos à cidade, ou seja, não podia ser um dos espetáculos aqui do Jardim. Temos um teto, obviamente, a nível orçamental, não é? Não podemos meter aqui uma banda que leve 25 mil euros de cachê, obviamente, porque as bandas que atuam aqui, nós temos de vender muita cerveja, muito merchandise para gerar receita para pagar os cachês das bandas. Mesmo assim, ainda conseguimos trazer [ao jardim] bandas de grande qualidade, como já aconteceu com os Young Gods e outros.
Mas propusemos o Teatro José Lúcia da Silva. E eles disseram, não, Carlos, infelizmente a tua proposta é fixe, mas nós não tocamos para gente sentada. E ainda tentámos uma segunda hipótese, que era retirar circunstancialmente as cadeiras, mas a logística era demasiado complicada para que conseguíssemos concretizar o concerto. Fica a mágoa, realmente, de não termos concretizado os Front 242, mas fica uma história para contar também.

