

A nova criação de Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer Trindade, apresenta-se no Teatrão – Oficina Municipal do Teatro, hoje dia 30 de abril, às 19h00. O bailado teve estreia em Guimarães no GUIdance.
A RUC esteve à conversa com os coreógrafos no programa Café Olé.
Espetáculo de dança contemporânea reflete fragilidade do corpo e resistência através da arte
Um espetáculo de dança contemporânea inspirado em figuras como o poeta Paul Celan, sobrevivente do Holocausto, e a violoncelista Jacqueline du Pré, que perdeu a capacidade de tocar aos 28 anos — propõe uma reflexão sobre a fragilidade do corpo e a forma como o ser humano enfrenta o medo e a perda.
A criação cruza ainda influências de autores como Camilo Pessanha e Venceslau de Moraes, explorando momentos em que “sentimos o nosso corpo a desaparecer, a esvair-se, a fugir”.
No centro da proposta está a ideia de resistência: “como é que nesses momentos conseguimos ainda lutar contra o medo e o terror através da fragilidade e da criatividade e do contacto com o outro?”.
Quatro bailarinas em palco com percursos distintos
O espetáculo conta com quatro intérpretes, Sara Miguelote, Lucia Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczul, cada uma com identidade própria em palco.
“É um espetáculo de dança que não é uníssono, cada uma delas tem o seu percurso, a sua história e o seu tipo de movimento”, explicam os criadores, sublinhando que o processo de construção foi longo e desenvolvido em colaboração com as bailarinas.
O trabalho coreográfico decorreu ao longo de vários meses, a partir de “inspirações, ideias, sonhos e desejos diários”, resultando numa criação descrita como “cuidadosa, longa e sistemática”.
Ligação a Coimbra e acolhimento no Teatrão
A apresentação no Teatrão surge de uma relação já antiga com a cidade de Coimbra, onde a companhia tem desenvolvido diversos projetos.
“Já tínhamos estado com várias criações no Teatrão e noutros espaços da cidade, e este acolhimento foi muito natural”, referem.
Além do espetáculo, a equipa promoveu também uma ‘masterclass’ dirigida a participantes com diferentes níveis de experiência, desde estudantes de teatro a profissionais da dança.
A iniciativa foi descrita como “muito gratificante”, destacando a importância da partilha de processos criativos com quem se interessa pelo movimento e pelas emoções.
Conversa com o público prolonga reflexão artística
Após o espetáculo, está prevista uma conversa aberta ao público, com o objetivo de aprofundar o diálogo em torno da criação.
“Esperamos perguntas que suscitem outras perguntas e que nos façam avançar na criação” (6:59), afirmam, sublinhando a importância da troca de ideias entre artistas e espectadores.
Dança em Portugal enfrenta dificuldades estruturais
Para além da criação artística, a conversa abordou também a realidade da dança contemporânea em Portugal, marcada por dificuldades de financiamento e instabilidade profissional.
“Não é fácil ter uma companhia. Organizamo-nos por projetos e a vida é muito instável”, referem, apontando o baixo investimento na cultura como um dos principais entraves.
Segundo os criadores, a dança continua a ser particularmente afetada, apesar do crescente número de escolas e praticantes. “A dança necessita de uma discriminação positiva para ter o impacto que já tem na sociedade”.
A falta de apoios regulares impede muitas companhias de se manterem ativas, obrigando bailarinos a procurar oportunidades no estrangeiro. “Um bailarino precisa de trabalho contínuo e regular para crescer, e isso em Portugal é muito difícil”.
Arte ainda vista como nicho
Apesar da crescente prática da dança, os artistas consideram que a dança contemporânea continua a ser, em grande medida, uma arte de nicho.
“É um paradoxo: há muitas escolas e alunos, mas depois o público para a dança artística ainda é reduzido”.
A compreensão deste tipo de linguagem artística exige, segundo os criadores, disponibilidade e abertura: “no início estranha-se e depois entranha-se”.
Formação e criação com lacunas
A formação em dança em Portugal é considerada positiva ao nível técnico, mas insuficiente na vertente artística e superior.
“É muito boa até um certo ponto, mas depois faltam ofertas e trabalho mais artístico”, referem, apontando a necessidade de mais centros coreográficos e espaços de criação.
Papel da comunicação social é essencial
Os artistas defendem ainda um maior envolvimento dos meios de comunicação social na divulgação da dança e das artes.
“A televisão pública devia oferecer mais cultura de forma sistemática”, afirmam, acrescentando que também fazem falta mais jornalistas dedicados à área cultural.
“Devia haver mais jornalismo cultural, mais procura pela notícia e não apenas reprodução de comunicados”.
Coimbra pode vir a ter companhia de dança?
A possibilidade de Coimbra vir a ter uma companhia de dança foi também discutida, com os intervenientes a considerarem que a cidade reúne condições para tal.
“Coimbra merece definitivamente uma companhia de dança”, destacam, sublinhando a importância de um crescimento sustentado e ligado à identidade cultural local.
Espetáculo em digressão e novos projetos em preparação
O espetáculo encontra-se atualmente em digressão, tendo já passado por várias cidades e com apresentações previstas em Portugal e no estrangeiro.
“Estamos a viver muito fortemente este trabalho e a fazê-lo crescer”, referem, adiantando que novos projetos já estão em fase de reflexão.
Entre os temas futuros poderá estar a exploração do inconsciente e das dinâmicas de isolamento contemporâneo, numa abordagem que cruza arte e reflexão social.

