![[object Object]](/cdn-cgi/image/width=1920,quality=75,format=auto,onerror=redirect/https://bucket.ruc.pt/wp-content/uploads/2026/08/26222731/feeo.jpeg)
Les Siestes 2026 – Pelo futuro da música
O festival Les Siestes volta ao Jardim da Sereia, com uma programação comprometida em garantir o futuro da música experimental. A produção, celebrada em conjunto entre Toulouse e Coimbra, converge no centro urbano durante os dias 28 e 29 de Agosto.
À semelhança da edição do ano passado, o evento garante dois dias de programação no Jardim da Sereia, e ainda um segmento de after no Teatrão, percorrendo por talentos nacionais e apostando fortemente em alguns dos nomes mais incisivos da produção internacional. A entrada no Jardim da Sereia é gratuita e possibilitada através de uma co-organização entre a Casa das Artes Bissaya Barreto e a Câmara Municipal de Coimbra, com início às 18h e fim às 00h.
Dia 28
O primeiro dia do festival recebe Alana Vegana, feeo, Daisy Ray, Gil.Barte e um B2B entre DJ CVLT e Lizatron, oscilando entre o vocal onírico e a modulação sintetizada, até às seleções mais perspicazes no circuito do DJing nacional.
É Alana Vegana que abre o festival, DJ natural de Coimbra, e foi em casa que participou na fundação do coletivo Instrumental Violence. Atualmente residente em Lisboa, cidade onde já protagonizou alinhamentos em eventos da Out of Order e da Rotten Fresh, além de se cruzar com salas como o Vago ou a Galeria Zé dos Bois, ou no Fiasco, na cidade do Porto, onde tem uma residência regular.
Previamente era metade da dupla Spinning Jenny, com a qual era conhecida por mover pistas entre Lisboa, Porto e Coimbra, mas o seu percurso atual é a solo, mais desacelerado e introspetivo, procurando encontrar-se na tensão entre o ruidoso e o etéreo, levando seleções que refletem o seu processo treinado de digging.

Alana Vegana. Fotografia de Carolina Almeida
Mantendo o tom exploratório, segue-se Theodora Laird, com o seu projeto mais recente: feeo. A compositora, que já trabalhou lado a lado com Loraine James, Tirzah e Caius Williams, baixista com o qual materializa a dupla Crosspiece, apresenta o seu disco de estreia ‘Goodness’, descrito pelo The Guardian como “uma reflexão da capacidade de trabalhar com uma convicção extrema, sem interromper as atmosferas delicadas à sua volta”. Podemos expectar uma mostra textural, minimalista e poética, que explora a dualidade de temas como a ligação e o isolamento, ou a cidade e o mundo natural, levando a uma forma íntima de escuta.
Acontece um crescendo de energia com a passagem para a atuação de Daisy Ray, sem descontar as sonoridades hipnóticas que definem esta edição. A artista belga cruza as vertentes mais alternativas da pop com narrativas alucinogénicas e espirituais, ancoradas num fio condutor cerebral, descrito pela Périscope como a força motriz para “uma performance de espírito irónico e jovial“. O trabalho de Daisy Ray manifestou-se mais recentemente no lançamento ‘Once in a while’, através do selo francês Deardogs.
O ambiente já electrificado vai ser movido para a dança corporal instintiva às mãos de Gil.Barte, radicado em Lyon, na França, e estabelecido no circuito experimental da modulação sintetizada. O seu som persiste nos cruzamentos híbridos do dub, industrial e do leftfield, cuidadosamente articulados pelo design de som minucioso, sob o qual cria paisagens sónicas dignas de um sonho febril com breves rasgos de consciência. O seu disco mais recente, ‘Claviceps Purpurea’, editado pela Teenage Menopause Records, junta-se ao seu repertório que se encontra já nos catálogos da PLAQUE, Big Science e Neubau, e revela uma entrada para territórios psicadélicos, escuros e reminiscentes ao club mais primal.
O primeiro dia encerra a cargo de DJ CVLT e Lizatron, de regresso à cidade, tendo ambos já por cá passado a título individual. Dois aficionados pelo digging e pela coleção, unem-se pelas suas diferentes abordagens à mistura, CVLT, conhecedor do som mais cru e ríspido, que já pulsou pistas de dança dentro e fora de Portugal, domina uma viagem transversal, que corta uma vasta gama de sonoridades, e Lizatron, digger incansável, atravessa diferentes geografias e atmosferas, encontrando sempre as faixas mais curiosas, tanto voltadas para a experimentação como para a dança direta, e o seu ouvido intuitivo está por trás da editora Invisible Sounds, que tem também um programa trimestral na Mutant Radio, de Tbilisi, na Geórgia. Não é a primeira vez que ambos se encontram na cabine, e podemos contar com uma mostra altamente expansiva de descoberta musical.
Dia 29
O segundo dia abre com Just Fish, banda composta por Martín Bruce no teclado, Janik Weu na bateria, e a partir deste ano, no baixo, o português José Silva, que integra também o projeto Conferência Inferno. Just Fish aparece do cruzamento de diferentes caminhos, com uma convergência comum na cidade do Porto, onde encontraram a sua sonoridade hipnagógica e groovy, com um toque psicadélico, que reflete uma profunda camaradagem entre músicos. O álbum ‘Santos Laguna’, de 2023, é um compêndio compreensivo do seu som muito próprio, e em Coimbra, com a adição de um novo elemento, podemos esperar mais do vanguardismo típico do Les Siestes.
O segundo ato é de escapismo, e é entregue por Pierre Bujeau, sob o seu projeto Megabasse, artilhado por dois amplificadores Fender e uma guitarra de dois braços, com a qual cria padrões circulares, suaves e de imersão mental, que progressivamente se acumula para um mundo de intensidade controlada. O veículo solitário de Pierre, transporta-nos para um mundo quase litúrgico, na base do minimalismo e da ressonância harmónica, pode (e deve) ser ouvido no seu mais recente disco ‘Flamenca’.
É com quatro multi-instrumentistas que se dá a entrada da terceira atuação deste dia, com Yusuf Ahmed na bateria, Big Hands na eletrónica, Bint Mbareh na voz e Buster Woodruff-Bryant no saxofone tenor, criando juntos o projeto Ottomani Parker, numa infusão de elementos percurssivos, samples, jazz e dub techno, fortemente performada pela improvisação experiente. A sua criação já foi editada através da Trule, Baroque Sunburst e Blank Mind, inspirando-se na triangulação entre Miles Davis, Basic Channel e Jon Hassell, e aparece frequentemente em colaboração com projetos extensos na forma de rearranjos e colaborações, como no disco de 2025 ‘Thauma’.
A atmosfera e a perícia da apresentação ao vivo vão manter a sua consistência com a entrada de Malesa, resultado da união entre Paola Avilés (DalidaCarnage) e Eloi Petillon (Trois-Quarts Taxi System). Malesa transcende géneros lineares, e flutua entre vocais xamânicos e paralisantes, trip-hop, downtempo e pós-club, onde a produção metálica colide com ambientes naturalistas, guiados por mantras de intimidade e catarse, e conta já com dois álbuns de estúdio: ‘Sal y Sangre’ e ‘Ciudad sin Paredes’, ambos editados pela francesa Comic Sans Records.

Malesa. Fotografia de Amalia Jaulin.
A noite termina no Jardim da Sereia antes de passar para o after no Teatrão, e a última atuação desta primeira fase chega com DJ Narciso, produtor da equipa RS Produções juntamente com Nuno Beats, Nulo, DJ Lima, Farucox e MC Pimenta. Narciso destaca-se pelo contínuo de intensidade e extrema abertura para a dança, para aquecer um público entusiasta pela diversidade dentro da música electrónica, e ideal para a integrar o alinhamento do Les Siestes. A sua produção já entrou para o extenso catálogo da Príncipe Discos com o EP ‘Capítulo Experimental’ e para o da SVBKVLT com ‘Dentro de Mim’.
After
O formato de after, tal como no ano passado, regressa ao Teatrão, com um horário compreendido entre as 01h e as 06h, com um preço de 10€ em pré-venda e de 15€ à porta no próprio dia.
O alinhamento conta com Big Hands, parte do quarteto Ottomani Parker que atua neste mesmo dia, e que leva um labirinto de dub techno hipnótico, associado a nomes atuais e incisivos, como por exemplo Pugilist, OM Unit e Soreab. Segue-se Rita Maomenos, repetente do festival, tendo tocado na edição de 2024 no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, traz a sua seleção focada na bass music progressiva, obscura e cinemática, que já puxou sistemas de som em salas como Outra Cena, Lux e em festivais como Sónar, Neopop ou Palco RUC, além de sessões na Operator Radio, de Roterdão. Para trancar a programação com chave de ouro vem Xez, jovem talento cabo-verdiano, com uma forte paixão pelo Grime, que divulga através do seu projeto independente Seka Peli Grime Station, mas não se fechando a um único género, pelo que podemos esperar uma seleção afincada e de bom jogo de cintura.
No ano passado, escrevíamos que o Les Siestes é um exemplo saudável para a dinamização cultural no meio urbano, e que pode ser visto como uma lufada de ar fresco no circuito da produção cultural de Coimbra, e portanto entramos para mais uma edição com esta atenção especial, e apreço pela curadoria única que as equipas de Coimbra e de Toulouse põem em prática.
Na fotografia, feeo, por Ciara Reddy.
PARTILHAR:


