[object Object]

Livreiros defendem a poesia e o papel cultural das livrarias independentes

As livrarias independentes continuam a afirmar-se como espaços de resistência cultural, curadoria literária e descoberta de novos autores, defenderam os participantes da sessão “Poema Curado”, integrada no ciclo “Ofícios de Poema” da Feira do Livro de Coimbra.

Ao longo de mais de uma hora de conversa, os convidados refletiram sobre o papel das livrarias independentes, da edição de poesia e da curadoria literária num contexto marcado pela digitalização e pela concentração editorial.

A poesia esteve em destaque durante a sessão moderada por Pedro Lamares, que reuniu no Auditório Teolinda Gersão três figuras centrais do universo livreiro independente português: Miguel de Carvalho (Livraria Miguel de Carvalho), Rosa Azevedo (Livraria Snob) e Nuno Pereira (Poetria).

A poesia continua a conquistar leitores

Nuno Pereira defendeu que a poesia continua a conquistar novos leitores, particularmente entre as gerações mais jovens. O responsável pela livraria do Porto destacou o trabalho da Fresca, dedicada à publicação de poetas contemporâneos, sublinhando a importância de dar espaço a vozes emergentes.

0:00

Livrarias como espaços de resistência cultural

Rosa Azevedo centrou a sua intervenção na defesa das livrarias independentes enquanto espaços de diversidade cultural e pensamento crítico. Para a livreira da Snob, a sobrevivência destes espaços depende de um equilíbrio difícil entre sustentabilidade económica e missão cultural.

“Vender livros não é ler livros”, afirmou. A editora alertou ainda para a fragilidade estrutural das livrarias independentes em Portugal, lembrando que a sua existência não deve ser tomada como garantida.

0:00

O percurso singular de Miguel de Carvalho

Miguel de Carvalho relatou a sua passagem da engenharia para o universo do livro antigo, explicando como se tornou alfarrabista e, mais tarde, editor de poesia.

O livreiro recordou o papel que a sua antiga livraria em Coimbra desempenhou como ponto de encontro de poetas, artistas e leitores, dando origem a projetos como o Festival Maldito e à criação da chancela editorial DSO.

A sua intervenção destacou também a influência do surrealismo, particularmente através da descoberta do espólio do poeta e ensaísta Ernesto Sampaio, experiência que marcou profundamente o seu percurso como editor.

0:00

Curadoria versus mercado

A discussão evoluiu depois para as opções de seleção editorial e para a relação entre curadoria e mercado. Questionados sobre a presença de livros de que eventualmente não gostam nas suas livrarias, os participantes foram unânimes em afirmar que a seleção dos títulos resulta de uma relação de confiança e de convicção cultural.

Rosa Azevedo explicou que a Snob privilegia livros em que acredita, incluindo edições de autor e pequenas tiragens. Nuno Pereira reforçou a ideia de que cada livro disponível na Poetria tem uma razão para estar presente, seja pela sua qualidade literária ou pela sua relevância cultural.

O valor dos livros raros

A partir da sua experiência como alfarrabista, Miguel de Carvalho explicou os critérios utilizados na avaliação financeira de livros antigos e raros.

0:00

O livreiro destacou ainda a existência de um mercado especializado onde determinados livros funcionam como verdadeiros objetos de investimento.

Livros que marcaram os convidados

Na reta final da conversa, os participantes partilharam algumas das obras que mais os impressionaram enquanto leitores e livreiros.

Nuno Pereira destacou “A Importância do Pequeno-Almoço”, de Francisca Camelo, publicado pela Fresca, considerando-o um dos acontecimentos editoriais mais significativos da sua experiência recente.

0:00

Rosa Azevedo falou da sua longa relação, enquanto leitora e livreira, com as obras da  escritora húngara Ágota Kristóf, destacando obras como “A Trilogia da Cidade K”, que se tornou referências para muitos leitores da Snob.

0:00

Leituras e curadoria literária

Pedro Lamares lançou aos convidados um desafio: escolher textos que representassem aquilo que gostariam de recomendar a um leitor.

Durante uma parte da sessão foram lidos poemas de Ernesto Sampaio — “Fernanda”; António José Forte — “O Poeta em Lisboa”; Francis Picabia — “Manifesto Canibal Dadá”; Adélia Prado — “Sedução”; Clarice Lispector — “O Ovo e a Galinha” e de Beatriz Hierro Lopes.

PARTILHAR: