![[object Object]](/cdn-cgi/image/width=1920,quality=75,format=auto,onerror=redirect/https://bucket.ruc.pt/wp-content/uploads/2026/04/10172319/a3820713634_10.jpg)
Viagem sublime às mãos de Upsammy e Valentina Magaletti
‘Seismo’ nasce a partir de duas mentes em desafio, e chega até nós com uma proposta ousada: encontrarmos um terceiro-espaço entre vetores já tradicionalmente estabelecidos.
No dia 10 de abril, chegou assinada sob o selo da PAN, uma das manifestações mais avançadas de como se pensa a música experimental contemporânea, o LP ‘Seismo’, assinado pelas astutas Thessa Torsing (upsammy) e Valentina Magaletti, duas artistas com repertório que não nos deixa indiferentes, aliás, pelo contrário, bastante impressionados, e a mim pelo menos, feliz com ambas existirem num esquema onde a regra é obedecer à linearidade.
O LP chegou-me por volta de Novembro do ano passado, num link privado enviado por email. O trabalho de ambas já me era familiar, tendo-me cruzado pela primeira vez com Tomaga (um dos projetos de Magaletti) em 2016, e mais tarde mergulhando de cabeça na discografia cerimonial de Holy Tongue, iniciativa que a artista partilha com Al Wootton e Susumu Mukai. O encontro sónico com Upsammy já é mais recente, mas rapidamente as suas interpretações caleidoscópicas tornaram-se parte das minhas audições preferidas. E por isso, a primeira escuta, ainda no anterior inverno, poderá ter sido algo tendenciosa.
Apesar de ter conhecimento que ambas apresentavam ‘lives’ em conjunto, o processo em desvincular a musicalidade de cada artista dos seus outros trabalhos não foi algo repentino, pelo contrário, a procura de sonoridades semelhantes pairava sempre de fundo. No entanto é preciso abordar ‘Seismo’ à descoberta, e compreender o LP enquanto um desafio de composição que ambas se propuseram a tomar.
A sua colaboração tem raízes numa proposta comissionada pelo Museu Boijmans van Beuningen, em Roterdão, para acompanhar em áudio uma exposição de peças de Mondrian, Dalí, Monet e Picasso. Inicialmente construída com gravações de campo, percussão incorporada e reações do som à própria arquitetura espacial, a peça fugiu de forma livre à proposta onde inicialmente estava ancorada, e daí estarmos perante o encontro a um terceiro-espaço, anti-dogmático e anti-plano. O desencontro de posições estáticas como harmonia e dissonância; aleatoriedade e o que é previsível; abertura e constrição, e no fundo, todas as quebras de dicotomia, são o que melhor caracteriza o mundo para onde o ouvinte pode ser levado.
A habilidade com que Upsammy manipula o electrónico junta-se às improvisações de percussão de Valentina Magaletti, que vêm também acompanhadas de simulações da sua parceira de projeto, que usou outros instrumentos de batida para se juntar a uma mimese da bateria orgânica. Os elementos que ambas colocam em jogo, na sua fusão quase matemática, resultam num espetro de micro sonoridades ténues, efeitos alucinatórios e numa paisagem extracorporal que melhor pode ser percebida como um estado levitante.
‘It Comes to an End’ abre o LP de 8 temas, harmónico, reminiscente ao free-jazz, em jeito minimalista, e em criação de um microclima imaginário, que melhor pode ser observado com uma lente de laboratório, fazendo até lembrar ‘Germ in a Population of Buildings’ (2023). ‘Superimposed’ revela uma entrada para um território mais sombrio, mas com leves feixes de luz a passar pela síncope percussiva, acompanhado por ‘samples’ de voz febris e impercetíveis, que continua em ‘Hyperlocalize’, numa manutenção de um estado alterado de consciência.
A ambiência-auge, altamente hipnótica, tem lugar em ‘Thickness of Signs’, que reconstrói a perspetiva espacial até aqui criada, submergindo ainda mais o cenário com ‘Every Cell Thought Every Thinkable Thing’, desdobrando a experiência para algo alienígena, sem qualquer ponto-contacto à terra.
‘Mementoes’ traz esperança e gentileza sintetizada, acompanhada de bateria abstrata, num esquema rítimico tudo menos ortodoxo, o que já seria de esperar desta união artística. Já ‘Collide’ é o tema mais forte em termos de percussão e ritmo, aproximando-se de um cenário quasi-club, indo buscar inspiração a segmentos de Drum and Bass menos convencional.
O tema de fecho, ‘Some Unimaginable World’, retorna à base, num guia meditativo, suave, mas sem largar o fio condutor psicadélico que deu corpo à viagem que é este disco. Aqui, por fim, somos acariciados pelo leftfield, e pela paisagem sonora estranha, mas convidativa que nos levou até este momento.
Inicialmente dizia que Upsammy e Valentina Magaletti eram uma lufada de ar fresco num cenário onde a música é caracterizada pela linearidade. Muitos outros artistas e editoras têm entregue trabalhos extremamente originais, de qualidade e compatíveis a um certo gosto não-padronizado, e ‘Seismo’, é mais uma concessão que traz esperança a quem se entusiasma pelo experimental, numa era em que o agressivo, o acelerado e o genérico tomam conta do cenário de consumo.
O disco pode, e deve, ser ouvido através do bandcamp da PAN.
PARTILHAR:


