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Joaquim Reis em entrevista (Parte I): “A certa altura parece que todos são da Mancha Negra”
Presidente da AAC-OAF faz balanço positivo da época desportiva, valida as opções por António Barbosa e David Caiado e aponta a falta de espaço de treino como principal constrangimento das infraestruturas.
Numa época em que a Associação Académica de Coimbra / OAF (“AAC-OAF”) se afirma como uma das equipas mais consistentes do terceiro escalão do futebol nacional, o presidente da AAC-OAF, Joaquim Reis, fez um balanço claramente positivo da gestão desportiva em curso. Em entrevista à Rádio Universidade de Coimbra (“RUC“), realizada no Estádio Cidade de Coimbra no âmbito das celebrações do 40.º aniversário da RUC, o o presidente da Académica abordou os adeptos, as infraestruturas, a formação e as escolhas que tomou no início do mandato, algumas delas sem consenso na altura.
António Barbosa e David Caiado: a aposta validada
A decisão de manter o treinador António Barbosa e o diretor desportivo David Caiado à frente da estrutura técnica não foi unanimemente bem recebida quando foi tomada. Joaquim Reis admitiu-o sem rodeios, mas defendeu o raciocínio que a sustentou: “Achei que, por uma questão de estabilidade e continuidade, e porque tinha boas referências de um e de outro, poderia dar-lhes as condições que se calhar não tiveram em anos anteriores. Por princípio, não sou adepto de andar a mudar permanentemente de responsáveis, porque às vezes é mais fácil mudarmos os responsáveis visíveis do que assumirmos as nossas próprias responsabilidades. Não foi unânime na altura, eu sei que não foi.”
Os resultados têm dado razão à escolha. A Académica qualificou-se para a fase de subida da Liga 3 e lidera o Apuramento de Campeão, surgindo à frente do Amarante no critério de desempate — ambas as equipas igualadas com 16 pontos no fecho da primeira volta. O presidente elogiou ainda a forma como foi gerido o mercado de transferências de janeiro, historicamente ingrato: “Saber traçar o perfil dos atletas que pretendemos, em que posições, em que circunstâncias, para depois ir à procura do mercado — não é contratar por contratar. Todas as contratações que fizemos no mercado de janeiro tiveram uma razão de ser, e já deram provas disso.”
Adeptos: “Parece que todos são da Mancha Negra”
O apoio das bancadas foi um dos temas que Joaquim Reis abordou com maior entusiasmo. Para além do crescimento em número, o presidente destacou a qualidade do ambiente e a coesão entre diferentes grupos de adeptos: “Mais do que o número de adeptos, o que se tem notado é um ambiente fantástico. Há uma comunhão enorme entre adeptos da Mancha Negra e os outros adeptos que não são da Mancha Negra. A certa altura parece que todos são da Mancha Negra, até as coreografias já as mimetizam.”
Joaquim Reis ligou diretamente esse apoio ao espírito combativo da equipa — numa referência ao empate alcançado nos minutos finais em Amarante, com cerca de 1300 adeptos da Briosa nas bancadas, depois de a equipa ter estado a perder: “O apoio tem sido permanente, mesmo em circunstâncias difíceis, em jogos como ainda no último, em que estivemos a iniciar a perder; nunca deixámos de sentir esse apoio da parte das bancadas. E não é por acaso que esta equipa nos tem mostrado que luta até ao fim, até ao último minuto.”
Sobre a questão da lotação para jogos fora — onde a procura de bilhetes por parte dos adeptos da Académica tem excedido em larga medida a oferta disponível —, o presidente explicou os constrangimentos regulamentares e de segurança: “Os regulamentos da federação obrigam que, quando somos clube visitado, cedamos 10% da nossa lotação ao adversário. Quando estamos a falar de estádios com lotações de 5.000 lugares, estamos a falar de 500 lugares.” E acrescentou um exemplo concreto: “Quem já foi ver jogos a Santarém sabe que ficamos sempre num sítio super desconfortável para ver futebol, e depois olhamos para a bancada central completamente vazia. E o próprio presidente do clube dizia-me: a PSP não me deixa utilizar essa bancada por questões de segurança para adeptos adversários.”
Formação: paciência e investimento real
Num tema que considerou muitas vezes mal interpretado, Reis foi pedagógico quanto ao que significa verdadeiramente apostar na formação: “A formação é um investimento. Não é só dizer, olha, agora vamos apostar na formação e está dito. Não. Isto implica canalizar algumas das nossas receitas para investir nas infraestruturas, nos equipamentos, para investir também no quadro de treinadores. O aumento que já fizemos este ano de investimento em recursos humanos na formação foi substancial, comparando com o ano anterior.”
O presidente apelou à paciência dos adeptos quanto aos resultados desse investimento: “Quando eu faço recrutamento de atletas para a formação, faço-o com um objetivo a prazo. Só daqui a uns anos é que iremos colher realmente esses frutos.”
Infraestruturas: boas, mas com limitação de espaço
Sobre as instalações do clube, Reis reconheceu o mérito relativo, citando o próprio feedback dos jogadores: “Os atletas séniores que por aqui passam e que já passaram noutros clubes, incluindo de ligas superiores, fazem todos o mesmo comentário: as nossas instalações são francamente melhores do que outras.” Porém, apontou o principal problema estrutural: “Temos neste momento um problema grande de falta de campos e de espaço para treinar. A Académica quer crescer e temos uma limitação óbvia de local onde praticar.”
As recentes intempéries causaram danos visíveis nas infraestruturas, tendo as inundações condicionado os treinos de algumas equipas do clube. Reis aproveitou, contudo, para anunciar uma visão mais ampla de requalificação: “A Academia precisa de ser repensada toda ela. É isso que estamos a preparar neste momento, para conseguir que a nossa casa tenha as melhores condições possíveis para a prática do desporto, não só da formação como do próprio futebol sénior.”
Relação com a casa-mãe em crescente aproximação
Sobre a relação entre a AAC-OAF e a direção geral da Associação Académica de Coimbra, Reis transmitiu uma mensagem de reaproximação em curso: “Tenho uma ótima relação com o atual presidente da direção geral. Temos para breve agendado sentar-nos a conversar, até porque estamos em ano de renovação do protocolo entre a casa-mãe e o organismo autónomo de futebol. Já se começa a ver mais capas e batinas dentro do nosso estádio nos jogos, e isso é uma prova visível desse esforço de aproximação.”
Homenagem à RUC nos seus 40 anos
No fecho da entrevista, o presidente da AAC-OAF deixou uma mensagem de reconhecimento à rádio que acompanha a Académica desde 1986: “Agradecer à RUC por ser a RUC, por ser quem é há 40 anos. A irreverência da Rádio Universidade de Coimbra tem a sua própria marca, já a criaram há muito tempo. Que assim se mantenham, que assim se mantenham a acompanhar-nos para todo o lado como fazem.”
Aos adeptos, o apelo foi simples e direto: “Continuem a acreditar. Damos jogo a jogo, trabalhar sempre nessa perspetiva.”
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