
Estudantes de Coimbra protestam contra aumento das propinas e por mais ação social
A Associação Académica de Coimbra realizou hoje quarta-feira uma manifestação contra a decisão do Governo de aumentar as propinas de licenciatura no ensino superior e de retirar o teto máximo no valor das propinas de mestrado. Estudantes estão dispostos a alargar luta a outras associações de estudantes de ensino superior.
O Largo da estátua D. Dinis encheu-se de vozes de protesto: “Somos muitos muitos mil para continuar Abril”, “A educação é um direito, sem ela nada feito”, “Estudantes Unidos, jamais serão vencidos”, “A luta continua!Os estudantes estão na rua!”.
Segundo o presidente da Direção–Geral da Associação Académica de Coimbra, Carlos Magalhães, a medida anunciada em setembro pelo ministro da Educação, Fernando Alexandre, constitui um “retrocesso” face às expectativas criadas de renovação no ensino superior.
O aumento de 13 euros nas propinas de licenciatura e a liberalização dos valores nos mestrados são vistos como fatores que agravam as desigualdades no acesso.
Apesar do reforço anunciado de 30 milhões de euros para a ação social, a AAC considera que a medida não responde a problemas estruturais, como a falta de alojamento e a insuficiência de apoios. “Só ao fim de 33 anos é que o plano da ação social está prestes a ser revisto. Não se percebe como se aumenta a propina sem garantir melhores condições”, criticou.
A Academia de Coimbra chama ainda a atenção para os custos de frequência no ensino superior. Em Coimbra, estima-se que dois terços do salário mínimo nacional sejam necessários para suportar despesas de um estudante. Em Lisboa e no Porto, os valores são considerados “insustentáveis”, agravados pelo peso da habitação e pela falta de soluções de mobilidade em várias regiões do país.
Outro dado preocupante apontado pelos estudantes é a quebra na procura pelo ensino superior. “Estamos em 2025 e 2026 com o número mais baixo de candidatos colocados nos últimos dez anos. Se não houver mudanças, estas medidas só vão aprofundar a crise demográfica e académica”, alertou a AAC. “A Associação Académica de Coimbra sempre foi e sempre será pelo ensino superior universal e gratuito “, esclarece Carlos Magalhães.
A associação reafirma o seu compromisso com um ensino superior “universal e gratuito” e promete manter a contestação em conjunto com o movimento estudantil nacional.
“O valor que eu dou é a igualdade”
Orlando Gervásio, estudante do segundo ano de Filosofia, foi um dos primeiros a partilhar à RUC as suas motivações.
“Acredito que todos nós temos capacidades para vir para a faculdade. O que nos falta é motivação por parte do governo e bolsas”, disse.
Sobre a possibilidade de levar o protesto até Lisboa, Orlando considera o impacto simbólico inegável:
“Seria uma forma de dizer a todos, jovens e adultos que não tiveram oportunidade de estudar, que não roubem esse sonho aos jovens”.
As Mondeguinas: tradição e direitos de mãos dadas
O grupo académico Mondeguinas também marcou presença. Rita Neves destacou que a mobilização se alinha tanto com os valores de tradição do grupo como com a defesa dos direitos estudantis.
“Sempre fomos um grupo que prezamos não só pela tradição, mas também pelos valores e direitos mais básicos. O acesso ao ensino e o caso da propina tocam-nos a todas”.
Contra a elitização do ensino superior
Da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Mauro Teixeira, estudante de Relações Internacionais, reforçou a crítica ao aumento das propinas. “Esta tentativa de promoção do Governo para aumentar as propinas é completamente inaceitável”.
A manifestação em Coimbra surge como um alerta claro à tutela: os estudantes exigem não apenas travar o aumento das propinas, mas também uma aposta mais séria em bolsas de estudo e políticas que garantam a igualdade no acesso ao ensino superior. A possibilidade de levar o protesto até Lisboa mostra a determinação de uma geração que não aceita ver os seus sonhos condicionados pelas barreiras económicas.
Novas iniciativas estão em preparação, à semelhança de protestos anteriores, como o realizado a 24 de março.
A iniciativa, marcada inicialmente para as 17h, acabou por se realizar às 19h por indicação da Polícia de Segurança Pública (PSP), que alegou não conseguir garantir as condições de segurança no horário previsto.
Fotografias: Rute Reverendo
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