AUTOR: Isabel Simões E Luís Pereira

DATA: 25.03.2026

DURAÇÃO: ...

No âmbito da celebração dos 40 anos da Rádio Universidade de Coimbra a RUC saiu fora de portas e deslocou-se a três freguesias do Concelho de Coimbra. No dia 25 de março passámos o programa que gravámos no Café São Sebastião em São Martinho de Árvore. Os nossos agradecimentos ao senhor Vitor e à dona Patrícia  que tão bem nos receberam. Um obrigada especial a todos os nossos entrevistados.


A entrevista com Pedro Matias retrata o percurso de um jovem que cresceu numa freguesia rural que, já adulto, se mudou para Coimbra em busca de trabalho e independência. Apesar da mudança, mantém uma forte ligação à sua terra natal, onde viveu até aos 24/25 anos.
Pedro recorda a infância como um período marcado pela tranquilidade do meio rural, com muitas atividades ao ar livre, como futebol e andar de bicicleta, contrastando com a realidade atual, onde as crianças passam mais tempo em casa com tecnologia. Destaca também o papel dos clubes locais, como o São Silvestre e o Grupo Desportivo Carapinheirense (do vizinho concelho de Montemor-o-Velho), na dinamização da comunidade e na criação de laços sociais, embora reconheça que hoje a participação seja menor.
Em termos de dinâmica populacional, refere que muitos jovens acabam por sair da freguesia para trabalhar, seja em Coimbra, noutras cidades ou no estrangeiro, embora alguns permaneçam. A economia local assenta sobretudo na agricultura, apesar de estar em declínio e de já não atrair tanto as novas gerações.
A entrevista aborda ainda o impacto recente das cheias, que causaram prejuízos nos campos agrícolas, destruíram infraestruturas e até provocaram a perda de animais, sendo a resposta marcada sobretudo pela entreajuda da população e apoio de entidades como bombeiros e marinha.
Por fim, Pedro compara a vida na aldeia e na cidade: enquanto Coimbra oferece mais oportunidades, serviços e acessibilidade, a freguesia destaca-se pela calma e qualidade de vida. Ainda assim, a dependência da cidade é grande, já que muitos serviços essenciais não existem localmente, levando a população a deslocar-se com frequência.


António Pardal tem 59 anos e é natural da Carapinheira. Vive em São Martinho de Árvore desde 1984. Ele explica à RUC que não existe rivalidade entre os clubes locais (como o Carapinheirense e o Ançã), havendo até boas relações e alguns jovens da freguesia a jogar nesses clubes. Diz gostar muito de viver na aldeia por ser mais calma e por ter encontrado “excelentes pessoas”, preferindo o campo à cidade.
Trabalha na construção civil há décadas, sobretudo na zona local, e refere que há bastante trabalho, embora faltem jovens para continuar a profissão no futuro. Ao longo dos anos, assistiu à evolução da construção, sobretudo nos materiais e acabamentos, mas considera que algumas infraestruturas, como água e saneamento, poderiam estar melhores.

Sobre as cheias, diz que são fenómenos relativamente comuns na região do Mondego e que a população já está habituada, havendo menos impacto do que se possa pensar. A entreajuda entre as pessoas é importante nesses momentos.
Explica ainda que veio viver para a freguesia por casamento e destaca que a população tem vindo a diminuir e a envelhecer, com menos crianças atualmente. A presença de imigrantes, sobretudo brasileiros, ajuda a manter alguma vitalidade, e o convívio com essas comunidades é geralmente positivo.

António Pardal descreve a vida comunitária em São Martinho de Árvore, marcada também por alguma emigração. Quem trabalha no estrangeiro, regressa no verão, altura em que a população aumenta. Na freguesia não faltam momentos de festivos com destaque para a “festa da flor” em maio, onde as mulheres da freguesia decoram as ruas com pétalas de flores e folhas e ramos de plantas.

Os cafés continuam a ser os principais pontos de encontro, embora existam outros espaços e grupos de convívio, como associações e grupos de caçadores. A comunidade valoriza o convívio e a vida fora de casa.

A pesca, antes importante, é hoje sobretudo desportiva, embora ainda haja interesse local. O rio Mondego tem grande significado afetivo para os habitantes, tendo sido no passado um espaço central de lazer, onde aprendiam a nadar e conviviam.
Por fim, destaca-se a evolução do rio e das práticas associadas, como a extração de areia para controlar o seu curso, bem como algumas reflexões sobre mudanças nas infraestruturas ao longo do tempo.


Rafaela e Mariana, que falam sobre o seu dia a dia, escola e vida na aldeia. Rafaela, aluna do 4.º ano, conta que passa o tempo entre a escola, o ATL e a casa de uma senhora que cuida dela. Gosta especialmente de inglês e matemática e aprecia atividades criativas no ATL. Vive na aldeia desde sempre, considera-a um bom lugar para viver e pouco foi afetada pelas cheias. No futuro, gostaria de ser professora (sobretudo de inglês ou matemática) ou cabeleireira.

Mariana, de 12 anos e no 6.º ano, estuda em São Silvestre e desloca-se de autocarro. Gosta de matemática e áreas mais práticas como educação visual e tecnológica. A timidez provoca alguma dificuldade em fazer amigos. Tem interesse por futebol, joga com colegas e gostaria de praticar mais. Também ambiciona ser professora, destacando o gosto pela matemática, onde tem bom desempenho e ajuda colegas. Considera a aldeia um local tranquilo para viver, com amizades e alguma autonomia no dia a dia.


Jansiane Simplício, conta que vive há quatro anos em Portugal, para onde veio por amor, após conhecer o companheiro no Brasil. Natural de Natal, refere que a mudança para uma pequena freguesia foi inicialmente um contraste grande em relação à vida numa cidade grande, mas conseguiu adaptar-se bem graças à sua capacidade de adaptação e à boa receção da comunidade.

Explica que se integrou ativamente, procurando conviver e envolver-se localmente, o que a ajudou a sentir-se parte da comunidade. Conseguiu emprego de forma inesperada ao candidatar-se como voluntária numa instituição local (Centro Social e Cultural), onde acabou por ser contratada e atualmente trabalha, sobretudo em turnos num lar, mostrando grande satisfação com o seu trabalho e com a equipa.

Refere que mantém ligação ao Brasil, recebendo visitas frequentes da família, e destaca a facilidade de deslocação para Coimbra e outros locais da europa. Considera que a mudança foi uma das melhores decisões da sua vida e pretende continuar a viver ali.

Por fim, partilha uma reflexão pessoal sobre as diferenças culturais, salientando que as mulheres brasileiras tendem a encarar a vida com mais leveza. Defende a importância de viver um dia de cada vez, com calma e resiliência, lidando com as dificuldades como aprendizagens, numa atitude que orienta tanto a sua vida como os conselhos que dá aos outros.


Filipe Diniz aborda a experiência de um homem que se mudou de Brasfemes para São martinho de Árvore após ir buscar a atual companheira ao Brasil. Filipe explica que a mudança aconteceu sobretudo por circunstâncias da vida e oportunidade, incluindo a habitação que encontrou na zona há cerca de quatro anos.

Relata que, mesmo na altura, encontrar casa não foi fácil nem muito barato, já com preços próximos aos da cidade. Trabalha em Coimbra, mantendo assim ligação à vida urbana, enquanto a companheira conseguiu emprego perto de casa com facilidade, algo que reconhece não ser comum.

Com experiência como bombeiro (embora atualmente inativo), refere que ocasionalmente ainda é procurado pela comunidade para pequenas ajudas, o que demonstra um certo espírito de entreajuda local.

Ao comparar a vida na aldeia com a cidade, destaca que o ambiente rural proporciona maior tranquilidade, menos barulho e relações mais próximas entre as pessoas, ao contrário da cidade, onde o convívio é mais distante. Apesar de recorrer à cidade para compras maiores, valoriza a vida na aldeia e recomenda-a a quem procura mais calma e qualidade de vida.

Fotografias: Inês Cruz