

Coimbra, Saúde e Futuro: Entre Desafios Estruturais e Oportunidades de Liderança
No programa “Mata-Bixo”, da Rádio Universidade de Coimbra, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, traçou um retrato abrangente e crítico do estado da saúde em Portugal, com especial foco em Coimbra enquanto polo estratégico. A conversa percorreu temas centrais como o novo pacto para a saúde, o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde (SNS), a valorização dos profissionais, o papel da inteligência artificial e os desafios persistentes na saúde mental e nos cuidados primários.
Um pacto necessário, mas exigente
A recente nomeação de Adalberto Campos Fernandes para coordenar um pacto estratégico para a saúde foi recebida com expectativa. Para Carlos Cortes, a iniciativa pode representar uma oportunidade relevante, desde que vá além de intenções políticas e consiga verdadeiramente reunir vontades. O objetivo deverá ser criar um compromisso duradouro entre partidos, profissionais e sociedade civil que permita reformas estruturais e sustentadas no tempo.
O bastonário sublinha que o setor da saúde tem sido frequentemente instrumentalizado em ciclos eleitorais, o que dificulta reformas profundas. Um pacto sério poderá contrariar essa tendência, promovendo uma visão de longo prazo.
Coimbra é um laboratório vivo por concretizar
Com números impressionantes, desde financiamento elevado a milhões de consultas e milhares de profissionais, Coimbra apresenta-se como um dos maiores centros de saúde do país. No entanto, apesar dessa dimensão e capacidade, falta articulação estratégica.
O bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, defende que Coimbra tem condições únicas para se afirmar como um “campus vivo” da saúde: um espaço onde universidade, hospitais, centros de investigação, autarquias e sociedade civil colaboram para criar soluções inovadoras. Ainda assim, aponta um problema estrutural: a tendência para trabalhar de forma fragmentada.
A proposta passa por um “Pacto Coimbra 2030”, que transforme a cidade numa incubadora de soluções para o sistema de saúde nacional, com foco em áreas como acesso, envelhecimento ativo, formação e inovação.
Humanização e pressão sobre o sistema
Um dos temas mais enfatizados foi a humanização dos cuidados. Apesar de avanços, nomeadamente na relação médico-doente, persistem obstáculos significativos. O tempo reduzido das consultas, a pressão para aumentar a produtividade e a sobrecarga dos profissionais limitam a qualidade do atendimento.
A humanização, segundo Cortes, não depende apenas dos profissionais, exige também condições estruturais adequadas e uma cultura de respeito mútuo entre utentes e profissionais. A crescente violência no setor da saúde é um sinal preocupante que não pode ser ignorado.
A crise de atratividade do SNS
Um dos problemas mais graves identificados é a perda de atratividade do SNS. Cada vez mais médicos optam por não seguir especialidade, emigrar ou trabalhar fora do sistema público. As causas vão além da remuneração, incluem falta de condições de trabalho, excesso de carga horária, insegurança e ausência de perspetivas de carreira.
A existência de vagas por preencher na formação especializada é um sinal alarmante, com impacto direto na qualidade futura dos cuidados. Para o bastonário, é essencial compreender as razões desta tendência e agir de forma estruturada para inverter o cenário.
Cuidados primários: avanços e retrocessos
Os cuidados de saúde primários foram apontados como uma das reformas mais bem-sucedidas do SNS, sobretudo com a criação das Unidades de Saúde Familiar (USF). No entanto, essa evolução foi travada por reformas mais recentes, como as Unidades Locais de Saúde (ULS), que, apesar da intenção integradora, falharam na execução.
O resultado é um sistema excessivamente centrado nas urgências, com milhões de episódios anuais — muitos deles evitáveis. A solução passa por reforçar a prevenção, melhorar o acesso aos cuidados primários e reorganizar o sistema para reduzir a pressão hospitalar.
Inteligência artificial é já oportunidade e risco
A integração da inteligência artificial na saúde é vista como inevitável e potencialmente transformadora. Pode libertar tempo aos médicos, automatizando tarefas administrativas e permitindo maior foco na relação com o doente.
No entanto, Carlos Cortes alerta para a necessidade de regulação e envolvimento da comunidade médica no desenvolvimento destas tecnologias. A sua aplicação deve ser ética, transparente e centrada no bem-estar do doente.
Saúde mental: o elo mais frágil
A saúde mental continua a ser uma das áreas mais deficitárias do SNS. A escassez de profissionais e a falta de integração comunitária limitam a resposta do sistema. O caminho, segundo o bastonário, passa por descentralizar os cuidados, aproximando-os das populações e apostando na prevenção desde idades precoces.
Público e privado exige complementaridade com cautela
Sobre o papel do setor privado, a posição é pragmática: deve ser complementar ao SNS, nunca substituto. Quando o sistema público não consegue dar resposta, é legítimo recorrer ao privado, mas sem comprometer o investimento e a prioridade do SNS.
O risco está na dependência excessiva de soluções de curto prazo, que podem fragilizar o sistema público a longo prazo.
Urgência de ação com visão
A entrevista termina com um alerta claro: o SNS vive um dos períodos mais críticos da sua história. A instabilidade, a falta de profissionais e a ausência de reformas estruturais colocam em risco a sua sustentabilidade.
Mais do que medidas pontuais, é necessária coragem política, visão estratégica e capacidade de diálogo. Coimbra, com o seu potencial único, pode ser parte da solução, mas apenas se conseguir transformar ambição em ação concreta.

