AUTOR: Isabel Simões

DATA: 25.06.2026

DURAÇÃO: ...

Hoje trazemos-lhe um olhar sobre uma das mais destacadas vozes da literatura portuguesa contemporânea: a escritora Teolinda Gersão, homenageada na Feira do Livro de Coimbra, cidade onde nasceu, cresceu e estudou.

Reconhecida como romancista, contista e autora de literatura para crianças, Teolinda Gersão construiu uma obra premiada e traduzida em mais de vinte línguas. A sua escrita destaca-se pela forma como cruza a realidade com a imaginação, explorando a memória, as emoções e os territórios mais profundos da condição humana.

Num dos encontros da feira, dedicado à relação entre literatura e psicanálise, esteve em destaque o romance “A Autobiografia Não Escrita de Marta Freud“. A autora explicou como nasceu o interesse por esta personagem, após a descoberta da correspondência amorosa trocada entre Sigmund Freud e Marta Bernays.

A investigação prolongou-se durante mais de três anos. Através dessas cartas, Teolinda Gersão encontrou uma mulher muito diferente da imagem tradicionalmente associada à esposa de Freud: uma figura forte, independente e com uma voz própria, frequentemente esquecida pela História.

A escritora sublinha que dar voz a Marta Freud foi também uma forma de refletir sobre o lugar das mulheres ao longo dos séculos. Mulheres que muitas vezes foram silenciadas, afastadas do espaço público e impedidas de participar plenamente na construção da memória coletiva.

Durante a conversa, Teolinda Gersão revelou ainda um pouco do seu processo criativo. Diz escrever sem conhecer antecipadamente o destino das histórias, deixando que cada livro encontre a sua própria forma.

A partir de cartas e testemunhos históricos, surge um retrato mais íntimo não apenas do fundador da psicanálise, mas também da mulher que esteve ao seu lado.

Uma das ideias centrais desta reflexão de Teolinda Gersão é a coragem de olhar para a vida privada do casal Freud. Longe do mito do génio intocável, encontramos um homem complexo, contraditório e profundamente marcado pelo seu tempo.

Marta aparece como uma mulher inteligente, culta e determinada, que escolheu permanecer ao lado de Freud apesar das dificuldades. Nas cartas trocadas durante o noivado, percebe-se uma relação intensa, mas também desigual: ela procura proximidade emocional, enquanto ele parece absorvido pela sua missão intelectual.

Segundo várias interpretações, Marta idealizou Freud e acreditou que o amor poderia ajudá-lo a encontrar felicidade. No entanto, o próprio Freud reconhecia tendências depressivas, um forte egocentrismo e uma personalidade difícil.

Apesar disso, Marta manteve-se presente. Escutava-o, lia as suas longas cartas, confrontava-o com os seus defeitos e, ao mesmo tempo, apoiava o desenvolvimento das ideias que viriam a transformar a psicologia moderna.

A discussão recorda-nos também que Freud deve ser visto no contexto da sua época. Muitos dos seus comportamentos refletem valores do século XIX, mas a sua obra continua a exercer enorme influência.

Mais do que um homem perfeito, Freud surge aqui como um ser humano falível, capaz de rever as próprias teorias e de inspirar gerações de pensadores, terapeutas e investigadores.

Talvez a grande revelação desta história seja precisamente essa: por detrás do mito de Freud existiu Marta, uma presença discreta, mas fundamental, sem a qual a história da psicanálise poderia ter sido muito diferente.

A escritora esteve na Feira do Livro de Coimbra, no dia 24 de junho, no auditório com o seu nome.  A sessão com o lema “Conversa, Psicanálise e Literatura” contou com a moderação de Cristina Robalo Cordeiro e com a colaboração de Margarida Pedroso Lima e de Carlos Fiolhais.

Fotografia: Câmara Municipal de Coimbra