AUTOR: Isabel Simões

DATA: 09.01.2026

DURAÇÃO: ...

Rodrigo e Jurema vieram à RUC conversar sobre os Ensaios de Rua do Bloco do Beco. O grupo inicia no próximo sábado, dia 10 de janeiro, a partir das 15 horas, na Sé Velha, os ensaios de rua. Depois, mas já na Praça do Comércio, acontecem ensaios todos os sábados até dia 14 de fevereiro, dia do desfile carnavalesco. Este ano, para além da percursão, vai haver um trio elétrico, à semelhança de S. Salvador da Baía.


Coimbra prepara-se, mais uma vez, para vibrar ao som da percussão e da alegria coletiva com o regresso do Bloco do Beco. Criado em 2020 por um grupo de pessoas maioritariamente ligadas à comunidade migrante — com forte presença brasileira — o Bloco nasceu da vontade de trazer para a cidade um Carnaval de rua que, até então, praticamente não existia. Havia bailes e festas pontuais, mas faltava a ocupação do espaço público, o corpo em movimento e a celebração coletiva que caracterizam o Carnaval popular.

Ensaios abertos e Carnaval marcado para 14 de fevereiro

Em conversa com Rodrigo e Jurema, dois dos membros do Bloco do Beco, ficou claro que o Carnaval começa muito antes do dia oficial. Os ensaios de rua têm início já este fim de semana e decorrem todos os sábados, a partir das 15h, até ao dia 14 de fevereiro, data escolhida para o Carnaval em Coimbra este ano. São ensaios abertos, feitos na rua, que permitem ao público acompanhar o processo, sentir o ritmo e, sobretudo, participar.

O primeiro ensaio acontece na Sé Velha e os seguintes na Praça do Comércio. Ao contrário do desfile do dia de Carnaval, estes ensaios são parados, funcionando como momentos de consolidação do trabalho coletivo que vem sendo desenvolvido. “É quando esse trabalho começa a ir para os olhos do público”, explica Rodrigo.

Um coletivo multicultural e aberto

Embora o Bloco do Beco conte com uma forte participação de pessoas brasileiras, trata-se de um coletivo profundamente multicultural. Portugueses, peruanos, catalães, venezuelanos, colombianos, argentinos e até alemães já passaram pelo grupo. Essa diversidade reflete a própria cidade de Coimbra: cosmopolita, marcada pela mobilidade e pelo encontro de culturas.

A lógica do Bloco é clara: acolher, multiplicar e divulgar diferentes culturas através da música, da dança e da ocupação da rua. Mais do que um grupo musical, o Bloco do Beco assume-se como um espaço de pertença, onde o afeto é central na construção das relações.

Carnaval no frio, mas com calor humano

Fazer Carnaval em Portugal implica desafios bem diferentes dos vividos no Brasil. Enquanto do outro lado do Atlântico é verão intenso, em Coimbra o desfile acontece em pleno inverno. Isso obriga a repensar adereços e a própria experiência do corpo na rua. Ainda assim, o espírito mantém-se: celebrar, encontrar-se e ocupar o espaço público com alegria.

Este ano, o Carnaval cruza-se simbolicamente com o Dia dos Namorados, celebrado a 14 de fevereiro em Portugal. Para o Bloco, porém, mais do que uma data comercial, o que está em jogo são valores como o afeto e a pertença — conceitos fundamentais para quem vive processos migratórios e precisa constantemente de reconstruir laços com a cidade onde habita.

A rua como espaço político

Para o Bloco do Beco, o Carnaval é também um ato político. Ir para a rua, tocar, dançar e cantar é uma forma de afirmar presença e reivindicar o direito à cidade. A rua é entendida como um espaço de disputa, atravessado por relações de poder, licenças, autorizações e decisões institucionais. Ocupá-la com música e alegria é, por si só, um gesto de ressignificação.

“Quando a gente está na rua dizendo ‘nós existimos aqui também’, isso é um ato político”, sublinha Rodrigo. Apesar das tensões que inevitavelmente surgem, o Bloco tem sido maioritariamente bem recebido pela comunidade conimbricense, o que reforça o desejo de fazer, a cada ano, um Carnaval mais bonito e mais participado.

Do samba-reggae ao samba-enredo

Musicalmente, o Bloco do Beco inspira-se em diferentes tradições do Carnaval brasileiro. O samba-reggae da Bahia, nascido nos anos 1970 como expressão de valorização da população negra, convive com o samba-enredo do Rio de Janeiro e com referências ao Carnaval pernambucano, como os bonecos gigantes de Olinda.

As letras das canções escolhidas são, muitas vezes, fortes e politizadas, trazendo para o espaço público temas ligados à identidade, à história e à luta social. Não se trata apenas de ritmo, mas também de mensagem.

Bloco, não escola de samba

Uma das opções fundamentais do coletivo foi afirmar-se como bloco e não como escola de samba. A escolha rejeita a lógica da competição, do investimento elevado e da padronização dos corpos. No Bloco do Beco, todos os corpos podem performar livremente, sem hierarquias nem papéis fixos. Não há rainhas nem figurinos obrigatórios — há diversidade, expressão e liberdade.

Nos ensaios fechados, o foco está na percussão e na relação do corpo com o ritmo. A dança surge de forma espontânea, no momento, como manifestação individual e coletiva.

Trio elétrico e desfile pela cidade

No dia 14 de fevereiro, o desfile concentra-se na Praça do Comércio e segue pela cidade, passando pela Praça 8 de Maio. A grande novidade deste ano é a presença de um trio elétrico, à semelhança do Carnaval da Bahia, com banda ao vivo. Três artistas — Celso, Vitória e João Vitor — estarão em cima do trio, acompanhados pelo Bloco a tocar na rua.

Uma construção coletiva com apoio da cidade

A realização do Carnaval do Bloco do Beco só é possível graças a uma forte rede de parcerias com instituições locais, como o GEFAC, o Orfeon, o Salão Brazil/Jazz ao Centro, a Blue House, o Teatro da Cerca de São Bernardo e a Escola da Noite, entre outras. Essa ligação reforça o sentimento de pertença e inscreve o Bloco do Beco no tecido cultural da cidade.

Um convite aberto

O apelo final é simples e direto: participar. Não é preciso saber tocar, dançar ou sambar. Basta vontade de estar junto, aprender e construir coletivamente. O Bloco do Beco não procura a perfeição técnica nem o espetáculo acabado — isso fica para o teatro. Na rua, o que importa é a comunidade.

Em Coimbra, o Carnaval volta a ser sinónimo de encontro, diversidade e ocupação do espaço público. E todos estão convidados. pode saber mais aqui.

Nota: artigo construído com IA a partir da transcrição da conversa no programa Culturama, com posterior edição humana.

Fotografia: Tânia Rocha