
Coberturas RUC
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UM PROGRAMA DE:
Programação RUC
Francisco Oliveira, elemento de Amuleto Apotropaico, revelou à RUC sobre o mais recente trajeto da dupla, numa entrevista que passa também por considerações sobre as influências mais profundas do projeto.
Em primeiro lugar, Francisco, obrigada por dares algum do teu tempo para a antena da Rádio Universidade de Coimbra, agora depois de teres tocado com o Amuleto Apotropaico juntamente com o António, aqui nas Siestes de Coimbra 2025.
Há dois anos tocavam em Coimbra no warm-up do Palco RUC, e este ano lançaram um álbum e regressam a Coimbra. O que é que mudou desde daí na vossa performance, porque passaram de uma componente instrumental para uma 100% eletrónica.
Sim, a partir do momento em que lançámos o disco houve uma espécie de imposição também, não só performativa mas também musical, de cumprir com um leque maior de opções, basicamente, e aquilo que nós estávamos a fazer e fizemos em estúdio, até parte essencialmente do António de fazer os arranjos daquilo que eram as gravações que fomos fazendo ao vivo e outras gravações também com o Ricardo Jacinto, por exemplo, com outros músicos e amigos que acabavam por participar sempre de uma forma direta ou indireta naquilo que íamos fazendo, e apareceu essa espécie de imposição numa paleta sónica maior e aquilo que nos traz os instrumentos eletrónicos é precisamente isso, é uma espécie de âmbito maior daquilo que nós podemos fazer a nível sonoro.
O vosso homónimo é uma recomposição das gravações das vossas performances ao vivo, como é que, sentimentalmente, foi olhar para trás para estas gravações e recompô-las então desta forma? O que eu estou a perguntar aqui, no fundo, é o que é que te passa pela cabeça em termos emocionais, sentimentais, ao ouvir o que vocês andaram a fazer nos últimos anos?
É muito interessante, de alguma forma todos os concertos nos pareceram diferentes, há uma espécie de grupos de concertos que nós conseguimos acabar por identificar, não só a nível temporal mas também a nível emocional e de várias formas diferentes, na verdade.
Para além de gravações de concertos, temos gravações que fomos fazendo também independentemente e acaba por ser uma espécie de compêndio muito arranjado, pelo António também, daquilo que foi o trajeto do projeto até agora. Vemos de uma forma bastante carinhosa, na verdade, foi muito interessante olhar para estas gravações novamente e esta vertente mais espiritual do projeto acaba por indicar também que este momento é um momento meio solene, de alguma forma, é o momento de criação do disco e estamos com alguma dificuldade em criar uma coisa de raiz e parece-nos fazer bastante sentido, pegar naquilo que tínhamos feito até agora e continuar por aí.
Pegando na parte espiritual, há dois anos também, o António em entrevista comigo falava no interesse pela música espiritual, este âmbito temático mantém-se e continua a inspirar então o vosso homónimo? Se sim, de que forma?
Sim, sem dúvida, tenho a ideia que tem a ver mais com uma espécie de visão sobre a música que nós acabamos por partilhar neste projeto, ainda mais do que qualquer tipo de individualidade que exista, porque acaba por existir sempre, mas há uma espécie de conexão com aquilo que é a música que queremos fazer neste projeto, que acaba por ter muito a ver com a música espiritual e não só espiritual, mas também com outras, e nem só a música na verdade, com outras estéticas vernaculares e antropológicas de alguma forma, há uma espécie de conexão muito grande com a música e com o som, como um meio de expressão quase primário e apesar de termos ferramentas inevitavelmente tecnológicas, o approach diria é muito esse.
Pela parte antropológica, há algum tipo de literatura que te influencie na música que tu fazes?
Eu diria que sim, muitas vezes tem muito a ver com aquilo que é o contexto português, eu sou um, eu tenho uma espécie de um fascínio relativamente grande pelo José Leite de Vasconcelos, por exemplo, que é um etnógrafo português do final do século XIX, e eu sinto que é uma fonte de inspiração bastante grande naquilo que é, há um texto em concreto que se chama Tradições Populares Portuguesas que acaba por falar das tradições separando-as por substâncias e isso para mim é uma forma muito bonita de pensar a relação da matéria com a espiritualidade e acaba por transcrever e transpirar para aquilo que eu faço musicalmente. O António terá referências provavelmente diferentes, muitas outras que nós partilhamos, mas sim, acho que acaba por haver esse transpirar, diria, de certo.
Fotografia por Pedro Cosme.

