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Repúblicas em risco de despejo: UC acusada de “assédio imobiliário”
A Universidade de Coimbra (UC) formalizou, no dia 15 de julho, a intenção de denúncia do contrato de arrendamento da República das Marias do Loureiro. As estudantes querem negociar, mas a “falta de transparência” da reitoria impede a tomada de decisões informadas.
O Largo de São Salvador é, há 33 anos, a casa da República “das Marias”. A primeira república transfeminista do país está agora em risco de despejo.
Um ano de pressão e de retirada de recursos
A decisão conta com o apoio do Ministério da Educação e surge após um ano de pressões informais que, quem ali vive, descreve como “assédio imobiliário”.
Desde setembro de 2025, a UC recusa-se a receber as rendas e suspendeu o envio das faturas de água e de eletricidade. Mariana Baptista, moradora da República, explica que o acesso a bens alimentares também foi dificultado pelos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra (SASUC).
O risco de segurança e a falta de um projeto de requalificação
Em comunicado, a instituição da Ensino Superior justifica a decisão com um relatório técnico que aponta para o “risco grave para a segurança das residentes” e alega que uma vistoria levada a cabo pela Proteção Civil concluiu que “o edifício não reunia condições de habitabilidade”. No entanto, Carolina Moreira, antiga residente, garante que, apesar dos pedidos formais, as estudantes nunca tiveram acesso ao documento.
Apesar da urgência invocada pela Reitoria, as residentes sublinham que a UC ainda não apresentou qualquer plano de requalificação nem projeto de financiamento para as obras.
Para as moradoras, a segurança é apenas um argumento para a universidade recuperar a posse do imóvel e avançar com projetos próprios. A casa está estrategicamente localizada entre duas residências universitárias dos SASUC, que foram fechadas em 2023.
A “intransigência” na negociação e a hipótese de realojamento
Em declarações, a UC garante que tentou chegar a acordo com as repúblicas, que “mostraram preferência pela suspensão do contrato de arrendamento” em vez da “indemnização a que tinham direito”. Afirmam, ainda, que foi disponibilizado a todas as estudantes alojamento em residências universitárias dos SASUC, oferta que não foi aceite pelas mesmas.
No entanto, as moradoras esclarecem que nunca aceitaram a proposta final da instituição, que consideraram não incluir garantias de realojamento adequado nem prazos para o regresso a casa. Carolina Moreira aponta a “intransigência da instituição” como motivo da falha na negociação e explica que “uma república é muito mais do que quartos”.
Em troca do cessamento definitivo do contrato, a UC ofereceu à República uma indemnização correspondente a 12 meses de renda. De acordo com os últimos dados do Observatório de Alojamento Estudantil, o valor não seria suficiente para pagar um mês de alojamento a cada uma das residentes no setor privado.
O papel social e cultural das repúblicas
Para as moradoras, aceitar o realojamento em residências universitárias destruiria o papel comunitário do projeto, que há mais de três décadas, atua como porto de abrigo para vítimas de violência e para populações vulneráveis.
Classificadas como Património Mundial da UNESCO, as repúblicas garantem a muitos estudantes a oportunidade de estudar em Coimbra com rendas acessíveis e num ambiente social único.
José Machado, presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC), assegura que a Direção Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) está disponível para apoiar a República das Marias do Loureiro e que vai assumir um papel de mediação no processo.
As estudantes concluem que estão abertas a negociações e que querem as obras de requalificação, mas não aceitam condições que não garantam a preservação da República. É possível ler, na fachada do edifício, o seguinte apelo: “Não ao despejo, sim às obras”.
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