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O próximo Sábado começou no último Domingo

Há uma angústia tão subtil quanto implacável, neste estado de espera que não é bem espera, é mais uma habitação provisória num tempo que ainda não chegou. Os compromissos sucedem-se e ele comparece. Mas está, em tudo o que faz, irremediavelmente ausente. Partido entre dois sábados, o que ficou para trás e o que ainda não veio, existimos neste intervalo como quem atravessa uma mina escura na senda do que é mais precioso.

Foi no passado domingo, quando o apito ecoou três vezes, no meio da maresia, que qualquer coisa de irreversível se instalou no peito deste homem que escolheu, há anos, um amor que nunca prometeu ser gentil.
A semana apresentou-se com os seus deveres habituais: a faina do trabalho, a cortesia obrigatória das conversas, a encenação de uma normalidade que se tornou, de súbito, insuportável. Sentou-se à secretária imbuído de dever, mas o olhar temerário vagueava, idomavelmente, para além das paredes do escritório, perscrutava a cidade, pousando, com uma obstinação que já não era sua mas do destino, sobre o Estádio Cidade de Coimbra. Ali ficava como um estrangeiro camusiano que reconhece em terra alheia o único sítio onde verdadeiramente pertence.
Há uma angústia tão subtil quanto implacável, neste estado de espera que não é bem espera, é mais uma habitação provisória num tempo que ainda não chegou. Os compromissos sucedem-se e ele comparece. Mas está, em tudo o que faz, irremediavelmente ausente. Partido entre dois sábados, o que ficou para trás e o que ainda não veio, existimos neste intervalo como quem atravessa uma mina escura na senda do que é mais precioso.
Sexta-feira é dia de estágio. Não apenas para a equipa que, algures, se prepara com a seriedade dos que carregam, incorporado ao seu, o peso alheio sobre os ombros. É um retiro sem paz, uma vigília que o corpo não pediu mas que a ânsia postula. O breu traz consigo imagens que não são bem sonhos nem bem pesadelos, mas ensaios do que ainda não aconteceu. Quando o sono não vem, há apenas o tecto, o escuro, um zumbido surdo que não cessa. A hiperactividade de quem não tem onde pousar as mãos, alterna com a acinesia de estar suspenso entre o que teme e o que deseja.
Ei-lo, chegado ao destino, neste interminável dia que começou há sete outros atrás. Ergue-se do leito com a solenidade contida de quem conhece o peso do que está prestes a vivenciar. Estende a camisola diante de si como um guerreiro que contempla a armadura que guardou para as mais importantes batalhas; esse e outros rituais sucedem-se como os preceitos de uma liturgia antiga. Nada é deixado ao acaso porque nada pode ser deixado ao acaso. Não hoje, não neste sábado de todos os sábados. Ao início da tarde, o caminho habitual, aquele que se conhece de cor, com os seus cruzamentos e as suas rotinas, sem surpresas nem hesitações.
A ele, outros se juntam. Aquela maré de domingo engalfinhou milhares, quebrou a elasticidade de corpos que queriam saltar de euforia para um amorfo amontoado de carne e osso. Um a um, como sempre fizeram, como sempre fizeram os que vieram antes deles, é geracional, é etnográfico. Rostos conhecidos, abraços que dispensam palavras, olhares que dizem tudo o que não precisa de ser dito. São uma comunidade que a semana dispersou e que o sábado volta a costurar. Unidos não por escolha racional mas por qualquer coisa mais funda e mais antiga. Uma lealdade que atravessou anos magros, derrotas, silêncios, e que chegou até aqui intacta e carregada. Assusta-os perceber que há coisas que se desejam com uma intensidade que o corpo não foi feito para suportar e que este é um desses momentos, raros e devastadores, em que é finalmente confirmado ou desfeito. E, tal como começou este longo dia, no outro domingo, soa um apito.

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