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20.11.2025POR Aurora Correia

Munida de uma cruz a segurar o microfone, assim se fez ouvir a cerimónia de Mother Cain no Lisboa ao Vivo

Estrela em ascensão desconfortável com a fama, a pastoral gótica norte-americana de 27 anos encheu no dia 9 de novembro a sala maior do Lisboa ao Vivo (LAV), reafirmando-se como a voz de uma geração afinada com a sua própria melancolia.

Quando aos primeiros acordes de uma banda de abertura se ouvem as palavras “dificuldades técnicas” e o público a elas reage, veementemente, com eufóricos gritos e aplausos, torna-se clara a noite que se avizinha: um ambiente de devoção total, característico dos fenómenos musicais que conseguem conquistar públicos antes mesmo de pisarem o palco.

Foi esse o caso no LAV, no qual os canadianos 9Million – projeto de shoegaze com ecos de grunge – abriram, numa soturna noite de domingo, o concerto de Ethel Cain. O septeto, que mal cabia no palco, apresentou-se num registo dissonante e caótico, contrastando com o cenário do mundo sonoro e conceptual da cantora norte-americana, qual floresta fantasmagórica envolta de musgoso nevoeiro.

A escolha dos 9Million para o despontar da noite vem da ligação de longa data entre o líder da banda canadiana, Matthew Tomasi, e Ethel Cain, com quem partilha composições e colabora regularmente. Assumindo desde o início o carácter experimental da atuação, o grupo salientou que, sendo aquele o último concerto da digressão, não trazia um alinhamento definido e iria recorrer à improvisação.

Às 22h10, hora marcada, a sala maior do LAV – lotada com mais de três mil pessoas – vociferou em frenesim quando Ethel Cain finalmente entrou em palco. Envolvida num aparato cénico de luz e fumo, a artista manteve as mãos erguidas e o olhar voltado para o céu durante toda a introdução em “Willoughby’s Theme”. Munida de uma cruz a segurar o microfone, assim se iniciou a cerimónia de Mother Cain no LAV.

Eis o aterrador mergulho de Ethel Cain no abismo: mais do que um nome musical, uma narrativa em expansão, uma mitologia própria. A própria figura de Ethel Cain é uma personagem criada por Hayden Anhedönia, artifício que a artista tem vindo a assumir em várias entrevistas não só como forma de expressão, mas também de confronto com medos e inseguranças num mundo que, aos seus olhos, lhe surge por vezes como estranho, inquietante e quase surreal.

A estética de Ethel Cain aproxima-se cada vez mais do universo de David Lynch – cineasta que a artista já declarou admirar e cuja influência é evidente. Há claras pistas de Twin Peaks na atmosfera do mais recente álbum, tanto na atmosfera sonora como na visual – referências também se estenderam ao palco, nesta digressão agora apresentada ao público português.

Em Willoughby Tucker, I’ll Always Love You – a presença mais sentida no concerto do LAV – surgem alguns dos momentos memoráveis da noite. As canções revelam paisagens sonoras ambient e slowcore, com nuances de shoegaze, gótico e rock experimental. De “Janie” a “Fuck Me Eyes”, passando por “Nettles”, os temas expandem-se pelo tempo e espaço, respirando, pulsando e edificando paredes de som imensas que ressoam ao longo de toda a sala.

As letras, densas e por vezes viscerais, mergulham em temas como o amor, a morte e a perda. A narrativa do álbum leva-nos de mãos dadas à história do primeiro amor de Cain, Willoughby Tucker, na qual se versa a intensidade de dois jovens que se veem como salvação mútua quanto a realidade de uma relação que fere e separa –  entre a idealização e dor, eis o inexorável modus operandi do longa-duração.

Recebendo Lisboa de braços abertos e agradecendo, de forma comovida, aos fãs por se juntarem à sua comunidade, Cain sublinha que este era o último concerto da sua digressão e, por isso, “muito especial”. Pontualmente, reitera a sua gratidão ao longo da atuação e volta a fazê-lo perto tanto do final como no encore.

Ainda assim, a audiência não aparentou carecer dessas interações: os gritos de apoio, em total exaltação, são mais reminiscentes de uma estrela pop do que do ambiente soturno e cinematográfico do palco, dos longos temas e dos graves profundos.

Todavia, tudo em Ethel Cain é muito isto – e, ainda assim, faz absoluto sentido. A identificação do público é evidente nas roupas, nos cartazes e em toda a energia eletrizante de uma sala a transbordar amor, devoção e catarse.

Depois de apresentado quase todo o novo álbum, a sala deu as boas-vindas à fase mais hipnotizante, imersiva e magnetizante do concerto – a provocadora travessia por Perverts. Com temas como “Vacillator” e “Onanist”, Cain manteve o público num limbo entre assombrosos drones e exorcismos líricos. Ominosa calma antes da tempestade, bastou irromper “Tempest”, a faixa mais colossal do último trabalho, para que tudo voltasse a incendiar-se.

Oscilando entre autobiografia, tradição literária estadunidense e terror religioso, chegou a tão aguardada e aclamada passagem por Preacher’s Daughter. De “Sun Bleached Flies” – onde ressoa o verso “Deus ama-te mas não o suficiente para te salvar”, entoado por Ethel Cain como quem devolve uma confissão – ao imponente “Thoroughfare”, passando por “Crush”, êxito do EP Inbred, e o clássico “American Teenager”,  o público deixou-se guiar por cada palavra, cada suspensão, como se revisitasse um lugar nostálgico que tem de tanto íntimo como visceral.

“A Ethel Cain é, para mim, uma forma de expressar as coisas que me aconteceram e as coisas que já temi que pudessem vir a acontecer-me – o medo de ser uma mulher neste mundo”. Assim confessou Hayden Anhedönia à revista The Cut.

Cain é o nome com o qual Anhedönia, sobrenome escolhido por si na sua vida pessoal (significa literalmente anedonia, ou seja, a incapacidade de sentir prazer em momentos que por norma o proporcionariam), se tornou, nos últimos anos, aquela que muita imprensa argumenta ser um dos mais improváveis fenómenos de popularidade no atual panorama musical.

Recebendo afetuosamente ramos de flores do público, Cain despediu-se, em plena adoração dos fãs, a caminho do merecido descanso que o final da digressão lhe trará; deixando a dúvida de que mais intrínsecas metarmofoses terá até a voltarmos a ver, no Primavera Sound do próximo verão.

Fotografias: Gonçalo Silva / Last Tour.

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