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07.10.2025POR Isabel Simões

Abstenção, Habitação Estudantil, Cultura e Mobilidade dividem candidatos a Coimbra, mas todos querem cidade mais inclusiva e jovem

Debate no TAGV em Coimbra destacou abstenção elevada, habitação estudantil escassa, risco às repúblicas, cultura inclusiva e desafios de mobilidade. Candidatos divergiram sobre soluções, mas concordam na necessidade de tornar a cidade mais atrativa, acessível e sustentável para jovens e estudantes

Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) acolheu debate entre os candidatos à Câmara Municipal de Coimbra. Mediaram os órgãos de informação da Associação Académica de Coimbra: RUC, A Cabra e tvAAC.

O painel contou com José Manuel Pureza (Bloco de Esquerda), Francisco Queirós (CDU – Coligação Democrática Unitária), Ana Abrunhosa (Coligação Avançar Coimbra), José Manuel Silva (Juntos Somos Coimbra), Sancho Antunes pela Alternativa Democrática Nacional (ADN) e Maria Lencastre (Chega). Por motivos pessoais, Tiago Martins, da Nova Direita, não esteve presente.

Abstenção o que a motiva?

O debate iniciou com a questão da abstenção, tema que há muito preocupa os observadores políticos. Nas últimas eleições autárquicas, cerca de 47% dos eleitores do concelho de Coimbra optaram por não votar.

Maria Lencastre do Chega  foi a primeira a intervir, afirmando que “a cidade está de tal forma virada contra os cidadãos” que muitos acabam por se afastar da política. No entanto, garantiu representar “uma nova fase” e prometeu “fazer a diferença”, acreditando que isso contribuirá para diminuir a abstenção.

Sancho Antunes (ADN) considerou o fenómeno “galopante”, responsabilizando “os partidos e os políticos que perdem credibilidade ao não cumprir o que prometem”. Defendeu que o afastamento dos eleitores resulta da ideia de que “são todos iguais”, algo que diz querer contrariar.

José Manuel Silva (Juntos Somos Coimbra) apresentou uma visão distinta, sugerindo que a abstenção “pode também refletir satisfação com a vida” e não apenas desinteresse. Sublinhou, no entanto, a importância da “participação cívica informada”.

Já Ana Abrunhosa (Avançar Coimbra) alertou para a falta de literacia política e destacou a necessidade de envolver os cidadãos nas decisões. Lembrou o processo de auscultação “Ouvir Coimbra”, que resultou em mais de 500 propostas populares integradas no programa da coligação.

Francisco Queirós (CDU) relacionou a abstenção com a “falta de resposta aos problemas concretos das pessoas”, defendendo uma maior concretização dos direitos consagrados na Constituição.

José Manuel Pureza (Bloco de Esquerda) foi mais contundente. O candidato do BE criticou a “legitimação da abstenção” e apontou a falta de alternativas reais e a “cultura de individualismo” como causas profundas do afastamento cívico.

O desafio de estudar em Coimbra

O debate abordou o ensino superior e, em particular, o problema da habitação estudantil. Segundo dados da Associação Académica de Coimbra, o custo médio do alojamento ultrapassa os 280 euros mensais, com uma cobertura de residências que serve apenas cerca de 4% dos estudantes.

Francisco Queirós (CDU) defendeu um “forte investimento público” para aumentar a oferta de habitação acessível, criticando o facto de Portugal ter “apenas 2% de habitação pública”, face a médias europeias muito superiores.

Ana Abrunhosa (Avançar Coimbra) destacou a importância da articulação entre Câmara e Universidade, propondo a reabilitação de edifícios públicos e a criação de parcerias com cooperativas e privados. Defendeu também maior rapidez nos processos de licenciamento.

José Manuel Silva (Juntos Somos Coimbra) lembrou que “pela primeira vez” o município está a construir duas residências estudantis na Baixa, com mais de 100 quartos, e sublinhou a necessidade de garantir que “nenhum jovem fica às portas da universidade por razões financeiras”.

Sancho Antunes (ADN) criticou o atual executivo, afirmando que “só no fim do mandato se lembrou de construir residências”. Propôs reutilizar edifícios militares ou públicos devolutos como solução rápida para alojar estudantes.

Maria Lencastre (Chega) salientou a sua experiência na ação social universitária e informou que a Universidade de Coimbra e o Politécnico “utilizaram bem os fundos do PRR”, prevendo a criação de 1.500 novos quartos até ao próximo ano letivo.

José Manuel Pureza (BE) encerrou o tema criticando “a incoerência” de partidos que “no Governo aumentam propinas e localmente prometem residências”. Defendeu a reabilitação de edifícios públicos e a proteção das repúblicas estudantis, que considera “parte essencial do património académico e social de Coimbra”.

Repúblicas de Coimbra: tradição em risco foi outro dos temas abordados

O tema das repúblicas estudantis, símbolo da vida académica coimbrã, também gerou debate. Casos recentes, como o das Repúblicas das Marias do Loureiro e da Baco, ambas em risco de despejo, foram destacados pelos moderadores.

José Manuel Silva recordou que o atual executivo foi o primeiro a criar “um regulamento de apoio à compra e reabilitação de repúblicas”, salientando que as referidas casas estão a ser requalificadas pela Universidade.

Já Sancho Antunes defendeu que, sempre que uma república enfrente risco de encerramento, “a Câmara deve intervir, adquirir o edifício e devolvê-lo aos estudantes”.

Maria Lencastre reforçou a importância das repúblicas como parte da tradição académica e social de Coimbra, apontando a necessidade de garantir a segurança e a habitabilidade dos espaços.

José Manuel Pureza alertou que o município “não tem usado devidamente as prerrogativas legais” para intervir em edifícios degradados e defendeu que “as repúblicas são património histórico e cultural que deve ser protegido pela autarquia”.

Francisco Queirós acrescentou que as repúblicas “têm sido tratadas como bandeiras discursivas”, apelando a uma “intervenção urgente da Universidade, da Câmara e do Governo” para garantir que continuem a ser espaços vivos da cidade.

Fixação de jovens

A fixação de jovens em Coimbra foi outro dos temas centrais. Maria Lencastre criticou a falta de ligação entre a Câmara e o ensino superior, defendendo políticas que “promovam a criação de empresas e cooperativas ligadas à investigação universitária”.

José Manuel Pureza destacou que “os jovens ficam se a cidade for atraente em habitação, mobilidade e espaços verdes”, sublinhando que é preciso “cuidar dos que querem ficar” e oferecer condições para tal.

Francisco Queirós apontou a necessidade de “melhores transportes, creches e espaços verdes”, enquanto Ana Abrunhosa insistiu em “criar um ambiente propício à inovação e à ligação entre universidades e empresas”.

O atual presidente, José Manuel Silva, respondeu com dados: “Nos últimos três anos, Coimbra ganhou 1.616 jovens entre os 25 e 34 anos, fruto da instalação de novas empresas”, disse.

Cultura – cartão único e políticas inclusivas

A proposta de um cartão municipal para a cultura foi debatida à luz das iniciativas da Associação Académica de Coimbra.

Ana Abrunhosa defendeu a “desmaterialização e integração num único cartão para estudante, transportes e cultura”.

José Manuel Silva recordou o “Cartão Amigo do Convento” e a criação de uma “agenda cultural única entre a Universidade e a Câmara”, enquanto Sérgio Antunes criticou “um programa cultural pobre e pouco transparente”, defendendo que “a cultura é aquilo que a população entende como cultura”.

Para Maria Lencastre, “a cultura em Coimbra é tudo menos gratuita”, alertando para a necessidade de tornar o acesso mais inclusivo.

José Manuel Pureza e Francisco Queirós convergiram na crítica à “política do espetáculo”, pedindo “uma programação cultural diversa e continuada” que envolva artistas locais e o tecido associativo.

Transporte público: problemas e propostas

Vários candidatos alertaram para a situação crítica dos SMTUC. Horários desarticulados, linhas vazias e frota envelhecida são acusações recorrentes. O candidato do ADN, motorista dos SMTUC, explicou que autocarros novos permanecem parados devido à falta de manutenção e pessoal técnico qualificado, o que aumenta custos e prejudica os utentes.

Candidatos como Francisco Queirós e José Manuel Pureza enfatizaram que a rede precisa ser planeada com base nas necessidades reais dos cidadãos, garantindo horários adequados e acesso para todos, incluindo pessoas com mobilidade reduzida. O candidato da CDU destacou que atrasos na articulação com o MetroBus prejudicam a utilização do transporte público, obrigando muitas famílias a recorrer ao carro.

Por outro lado, Ana Abrunhosa defendeu a criação de uma empresa municipal 100% pública, com carreiras valorizadas e representação dos trabalhadores no Conselho de Administração. Para ela, o plano de articulação do MetroBus com o SMTUC e investimentos na frota são fundamentais para melhorar o serviço.

O atual presidente, José Manuel Silva, ressaltou que existe uma autoridade municipal e intermunicipal de transportes para coordenar os operadores da Comunidade Intermunicipa da Região de Coimbra, e que o Metrobus oferece benefícios significativos, incluindo rampas e avisos sonoros nos autocarros, aumentando a acessibilidade.Esclareceu estar em curso um estudo de requalificação dos SMTUC face à nova realidade do MetroBus.

Ciclovias e mobilidade suave

O debate abordou ainda as ciclovias. Candidatos apontaram que os troços existentes são insuficientes, muitas vezes apenas para lazer e sem conexão entre zonas da cidade ou com municípios vizinhos.

José Manuel Pureza e Francisco Queirós defenderam a criação de um plano integrado de mobilidade, incluindo ciclovias, transporte público e mobilidade pedonal.

Ana Abrunhosa reforçou a necessidade de completar os troços existentes, garantindo canais seguros de travessia do Mondego e permitindo a utilização da bicicleta como transporte diário.

José Manuel Silva lembrou que Coimbra tem ciclovias urbanas e enfatizou a importância das bicicletas elétricas para enfrentar o relevo da cidade.

Acessibilidade e inclusão

Todos os candidatos concordaram na importância de tornar os transportes acessíveis a pessoas com limitações de mobilidade. Foram mencionados como problemas, a falta de aviso sonoro para pessoas invisuais e necessidade de uma frota que garanta mobilidade segura para todos.

Nota: Resumo a partir de ferramenta de transcrição e edição de IA com revisão da editora. Pode ouvir o debate no ‘podcast’ do início do artigo. O debate contou com a moderação de Mafalda Inácio em representação da RUC, Leonor Viegas pelo jornal A Cabra e Pedro Xarão pela tvAAC.

Fotografias: Bernardo Matos

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