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Les Siestes 2025 – Da perícia instrumental ao DJing de renome
A ponte que liga Coimbra a Toulouse desde 2018 volta a ganhar corpo nos dias 29 e 30 de agosto no Jardim da Sereia e no Teatrão. Uma produção conjunta entre a Casa das Artes Bissaya Barreto e Les Siestes que prioriza a oferta cultural fora dos grandes palcos, e um estímulo cada vez mais procurado na cidade.
Depois das mais recentes edições pelo Salão Brazil em 2023 e pelo Mosteiro de Santa Clara-a-Nova em 2024, a mostra de música experimental invade o Jardim da Sereia com uma programação de dois dias, com nomes emergentes da cena nacional que já passaram em Coimbra seja com projetos paralelos ou com os próprios que vão tocar, a nomes do panorama internacional que têm incendiado as pistas de dança e alguns dos clubs mais reconhecidos além da fronteira.
Dia 1
O primeiro dia do evento, a começar no icónico Jardim da Sereia, que tem sido palco para eventos culturais, recebe Son Objet, Vanessa Bedoret, Amuleto Apotropaico, Takkak Takkak e Beatrice M, dois nomes conhecidos no circuito portuense, e três nomes originários em frança.
A primeira nota do Les Siestes 2025 vai ficar a cargo de Son Objet, nome artístico de Isabel Pereira, elemento do coletivo Elliptica e arquivista sonora, responsável por tapes como ‘manifesto furioso às gerações futuras’, que compila música experimental portuguesa compreendida entre os anos 60 a 90, bem como programas na Time Capsule e na Sphere Radio, enfáticos no mundo da colagem sonora e da psicodelia. A artista esteve já presente numa matinée da Casa das Artes Bissaya Barreto e garante um mergulho pelos cantos obscuros do DIY para o ouvido atento.
É com a violinista Vanessa Bedoret que vamos passar ao segundo ato do festival, com um percurso artístico que passou pelas guitarras em bandas de punk, e pelo contacto corporal no dancefloor da música electrónica, até encontrar o seu atual estado criativo numa mescla de várias influências caracterizada enquanto uma hipnose, que revela a sua própria experiência de vida e nos leva para o mundo que nos quer mostrar. O seu álbum ‘Eyes’ de 2024 foi descrito pela revista Fader como uma “reconstrução elegante e vanguardista da música de club”, e que nos aproxima das culturas de contacto entre várias abordagens à música, que se tocam onde menos esperamos.

Vanessa Bedoret
O regresso de António Feiteira e Francisco Oliveira, dupla que corporiza Amuleto Apotropaico, que tocou na Casa das Artes Bissaya Barreto num evento warm-up do Palco RUC 2023, é a terceira atuação que podemos contar no Jardim, e traz o seu mais recente álbum homónimo ao projeto, lançado durante este ano pela recém-nascida editora Perf, uma criação do DJ e curador portuense Tendency. O duo junta percussão, guitarra elétrica, flauta e manipulação analógica para um ritual rítmico do norte ibérico.
O público pode esperar uma entrada na polirritmia explosiva partilhada entre o Japão e Indonésia com o nome Takkak Takkak, criação partilhada entre Shigeru Ishihara e Mo’ong Santoso Pribadi, que interpretam as tradições sonoras dos seus países de origem, já fundidas, com uma componente de caos meticulosamente controlado e uma energia contagiante. A dupla conta com um lançamento na ugandesa Nyege Nyege Tapes e uma passagem memorável no italiano Lost Festival.
A percussão vai bater à porta do dubstep, sendo que Beatrice M a irá abrir ao género que foi afastado pelos consumidores de som pela sua associação à comercialização, fruto da legislação britânica nos clubs, que recentemente voltou a encontrar uma camada entusiasta de ouvintes e produtores. Beatrice M, artista francesa que entra também na dupla Beatrice Melissa com Melissa Weikart, e que está por trás da nova corrente emergente de renascimento da bass music através de editoras como SPE:C, Egregore Collective, Naff ou Traverse, vai estar pela segunda vez em território nacional depois de uma aparição no Outra Cena lisboeta, levando a Coimbra o território musical já é explorado por outras salas e festivais do país.
Dia 2
O segundo e último dia do evento conta com I’A’V, Harry Gorski-Brown, Rat Section, Loto Retina e Zohar, que se juntam ao alinhamento inédito desta edição do festival.
O concerto de abertura fica a cargo que Inês Malheiro, Arianna Casellas e Violeta Azevedo, que juntas formam I’A’V, projeto que originou a partir de um convite do bracarense gnration que já passou pelo Zigur Fest e pelas Noites de Verão curadas pela Filho Único, e que se estreia em Coimbra com as três artistas. O trio apresenta uma composição imersiva onde a flauta de Violeta, o violoncelo de Arianna e a voz de Inês se dissolvem em ‘Volatile Poem’, lançamento por sair e fruto da residência que juntou as três figuras.

I’A’V, por Hugo Sousa
É com Harry Gorski-Brown que a música gaélica se funde à electroacústica, e a cargo do compositor escocês, a reinterpretação folclórica entra também pelo já alargado espetro de música que o evento faz chegar à cidade. O seu último lançamento, intitulado ‘Durt Dronemaker After Dreamboats’, com selo da GLARC, editora de Glasgow, será pela primeira vez apresentado em Portugal, depois de passagens do artistas pelo Ancienne Belgique, Météo Festival ou Unsound Krákow.
Diretamente de Londres será a vez da dupla Rat Section tomar conta do público, com uma história enigmática e provavelmente criada para fins de manter o mistério (que conta a criação do projeto no final dos anos 90 e o seu trabalho perdido num incêndio com origem desconhecida), e um recente lançamento através da Halcyon Veil – ‘What Stays in Vegas’ – prometem uma primeira vez no país com um concerto preparado para surpreender pela sua criatividade de apresentação, contando com um confronto num ringue de boxe e um concerto numa piscina esvaziada que progressivamente era enchida com água. A sua vinda a Coimbra guarda uma possível surpresa de linhas imaginativas semelhantes, caso o público não esteja ainda crente do que o festival possa proporcionar.
Mais um nome francês entra para a programação das Siestes, Loto Retina, que cria inteiros reinos digitais de difícil caracterização no que toca aos enclaves clássicos de géneros musicais da electrónica, mas o contrário também não seria de esperar do festival que anualmente usa a surpresa a seu favor. A sua criação quase alucinante pode ser ouvida através de lançamentos como ‘Fiction’ e ‘2022’, através das editoras Orange Milk Records e Promesses, respetivamente.
A última atuação no Jardim da Sereia tem como protagonista a DJ dos Países Baixos, Zohar, mais um nome com reconhecimento internacional pela sua perícia nos decks e na forma como transforma os ritmos quebrados e as texturas densas numa viagem desorientadora mas que não deixa sair da pista, e portanto, o descolar para o último fim de semana de agosto fica assegurado nesta última noite do festival.
After
Do Jardim da Sereia a massa ouvinte poderá trasladar para O Teatrão onde vai encontrar o segmento de after até às 6 da manhã. A noite estará a cargo do conimbricense David Rodrigues, elemento do coletivo Cosa Nostra e detentor de um percurso inigualável em Portugal, Dawn Dani, exploradora sónica de Braga, pela primeira vez em Coimbra, que coloca a pista num estado atento e curioso, unindo sonoridades leftfield, quebradas, rápidas mas sempre introspetivas, e o DJ e produtor XCI, que foca em mostrar as sonoridades mais viscerais do campo eletrónico, sempre grato ao seu percurso enquanto ouvinte curioso, regressando a Coimbra depois de uma passagem pelo Terraço Afonso Macedo em abril para a celebração dos 5 anos do programa de música eletrónica da RUC com o nome Vektor.
A entrada para o Teatrão tem um preço de entrada de 6 euros, com bilhetes disponíveis na Blueticket e promete a Coimbra não desistir do formato clubbing que se sente lacunar na comunidade local e interessada.
(Fotografia de capa por Michael van den Berg).
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