![[object Object]](/cdn-cgi/image/width=1920,quality=75,format=auto,onerror=redirect/https://bucket.ruc.pt/wp-content/uploads/2025/08/23154249/WhatsApp-Image-2025-08-23-at-16.39.05-1-scaled.jpeg)
Extramuralhas 2025 – Dia 2 – Na excelência do pós-punk
O segundo dia da presença da Rádio Universidade de Coimbra no enclave gótico de Leiria foi pautado pelas mais diversas epifanias sónicas nos diferentes palcos da cidade, desde o sublime e soturno até ao animalesco e sensual.
A programação arrancou na sacralidade da Igreja da Misericórdia, onde se manifestou a performance visceral de Fågelle: artista sueca cuja criação habita o limiar entre o ruído pop, a vulnerabilidade lírica e a desconstrução vocal – tudo no âmbito da elaboração de uma paisagem sonora memorável. A sua atuação, quase litúrgica na entrega, revelou-se absolutamente congruente com a matriz estética do festival, ampliando as fronteiras sensoriais de um cartaz que, ainda que nicho, dá para todos.
O público é chamado para o jardim Luís de Camões. Lá, o Brasil fez-se ouvir através do som politicamente carregadíssimo dos Pink Opake, cuja proposta musical oscila entre o coldwave e o pós-punk. Entre visuais surrealistas e vocais revoltados, a atmosfera revelou-se densa e introspectiva, porém, sempre propícia à dança. A seguir, os espanhóis Darkways trouxeram com eles uma tempestade sonora mais tipicamente melancólica e em muito evocativa do rock gótico da década de 80. O som melancólico, pontuado por um ritmo marcante e intransigente, reverberou com força nos presentes, criando uma sinfonia de contradições entre a calma aparente e a energia bruta.
No palco do teatro José Lúcio da Silva, esperavam os momentos mais emocionalmente saturados. Em primeiro no alinhamento, Bärlin: o projeto de origem francesa deu um concerto audaz, de uma teatralidade sonora avassaladora e de uma atmosfera de urgência hipnótica, com sons dilacerantes que se entrelaçam com elementos do jazz e do pós-punk numa simbiose fenomenal. A audiência viu-se numa espiral de tensão, com uma presença cativante e de um tom experimental que reafirma a relevância estética do festival na vanguarda do underground contemporâneo.
Após um breve intervalo, ecoam na sala os sons inconfundíveis de Keeley Forsyth. A voz, que tem tanto de elegante como de marcado desespero, é acompanhada por melodias de piano minimalistas e meticulosamente calibradas por Matthew Bourne, tornando a consciência do público um espaço de meditação melancólica. A cantora e compositora britânica, com um trabalho que atravessa a interseção entre o experimental e o folk sombrio, ofereceu uma atuação intimista, crua e transbordante.
Entretanto, de volta ao jardim, a incansável dupla francesa La Boum Brute introduz uma narrativa synth-punk de afinação épica, revolucionária do início ao fim. Com o público já aquecido, chegam os gigantes do electro-industrial Suicide Commando. Num exercício artístico obsceno e macabro, a atmosfera apocalíptica e misantropa foi, na verdade, a grande catalisadora da dança obsequiosa no jardim. O verdadeiro aggressive techno no coração de Leiria.
A noite culminaria, como já é hábito, no Stereogun, que durante a duração do festival se transfigura num espaço de verdadeira celebração do clubbing gótico. A pista foi dominada pela presença enigmática da estadunidense SYZYGYX. Com um som imersivo que transita entre o darkwave e o minimal synth, deu-se uma catarse pontuada por sintetizadores cortantes e vocais de um sensualismo evidente. O fecho da noite coube a Alpha, encarregado dos sintetizadores em Bizarra Locomotiva. Contudo, esta noite, a sua missão foi brindar os presentes com uma seleção exímia de todas as manifestações da música da esfera gótica, com especial atenção para as sonoridades mais industriais. É seguro dizer que cumpriu.
A Rádio Universidade de Coimbra mantém o compromisso de acompanhar integralmente esta edição do festival gótico Extramuralhas.
Cobertura a cargo de Laura Rosário e Lexi Narovatkin.
PARTILHAR:


