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05.05.2025POR Miguel Duarte

Tremor 2025: O “teste às costas” dos 800 Gondomar 

O Festival Tremor regressou a São Miguel de 8 a 12 de abril para a sua 12ª edição, com concertos em lugares inusitados, pontos de escuta e conversação, projetos de residência, showcases e trilhos musicados. A RUC conversou com os 800 Gondomar, de Rio Tinto, que nos trazem sons do Japão, depois de uma digressão. O que é que os embaixadores de São Gunão viveram em 18 concertos do outro lado do Mundo?

Ao terceiro dia do Tremor, no Museu do Tabaco de Ribeira Grande, os testes de som da dupla escocesa comfort em linha com o concerto, os versos incisivos de Natalie McGhee e a percussão calculada do irmão, Sean, num ápice e fulgor amplificados. Teriam aterrado 20 minutos antes.

A um ritmo de voos seguidos vinham também os 800 Gondomar, minutos depois, no Mercado da Ribeira Grande para um dos momentos explosivos do Tremor. Entramos na confusão delimitada a Rio Tinto, mas que pode ser de outro lugar qualquer, para vivermos as histórias de São Gunão, uma oração à vida suburbana. Depois de 46 horas de voo, submetem-se a esta “fisioterapia forçada” , o primeiro concerto em solo português depois de uma digressão no Japão.

No dia seguinte, eram 17h em Ponta Delgada, 2h em Osaka, e à frente do mítico Clube União Micaelense, encostados ao sol, estão Rui Fonseca, Frederico Ferreira e Alô Farooq, os 800 Gondomar, power trio de Rio Tinto:

 

Como foi para vocês esta tour pelo Japão?

Frederico Ferreira: O facto de estarmos entusiasmados em estar do outro lado do Mundo e em contacto com uma cultura completamente diferente, ter a oportunidade de partilhar a mensagem e a nossa música foi um processo bastante bonito do início ao fim.

 

No ano passado, em entrevista, falaram da vossa ligação à editora Patari Records e ao teste em território grego de demos que viriam a criar São Gunão.

No Japão, guardam algum sítio como favorito? 

FF: É muito difícil escolher um favorito, mas há cidades que vamos guardar com bastante carinho, por exemplo Beppu, uma cidade com bastantes caraterísticas semelhantes aos Açores, uma cidade termal também.

Alô Farooq: O venue aí era bastante especial. Todos tinham uma arquitetura muito específica e diferente, mas esse tinha dois andares e oferecia capacidades plásticas para o espetáculo muito interessantes.

Rui Fonseca: Há uma cena fixe aqui, não só o ecleticismo das salas, nós tocámos na casa de concertos mais antiga do Japão, em Quioto, takutaku, uma sala espetacular com cartazes do Bo Diddley, daquelas que só quando cheguei lá é que percebi o que estava a acontecer, mas também fizemos concertos numa casa de karaoke, ao pé do Monte Fuji, um sítio que nem recebia concertos. Mas conheci o filho da dona, que tem uma banda, e ele quis fazer acontecer: foi um one-off 800 Gondomar com karaoke a noite toda.

 

Deveria ter começado por aqui, como é que estas 18 datas no Japão surgem?

RF: Com muita vontade, interesse, persistência e amor. “Linkamos” com uma banda japonesa que se chama TsuShiMaMiRe, que são umas manas que andam nisto há 25 anos… Não as conhecíamos pessoalmente nem as tínhamos visto ainda a tocar, mas superou tudo o que poderíamos ter considerado. E elas convidaram-nos a fazer umas datas, 8, e decidimos marcar o resto dos dias, fazer este teste a nós próprios. Felizmente resultou. Se não fosse o Tremor, e ainda bem que existe, tínhamos feito mais uma semana, ainda havia mais ilha para descobrir.

 

É aqui que surgem as bandas que anunciaram, os Kids N Cats e WE Are The Asteroid?

RF: Elas (TsuShiMaMiRe) inventaram um conceito chamado “Gaitare Mamire”, talento estrangeiro, e em 2016 fizeram-no com uma banda americana e uma austríaca, para usar essa questão multicultural como selling point. Desta vez acrescentaram-nos ao line-up, as datas foram sempre com uma banda convidada e diferente para cada cidade, algumas das nossas bandas favoritas. O resto fomos nós. Não sei se sabias mas tocámos com 39 bandas no Japão.

 

São Gunão tem um ano, um mês e mais uns dias. Estão prontos para voltar a estúdio, ou este álbum ainda merece mais rodagem?

FF: Acho que a seu tempo, a abordagem é voltar a estúdio como é obvio, mas o “São Gunão” ainda pode ser divulgado por mais salas deste país e fora.

AF: Nós quando pensámos no “São Gunão” tínhamos a ideia de fazer uma edição grega do álbum, e para nós é mesmo especial termos feito a edição grega e agora a edição japonesa. Acho que foge àquilo que tínhamos planeado e aumenta o nosso motivo de orgulho em relação ao álbum, as duas edições internacionais.

RF: Acho que é uma questão de fazer o que está certo, para mim. Testares a tua música ao maior número de demografias, contextos e culturas diferentes, acho que é o que te faz prevalecer e construir coisas cada vez mais completas. Nós apesar de cantarmos em português, guiamo-nos muito por um liricismo e símbolos de pertença muito universais, e é fundamental perceber onde existem esses símbolos. A própria tradução de “São Gunão”, sendo uma expressão veiculada ao calão, principalmente nortenho, para países que nem usam o mesmo alfabeto, não é um processo linear, é algo que envolve uma espécie de pesquisa de campo com as pessoas de lá, envolve um concerto ao vivo, e mesmo para que as pessoas percebam o que é um “gunão”, e o que é um “santo”. Começando por aí, e aplicando a diferentes corporalidades, acho que ainda falta testar muito isto, provar muito isto, expô-lo aos sítios mais desconfortáveis possíveis para depois voltar a estúdio.

 

Uma palavra, pessoa ou local que represente “São Gunão” no Japão?

AF: A palavra seria “Kanpai” (かんぱい), “saúde”, se quiseres brindar. As pessoas mais importantes neste processo todo, não necessariamente que queiram dizer “São Gunão”, foram as TsuShiMaMiRe, ajudaram-nos bastante e a hospitalidade delas foi qualquer cena, estamos muito agradecidos.

RF: Muito obrigado ao Tremor, por nos ter convidado. Não há nada melhor do que vir de outro sítio, da festa para casa, mas ainda ires um bocadinho a outra festa. Voltares de forma amigável à tua realidade.

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