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05.08.2026POR Tomás Cunha

A Odisseia academista começa em Chaves: raio-x ao mercado e ao plantel academista

Enquanto o mundo vê nos cinemas “A Odisseia”, de Christopher Nolan, a Académica começa este sábado a sua própria viagem. Quatro anos depois, a Briosa regressa à Liga 2. A primeira de 34 etapas joga-se em Chaves, às 11h00 com transmissão na RUC, pois claro

Sábado de manhã, 8 de agosto, às 11h00, em Chaves. É aí que a Académica inicia a sua odisseia na Liga 2, quatro anos depois da última passagem pelo segundo escalão. O reencontro com esse palco fez-se, para já, em tom de festa. A apresentação aos sócios, na passada quinta-feira, juntou centenas de apoiantes na Praça do Comércio, num ambiente de entusiasmo visível, mesmo numa fase do ano em que Coimbra costuma estar mais vazia. Presidente e treinador tentaram intervir várias vezes, mas foram interrompidos pelos cânticos da massa associativa. “Acho que foi um evento que teve bastante adesão”, resumiu o comentador da RUC Salvador Cabeças. O ambiente foi bonito. Falta perceber se o plantel vai corresponder ao ambiente.

Joaquim Reis deixou uma ideia importante nessa apresentação: o plantel ainda não está totalmente fechado. E, olhando para o desenho atual da equipa, percebe-se porquê.

Defesa: a esquerda estava curta, mas chegou experiência

Um dos problemas mais evidentes estava no lado esquerdo da defesa. António Barbosa admitira que Kaká era, até aí, a única opção de raiz para a posição. Entretanto, a Académica garantiu Hélder Lopes, lateral de 37 anos, com uma longa carreira fora de Portugal.

O defesa regressa depois de nove épocas no estrangeiro, primeiro na Grécia, ao serviço do AEK, e depois em Israel, no Hapoel Beer Sheva. Na última temporada, realizou 33 jogos, marcou quatro golos e fez duas assistências. É um reforço que traz experiência, rotina competitiva e uma solução concreta para uma lacuna identificada.

Meio-campo: dependência de Leandro Silva levanta sinais de alerta

Se a esquerda da defesa já recebeu resposta, o meio-campo continua a concentrar algumas das maiores dúvidas. A preocupação principal tem nome: dependência de Leandro Silva.

Salvador Cabeças foi direto na leitura dos jogos de preparação: “As duas piores partes da Académica, tanto em Santarém como nas Caldas, foram quando o Leandro não esteve em campo…”, algo que não é novo e que já se verificou na época passada.

Leandro Silva continua a ser o jogador que dá organização, critério e sentido coletivo à equipa. Quando está em campo, a Académica parece mais equilibrada; quando sai, nota-se uma quebra na estrutura e na capacidade de controlar o jogo. Essa influência confirma a importância do médio, mas também expõe uma fragilidade: será excessivo colocar tanto peso num só jogador ao longo de 34 jornadas? Fica a pergunta.

Ataque: setor novo, algumas pistas e pelo menos uma peça ainda em falta

Na frente, a Académica entra praticamente do zero. O ataque é o único setor sem qualquer jogador da época passada, o que torna mais difícil antecipar comportamentos, rotinas e rendimento imediato.

Foi precisamente por isso que os sinais deixados nos jogos de preparação ganharam relevância. Salvador Cabeças destacou Amadou Coundoul, apesar do pouco tempo em campo: “Foi dos jogadores que eu mais gostei de ver, mesmo sendo só 10 minutos, porque ele teve lá dois lances em que arrancou do lado esquerdo e ganhou sempre a frente dos lances.”

A nota é positiva, mas não elimina as dúvidas. Salvador Cabeças entende que o setor ofensivo ainda precisa de mais uma solução, seja para a ala, seja para o centro do ataque. A ideia é partilhada no universo academista: falta pelo menos mais uma peça para dar profundidade, concorrência e capacidade de resposta a um setor totalmente renovado.

Quanto às opções de António Barbosa, já se percebeu que Martim Tavares pode ser utilizado tanto no centro como na linha, lembrando a utilização por parte da António Barbosa de pontas de lança nas alas, como já aconteceu com Rondon, Basy ou Nuno Barbosa.

Construção do plantel: muito trabalho, algumas perguntas em aberto

Na apresentação, Joaquim Reis garantiu que a Académica tem “o plantel praticamente fechado”, construído à imagem da época passada, combinando juventude, experiência e vivência internacional.

António Barbosa acrescentou que foram observados mais de 300 jogadores, com especial enfoque na finalização, no trabalho de área e no perfil comportamental dentro do balneário, algo que suscitou dúvidas no comentador da RUC, João Moreira, devido à subjectividade inerente a este tipo de análise. Só o tempo dirá.

Ao mesmo tempo,“PhD Moreira”, deixou uma pista sobre um possível trunfo da Académica: as bolas paradas. Com várias torres acima de 1,90 m e com Leandro Silva como executante de qualidade, esse pode ser um caminho concreto para tornar a equipa mais competitiva, sobretudo numa fase inicial, em que o jogo corrido poderá ainda revelar menor entrosamento. É uma nota a ter em conta para o jogo em Chaves.

Objetivo da época: manutenção, sem ilusões

António Barbosa foi claro quanto à meta para esta temporada: “O nosso objetivo declarado é a manutenção. É para isso que nós temos de trabalhar. E será um trabalho fantástico.”

O treinador também não escondeu a diferença de patamar entre Académica e Chaves à entrada para esta primeira jornada: “Vamos jogar com o Chaves, manteve o plantel, conseguiu contratar jogadores de nível muito alto ou de nível nacional, já de primeira divisão… E nós não estamos nesse nível neste momento ainda.”

O que esperar do jogo em Chaves

O comentador RUC, João Barata, antevê uma partida exigente, lembrando a consistência recente do adversário, que entra na quarta época consecutiva na Liga 2 e foi buscar Costinha, antigo jogador da Académica, ao Petro de Luanda, onde foi campeão.

João Moreira admite que, nesta fase inicial, até uma derrota não comprometedora pode ser aceitável. Já Salvador Cabeças mostra-se mais otimista e acredita que a Briosa pode entrar bem no campeonato, apontando para uma vitória por 2-1. João Barata prefere um empate, com reação academista na segunda parte, enquanto João Moreira arrisca um 2-2 com dois golos de Ilies Fauré, genro de Fernando Sanz, antigo defesa do Real Madrid.

Entre o entusiasmo da cidade, as lacunas ainda por fechar e a dureza natural da estreia, a Académica chega a Chaves entre a esperança e a prudência. Agora, é a sério e tempo de perceber se a equipa tem estofo para resistir à tempestade e aproximar-se da sua Ítaca. Como sempre, é na RUC que pode acompanhar a odisseia academista.

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