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“Re UNIR para Re EXISTIR”: Teatrão apresenta programação que pensa o presente e o futuro
O Teatrão inicia um novo ciclo de criação e programação sob o lema “Re UNIR para Re EXISTIR”, uma ideia que não se limita a um slogan, mas que atravessa de forma estruturante os próximos anos de atividade da companhia. Em entrevista, Isabel Craveiro, diretora artística do Teatrão, explicou que este desígnio nasce da necessidade de pensar coletivamente o tempo presente e de imaginar formas mais profundas, criativas e solidárias de resistência.
A escolha do lema surge enquadrado nos ciclos de financiamento e planeamento plurianual, esclarece a diretora artística, Isabel Craveiro. Mais do que reagir às crises — climática, geopolítica, social ou cultural —, “Re UNIR para Re EXISTIR” propõe uma formulação mais exigente e, ao mesmo tempo, mais esperançosa: repensar como vivemos juntos, como nos relacionamos com o planeta e como a arte pode ajudar a imaginar outros futuros possíveis.
Crescer com as árvores: teatro desde a primeira infância
Um dos exemplos mais claros desta coerência artística é “O Tempo das Árvores”, espetáculo atualmente em cena e dirigido à primeira infância, a partir dos três anos. Criado em parceria com o Jardim Botânico e com um jardim de infância de Vila Verde, o espetáculo usa a metáfora do crescimento das árvores para refletir sobre o crescimento humano, a sensibilidade e a relação com a natureza.
A experiência começa logo à entrada da sala, com uma instalação vídeo interativa que responde à voz das crianças, criando um primeiro contacto sensorial com o espaço teatral. Para muitas delas, trata-se da primeira ida ao teatro — uma experiência pensada cuidadosamente para despertar curiosidade, escuta e vontade de regressar.
A peça explora temas como as raízes invisíveis, a regeneração, a interdependência entre seres vivos e a ideia de que todos fazemos parte de uma mesma cadeia, onde cada elemento, do ser humano à minhoca, tem um papel essencial.
Clássicos, dança e pensamento contemporâneo
A programação do Teatrão aposta também no diálogo entre os clássicos e as questões contemporâneas. Espetáculos como o de Sara Barros Leitão, inspirado em As Suplicantes de Ésquilo, abordam temas atuais como as migrações, integrando-se numa linha de trabalho que cruza teatro, estudos clássicos e reflexão política.
Paralelamente, a dança contemporânea ganha maior destaque, com nomes como Vera Mantero, André Braga e Cláudia Figueiredo. Para além dos espetáculos, o Teatrão aposta fortemente na mediação cultural, promovendo oficinas, conversas e encontros que ajudam o público a compreender os processos criativos e a diversidade de linguagens da dança contemporânea.
Um teatro aberto à comunidade
A ideia de “reunir” concretiza-se também na abertura da sala de ensaios à comunidade, permitindo que artistas, grupos amadores ou estruturas profissionais utilizem o espaço nos períodos disponíveis. Esta iniciativa reforça a visão do Teatrão como um espaço público, pertencente às pessoas e aberto à experimentação.
A participação do público estende-se ainda a projetos como as leituras ao domicílio, os projetos pedagógicos, o trabalho comunitário em bairros da cidade e a criação de residências artísticas permanentes.
Inclusão, acessibilidade e diversidade
O projeto MAIS é uma das apostas mais fortes deste ano, focado na inclusão através da cultura e na criação de oportunidades de profissionalização para artistas com deficiência. O projeto envolve formação em dramaturgia, música e interpretação, integrando artistas surdos, cegos e com baixa visão, em parceria com escolas e instituições da cidade.
Entre os vários eixos, destaca-se o trabalho com a comunidade surda, em colaboração com a escola de referência, a Escola Básica Poeta Manuel da Silva Gaio, criando um espaço de aprendizagem artística regular que junta surdos e ouvintes e reforça a acessibilidade cultural.
Festival Todos São Paulo e a Amazónia em foco
Em 2026 regressa o Festival Todos São Paulo, uma criação do Teatrão em regime bienal, que reúne uma vasta rede de coprodutores nacionais e internacionais. Esta edição estará alinhada com a temática da Amazónia, trazendo a Portugal espetáculos criados no Brasil e noutros países amazónicos, abordando questões ambientais, identitárias, políticas e artísticas.
Mais do que apresentar espetáculos, o festival propõe uma reflexão global sobre a Amazónia enquanto território essencial para o equilíbrio do planeta, cruzando realidades locais com dramaturgias contemporâneas.
Pensar a cidade a partir dos seus territórios
O Vale das Flores é o próximo território a ser mapeado pelo Teatrão num projeto de criação comunitária que dará origem, a partir de 2027, a um festival internacional de rua. Através de caminhadas, encontros e recolha de histórias, a comunidade é convidada a redescobrir os lugares onde vive, revelando memórias, desigualdades e potencialidades invisíveis no quotidiano.
Este trabalho culminará num festival que ocupará ruas, jardins, bairros, margens do rio e espaços inesperados, afirmando a rua como lugar democrático de encontro, descoberta e criação artística.
Um teatro feito de pessoas
Com uma equipa fixa de 12 pessoas e uma vasta rede de colaboradores, o Teatrão afirma-se como um projeto coletivo, movido pela dedicação, pela utopia e pela convicção de que a arte é essencial para pensar o mundo. Apesar das limitações financeiras, a estrutura alcançou uma estabilidade inédita, sustentada pelo compromisso humano e artístico da equipa.
Para Isabel Craveiro, o teatro continua a ser um lugar de perguntas, de pensamento crítico e de confronto de ideias. Um lugar onde é legítimo gostar, discordar, criticar porque, no fim, todo o trabalho é feito para as pessoas.
“Re UNIR para Re EXISTIR“, afinal, é também reunir para imaginar, cuidar e transformar. Pode consultar toda a programação aqui. Pode ouvir a conversa na íntegra no ‘podcast’ do início da crónica.
Nota: Crónica escrita com ferramentas de transcrição e de IA com revisão pela editora
Fotografia: Teatrão@José Caldeira
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