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Evocação do tempo – Semibreve dia 1 e 2
A exploração sonora e visual são duas constantes na programação do Semibreve, mas este ano o tempo embrulhou-nos de tal maneira que ficamos suspensos durante os quatro dias do festival. A equipa da RUC presente na edição começa agora a desvendar os concertos da edição de 2025 do festival.
Evocações e inícios marcantes – Semibreve dia 1
No mesmo local onde o público assistiu ao concerto de encerramento da edição passada, nasceu o concerto de estreia deste ano: na Basílica dos Congregados uma performance impactante marcou o início do Semibreve, na quinta-feira, 23 de outubro. Heinali e Andriana-Yaroslava apresentaram “Hildegard”, um projeto em homenagem a Hildegarda de Bingen, monja do século XII e uma das figuras mais influentes da sua época — destacando-se na teologia, medicina, cultura e música, e rompendo as barreiras impostas às mulheres do seu tempo. A performance reinterpretou duas composições de Hildegard, uma dedicada ao Espírito Santo e outra à Virgem Maria. Através de drones eletrónicos criados por sintetizadores, Heinali evocou uma sonoridade medieval e densa, que serviu de base para o canto litúrgico de Andriana-Yaroslava, cuja voz angelical e poderosa encheu a basílica de espiritualidade e emoção.
Um concerto poderosíssimo que deu início então à edição do Semibreve deste ano, e deixou os festivaleiros entusiasmados para o que ainda aí vinha.

Heinali e Andriana-Yaroslava
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Constelações sonoras e batidas eletrizantes – Semibreve dia 2
As portas do Theatro Circo abriram-se pela primeira vez na sexta-feira, 24 de outubro, para receber mais uma série de concertos do Semibreve. Coube ao português Rafael Toral iniciar a noite de concertos, no dia em que o seu mais recente álbum “Travelling Light” foi editado. Surgindo do lado direito do palco, em cima de um estrado, Toral fazia-se acompanhar da sua guitarra para tocar clássicos do jazz. Esta é a premissa do seu novo trabalho, 6 clássicos do jazz interpretados à sua maneira, de uma forma desconstruída, livre e figurada – como partilhou em entrevista à RUC, antes do Semibreve.
Inicialmente sozinho em palco, foram surgindo em temas específicos os músicos companheiros nesta viagem sonora. O clarinetista Bruno Parrinha foi o primeiro a surgir, seguido do saxofonista tenor Pedro Sousa – em substituição de Rodrigo Amado. O terceiro artista a pisar o palco foi o fliscornista Yaw Tembe, rematando as presenças com a flautista Clara Saleiro. Numa abordagem que não cai no repetitivo, a execução dos cinco músicos em palco foi exímia. Numa desaceleração natural das peças escolhidas, os artistas interagem com a noção do tempo e a sua passagem. Esta foi uma performance que transbordou para lá da componente sonora, fazendo-se acompanhar por visuals no ecrã gigante que iluminava o palco. Com gravações de zonas de aeroporto, havia mesmo uma luz que viajava sempre pelo ecrã, mas faltou que este feixe de luz viajasse até ao público e nos deixasse quase que cegos pela sua potência – não sei se com uma conexão mais forte entre som e imagem, ou não, mas saímos deste concerto com a sensação de que faltou atingir o patamar seguinte.

Rafael Toral
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Marta De Pascalis, a artista italiana, fez-se acompanhar do artista visual Marco Ciceri para criar a segunda performance desta noite. Surgindo à frente de uns panos pretos que ocupavam a altura e largura do palco, Marta apresentou a sua mais recente composição “Tell Me The Sun”. Acompanhada por sintetizadores analógicos e FM e uma máquina de tape-loops, a artista começou a talhar os corpos sonoros que se moviam pelo espaço do Theatro Circo, numa construção de loops que se iam expandindo e ajudavam à sensação de imersão.
Para acompanhar De Pascalis, Marco Ciceri criou o ambiente perfeito para nos sentirmos embrulhados na elaboração desta performance. Conhecido por desenvolver instalações audiovisuais imersivas, Ciceri não entregou menos do que isso na última sexta-feira. Nos panos pretos, surgiu um céu estrelado – constelações e pontos que deixavam passar a luz, fomos envoltos num misticismo que esperávamos chegar. Marco manipulava a luz de tal forma que percorria formas mais subtis e outras mais evidentes, variando entre tons mais frios e outros mais quentes. Um minimalismo em palco que nos soube agarrar e prender a atenção.

Marta De Pascalis e Marco Ciceri
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
O público mudou de salas e, com isto, de energias também. Ninguém estava à espera do que aí vinha: um contraste enorme de sonoridades preparava-se para inundar o Gnration. Na black box, uma bateria com um kit muito simples encontrava-se imponente no centro da sala, era uma extensão do corpo do artista NAH que iria abrir esta noite inigualável. Um artista cujo reportório musical deixou muitos fãs curiosos, baterista eletrónico que explora, desde 2011, várias praias musicais. No conceito do seu nome artístico, “NAH” não é apenas uma exploração musical que faz os corpos bailarem. Após o lançamento do seu mais recente álbum “TOTALLY RECALLED”, a performance ao vivo do artista estado-unidense mudou, entrando numa vertente mais de “rave”. NAH invocou todas as energias do seu corpo para criar batidas incansáveis e energizantes. Numa complexa e impressionante performance de bateria, recheou o público do Semibreve com surpresa e vontade de apenas abanar o corpo.

NAH
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
Ainda com o corpo em choque, o público reuniu energias para AYA, cuja performance se seguiu a NAH, ainda na blackbox do Gnration. Mal sabiam os espectadores que iriam realmente precisar de toda essa energia para assimilar um espetáculo inesquecível. AYA apresentou o seu mais recente álbum, “hexed!”, um trabalho onde a artista aborda o desespero e o caos causados pela dependência, explorando medos e traumas escondidos que antes eram camuflados por festas e excessos. Numa narrativa musical e performativa intensa, mergulhou a plateia num turbilhão de emoções através de um DJ set caótico e estridente, intercalando as suas músicas com momentos de loucura, piadas desconcertantes e até insultos dirigidos ao público. Entre a confusão e o impacto emocional, AYA conduziu todos por uma experiência visceral, marcada por sons intensos e profundamente sentimentais. Um concerto que terminou por ser um dos mais marcantes da edição deste ano, só pelo fator de intensidade.

AYA
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
O artista português Zancudo Berraco encerrou a primeira noite do Gnration com um live eletrizante, reunindo o público à sua volta numa verdadeira invocação à dança. Assim se deu por terminada uma sexta-feira repleta de concertos marcantes, que deixou no público uma vontade irresistível de continuar a viver o resto do festival.

Zancudo Berraco
©Adriano Ferreira Borges / Semibreve
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