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24.09.2025POR Diogo Barbosa

Inferno das Febras 2025 – O underground não morre

O Inferno das Febras voltou ao Parque de Lazer de Casais, em Lousada, nos dias 30 e 31 de agosto: o remate da época festivaleira para muitos de nós. Na primeira edição paga e com um alinhamento que evidencia a força do underground português e transfronteiriço, a organização provou-se a par do desafio.

Esta crónica foi escrita por Laura do Rosário.

À semelhança das edições anteriores, a chuva fez-se sentir, mas o Inferno não deixou de arder ferozmente. Num encontro de espírito comunitário que se impõe pelo contraste entre o ambiente familiar e o som que ecoa no recinto, é impossível não descontrair e, a bem dizer, curtir. Com um público bastante fiel e algumas melhorias no campismo e no próprio recinto, o Inferno tem espaço para crescer e se afirmar cada vez mais no underground. Um bom marco do fim do verão para grande parte dos festivaleiros, que com a chegada do tempo frio se vêem confinados às salas de espetáculo e privados do prazer de regalias como o campismo.

Dia 1

O arranque do arraial do rock foi da responsabilidade dos Jesus The Snake, banda de Vizela. Com riffs que transitam entre o embalar psicadélico e as descargas enérgicas do fuzz tipicamente stoner, foi a banda sonora ideal para quem se tinha acabado de instalar e procurava entrar no estado de espírito infernal.

O segundo espaço do alinhamento ficou a cargo dos jovens portuenses Yaatana, que contaram com um fiel grupo de fãs na linha da frente. Nada os intimidou: trouxeram toda a energia necessária para definir o tom para os dois dias de peso que se acercavam. Apesar de ser notória uma certa tendência entusiasmada nas camadas mais jovens do underground para as sonoridades do thrash, ver essa concretização no seu pleno poder foi refrescante. A RUC teve a oportunidade de conversar com eles a respeito deste tema (e, claro, alguns outros).

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-com-yatana-inferno-das-febras

Seguiu-se o concerto de Caos Ritual, projeto de stoner e sludge proveniente de Barcelos. Com um caos, para todos os efeitos, ritualístico, o Monge sorriu. Os vocais deliciosamente cavernosos e os riffs sujos são a carta de apresentação do seu último lançamento, Souls Corrupted. Vile Misdeeds (SCVM). No meio deste peso que cola ao chão, houve tempo para deixar uma mensagem importante: sempre do lado da resistência, nunca do opressor. Posição esta partilhada não só por todas as bandas do cartaz, mas também pelo próprio festival, que orgulhosamente hasteava 4 bandeiras palestinas no topo do palco.

Antes da Pausa P’ra Febra, o horário permitiu mais uma dose de potência sónica para os gulosos no Inferno. Numa sequência brilhante, sobem ao palco os Idle Hand, cumprindo o primeiro quarto da festa apenas com nomes nacionais. O stoner desta vez surge com um groove mais hipnótico e próximo do doom, de um arrasto francamente monolítico. Agora sim, às febras: imperativa reposição de energias após o que se ouviu.

De volta ao palco, estava o Inferno armado. Saído do catálogo da Heavy Psych Sounds, chega-nos o doom categoricamente onírico dos belgas Wyatt E. Esta potência sonora transpôs momentaneamente o público para uma camada infernal mais profunda, constituída por muros de amplificadores em convulsões minimalistas, mas opulentas. A intriga mística suscitada pelas vestimentas que cada elemento da banda envergava, que remetia para um intangível passado mesopotâmico, deixando o público num transe de encher as medidas. Foi também este o concerto que apresentou o cardápio da curadoria estrangeira do festival.

Após esta densidade espiritual, exigia-se uma densidade carnal, que nos foi entregue na forma do thrash dos veteranos portugueses Pitch Black. Dispensam qualquer apresentação, mas a particularidade deste projeto é a sua aposta sonora, que é feita no peso e não na velocidade. Tal não impediu uma entrada em palco de potência grandiosa, varrendo tudo o que tinham à frente. Num vendaval de palhetadas serradas, os portuenses permitiram a catarse que o pit precisava.

O punk britânico dos Heavy Lungs (que já trazem no currículo colaborações com grandes nomes do género, como Ditz e Idles) revelou-se altamente capaz de manter a energia em altas. Os dois guitarristas debitam uma energia admirável, com a bateria a empurrar tudo a uma velocidade estonteante, enquanto o baixo acrescenta um groove subtil à cavalgada ruidosa. Especial menção à teatralidade do vocalista, que nos seus movimentos emanou o impulso do movimento para todo o público. Comparando àquilo que se pode ouvir nas gravações de estúdio, a performance ao vivo surpreende: a esmagadora maioria do que se ouviu foi uma rajada old-school de punk barulhento, contando com apenas um pequeno cheiro a noise-rock, irresistível a todos no público. A banda cedeu um pouco do seu tempo ao microfone na RUC, contando-nos um pouco sobre a cena em Inglaterra e algumas considerações pré-atuação.

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-heavy-lungs-inferno-das-febras

Posto isto, chega-nos o terceiro nome internacional: os dinamarqueses Hexis, com uma interseção com notas atmosféricas entre o black metal e o puro hardcore. Como se o sorriso do Monge não pudesse ficar ainda mais largo, chegam-nos riffs violentos como um dilúvio negro e implacável. Um verdadeiro soco no estômago, como se o abismo tivesse encontrado a urgência do punk.

Para terminar em chave d’ouro a primeira leva de Inferno, e como não poderia deixar de ser, um nome poderoso português: os albicastrenses Crab Monsters terminam a noite de concertos. Sem rodeios, a fúria instala-se no primeiro acorde. Bateria em modo metralhadora e um turbilhão de guitarradas cuspidas em alta rotação, numa avalanche que tornou o Parque de Lazer de Casais num campo de batalha – por outras palavras, a receita do rock n’ roll. O indispensável fecho incendiário a vomitar raiva até ao desvanecer do último feedback, deixando o público à chuva (quem teve coragem de ir embora?) e com os ouvidos a zumbir.

É verdade, os últimos concertos contaram com chuva. Aparentemente, chove no inferno, mas não é por isso que ele deixa de exibir as suas labaredas de peso, e a prova disso foi a festa que se seguiu: com José Magalhães na cabine, o rock continuou noite fora (até mesmo com a mudança de palcos devido à chuva). Nem quem já estava no acampamento resistiu a cantar algumas.

Dia 2

O dia fez-se mais quente, deixando os festivaleiros esperançosos de que a chuva fosse coisa de ontem. O recinto abriu mais cedo, para aqueles que acordassem com uma ressaca que exigisse uma boa febra em vinha d’alho, mas não só. O sol tímido secou a relva e, de febra na mão, ecoou no recinto uma jam session de autoria do Sub/Solo Noisy Squad no palco Mesio, situado na zona de merendas do parque. Foi uma missa de distorção eletrónica, de uma qualidade hipnótica que embala tanto quanto arranha. Ideal para aqueles que procuravam um momento de descontração (ainda que atordoante) momentos antes do início dos concertos.

Os Verbian tiveram a honra de acordar quem ainda dormia. Mas, francamente, que bela maneira de acordar: o projeto do Porto construiu paisagens sonoras dignas dos sonhos mais progressivos, num envolver de melodias que flutuam no ar e se desmoronam em muralhas de distorção. Uma viagem progressiva entre a contemplação e o caos, para quem ainda recuperava de ontem e para quem já vinha com o apetite pronto para o último dia do Inferno. Tal como no dia anterior o Inferno inicia o seu dia com massagens psicadélicas ao cérebro dos pecadores que ainda abrem os olhos numa ressaca que começa a amainar. Verbian com novo disco e a estarem mais sólidos, a prova de que tocar faz bem às bandas.

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-com-verbian-inferno-das-febras

A ilusão de calma relativa introduzida pelos Verbian muito rapidamente se viu desfeita nas mãos da banda caldense Bad!, que ofereceu uma chapada de punk muito pouco delicada, sem filtros e sem verniz. Mais riffs sujos e bateria aos tropeções – e, como não poderia deixar de ser, sempre a rebentar. O público não ouve, é engolido: atira-se ao som, mergulha no pit e sente a pancada dos riffs (não será a pancada do pit?).

Ainda a surfar a agressiva onda punk, sobe ao palco o quarteto Ideal Victim, com uma proposta memorável, um conciliar brilhante de antíteses: dançar no meio do motim; uma viagem entre o caos do punk classicamente cru e uma agitação inebriante de guitarras que piscam o olho ao surf rock – isto acompanhado de uma voz feminina a transbordar indomabilidade. 

Antes do jantar, o clímax desta escalada anarquista dar-se-ia com o concerto de Fear The Lord, que assinam orgulhosamente como caos vindo da Margem Sul. A banda entrou afiada e com uma entrega que, inevitavelmente, empurrou o público para a frente. O pit, que ainda nem tinha tido tempo de arrefecer, vibrou com a descarga de hardcore, crua mas certeira. Foi daqueles momentos em que tudo se encaixa: banda, público e energia.

Feita a Pausa P’ra Febra, dá a partida para os concertos da noite uma das bandas mais proeminentes na cena rock portuguesa: os impreteríveis Black Bombaim. A banda, que já consagrou o nome internacionalmente, entregaram tudo o que o próprio nome exige e muito mais. Quando o trio de Barcelos subiu ao palco, a transformação foi imediata. A bateria e o baixo estabeleceram uma base rítmica sólida, enquanto os solos de guitarra criavam espirais sonoras que se entrelaçam e divergem ferozmente, numa fusão de space rock psicadélico com free jazz. Resultado: público num furacão sónico até ao seu centro, onde a calma não era silêncio, mas sim um nirvana de tensão controlada. Pura transcendência sonora.

Como que para nos relembrar que estamos no Inferno, chegam-nos de Inglaterra os The Chisel, retornando ao perfil abrasivo e urgente da curadoria infernal. Como que num rugido raçudo, a banda vai direta ao assunto: um set matador e à antiga. Associados à grande discográfica punk londrina La Vida En Mus, The Chisel trazem um som consolidado e divertido, forçosamente politicamente carregado. O grupo dispensou algum tempo à RUC para falar sobre a cena punk londrina e outros affairs.

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-com-the-chisel-inferno-das-febras

Logo após a investida britânica, o palco ficou entregue a uma das maiores atuações desta edição: os suíços Coilguns que, sem contemplações, transformaram a chuva num combustível – coisa que só acontece no Inferno. Entre gritos dilacerantes, momentos de dissonância calculada, a tensão manteve-se sempre no limite. O público, ainda a recuperar da intensidade do dia, deixou-se levar na turbulência emocional que a banda desferiu – uma descarga de sinceridade crua que alternava entre a violência e a catarse, encontrando a vulnerabilidade e a culpa no mesmo riff. Foi um concerto que será difícil de esquecer para quem assistiu por vários motivos além da atuação propriamente dita: a mensagem política cuidadosamente orquestrada (além do apelo anti-fascista e pró-Palestina, um tema prefaciado com uma voz robótica que se desculpava pelo dano das grandes farmacêuticas suíças), a precipitação cinemática e o vocalista que mergulhou no pit dentro de um contentor do lixo. A banda falou com a RUC sobre a cena hardcore na Suíça e sobre a diferença entre os palcos em caves e ocupas e um palco a céu aberto como o palco do Inferno.

https://www.ruc.pt/podcast/coberturas-ruc/entrevista-coilguns-inferno-das-febras

Não menos memorável foi a entrada em cena dos veteranos do death e thrash Cancer (com um ligeiro atraso, na expectativa que a chuvada desse tréguas) que, ao vivo, fazem questão de relembrar o porquê da sua longevidade no underground extremo. O peso arrasador foi acompanhado por uma aura de celebração coletiva: ver músicos com décadas de estrada a continuarem a cuspir fogo com a mesma vitalidade de outrora é de louvar e não há como não apreciar isso.

E então, já sob a chuva que regressava impiedosa, chegou o momento de Nagasaki Sunrise. O contraste entre o desconforto da humidade e a energia luminosa da banda fez-se sentir intensamente. Não houve guarda-chuva, capa ou lama que travasse a entrega do público, que respondeu em uníssono à vibração contagiante do “Charged Pacific Rim Crust Punk of War”. Foi um dos pontos altos do festival: a comunhão entre palco e plateia, sob um céu desfeito em água, cristalizou-se como memória coletiva de cabelos majestosos, cintos de balas e metralhadoras encarnadas em instrumentos que a cada acorde, cada melro! Um concerto em que cada gota parecia amplificar a chama nuclear que os Nagasaki Sunrise acenderam no Parque de Lazer.

Finalmente, para os corajosos que não se deixaram incomodar pelas condições meteorológicas, um DJ set para terminar as festividades do rock. Krunxx assume os controlos e a noite estica-se para aqueles que recusam deixar o verão e a família infernal para trás, pois, infelizmente, o fim era iminente.

O fruto profano saciou, o Monge viu o seu propósito concretizado com uma festa muito bonita. Para o ano, felizmente, há mais.

 

 

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