10/06/18

“As voltas do Passado” Apresenta-se como uma visão crítica da Guerra Colonial

“As Voltas do Passado – A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação”, livro organizado pelos investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), Miguel Cardina e Bruno Sena Martins, publicado pela editora Tinta da China, levou público interessado que encheu o auditório do Museu da Água, na última sexta-feira, dia 8 de junho.

A obra foi apresentada pelo coordenador da direção do CES e investigador da instituição, António Sousa Ribeiro e pela socióloga e professora no Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), Cristina Roldão.

A obra como “crítica pós-colonial”

António Sousa Ribeiro começou por destacar o momento da publicação da obra. “Já se escreveu muito sobre a guerra colonial e muito se escreve”, afirmou o investigador. Após um largo período de silêncio, depois de Abril de 1974, a partir dos anos 80 do século passado começaram a aparecer as primeiras abordagens à Guerra Colonial.

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O livro “As voltas do Passado” é constituído por 47 capítulos, com uma “configuração quase enciclopédica”, uma espécie de “pequeno dicionário” sobre momentos marcantes da Guerra Colonial, mas de que não podemos esperar “sínteses definitivas” de cada um dos aspetos que estão a ser tratados, pois os autores fizeram questão de deixar perguntas em aberto, declarou António Sousa Ribeiro. 

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A organização em “mosaico” de contribuições”, são 51 os contributos que vieram de cidadãos dos países que viveram a Guerra Colonial, permitem o rompimento de diversas mitologias. Segundo o investigador do CES a globalidade dos olhares e a pluralidade dos contributos põem em causa “a excecionalidade” da colonização portuguesa em relação a outras, mas também a mitologia das “narrativas impostas pelos vários nacionalismos triunfantes” nos novos países.

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O debate sobre a Guerra Colonial está no “espaço público”

Cristina Roldão afirmou que o livro surge num momento de “profunda disputa sobre a memória e sobre a história e identidade nacional portuguesa”, quer a nível académico mas também “no espaço público”. A socióloga considera que o livro se inscreve na tentativa de transformação do discurso sobre causas de combate ao racismo e a desigualdades étnico-raciais em curso na sociedade e na academia portuguesas.

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A professora do IPS recorda o debate que tem passado pelos jornais, de que fazem parte a controvérsia ocorrida o ano passado quando da inauguração da estátua ao Padre António Vieira , ou a polémica sobre o projeto do museu das Descobertas.  

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Para Cristina Roldão na profunda transformação da narrativa sobre os impérios coloniais todos criaram os seus mitos, torna-se cada vez “mais evidente” ser o  lusotropicalismo “o mito português”

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Lembra que a apresentação da obra “As voltas do Passado” acontece nas vésperas em que se assinalam os 23 anos do homicídio  de Alcindo Bernardo Monteiro, em Lisboa, por um grupo de ‘skinheads’ ligados à extrema-direita portuguesa. Portugal pertencia à União Europeia desde 1986 e sentia-se europeu mas o que acontecia no espaço público, segundo Cristina Roldão, tinha muito a ver com este passado.

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“Democratizar a memória”

Miguel Cardina explicou que a natureza da proposta “não pretende entrar no debate entre história e memória” mas sim perceber, a partir de datas marcantes, os legados, os processos de memorização pública que determinadas datas originam. No fundo, a importância de nos apercebermos do “peso do passado nos dias de hoje”.

O livro começa com o massacre de Batepá em 1953 em São Tomé e Príncipe e termina em 1975 com a independência de Angola. Junta autores e autoras que se interessaram pelos temas, num total de 51, acessível ao grande público mas que “não abdica do rigor académico”, explicitou o investigador do CES.

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Bruno Sena Martins  afirmou que a obra espelha duas dimensõeso silenciamento do tema da guerra e também o de vidas construídas no “rescaldo dessa mesma guerra”, de que não se ouviu  “falar o suficiente”. Lembra os herdeiros da guerra, toda uma geração que viveu os anos 80 e que ficou ficou marcada pelas “feridas racistas” deixadas por aquela guerra, se “uma pessoa era negra na sociedade portuguesa”. 

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O investigador do CES, revela que dos testemunhos em livro, ressalta que há pouca conversa entre os países que em campos opostos travaram a Guerra Colonial. Falta ouvir as memórias individuais dos que viveram a guerra e dos filhos da guerra e tentar perceber as escolhas, porque os Estados comemoram umas datas e não outras.

Na opinião de Bruno Sena Martins, a democratização do passado passa por conhecermos as vozes individuais da “solidão da memória”, de todos os lados. Dessa forma vai ser possível compreender como as relações de poder provocaram desigualdade e descriminação que carregam “muitas vezes” formas de sofrimento que se mantêm.   

Os autores pretendem apresentar o livro em vários países africanos para colocar em confronto Guerra Colonial versus Luta Colonial e continuar o debate “tranquilo” sobre as questões coloniais.

A iniciativa inseriu-se na comemoração dos 40 anos do CES e fez parte da Feira Cultural de Coimbra que terminou, ontem domingo,  no Parque Dr. Manuel Braga. 

Isabel Simões

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