1/02/20

UC debateu formas de opressão que persistem na sociedade atual

Durante os três dias de congresso especialistas de várias áreas abordaram tópicos como a violência de género, heranças da escravidão, abolicionismo penal, feminismos, tráfico de pessoas, racismo ou encarceramento e prisões.

A investigadora palestiniana, Shahd Wadi encerrou os trabalhos da conferência “Intersectional Conference 2020 – Encarceramento e Sociedade” que decorreu na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), de 29 a 31 de janeiro.

Nascida no Egito e tendo vivido a infância e parte da juventude na Jordânia, Shahd Wadi defendeu tese de doutoramento em Estudos Feministas na FLUC em 2014. Foi a primeira mulher a consegui-lo na Universidade de Coimbra (UC).

Na tarde de ontem, sexta-feira (31), Shahd Wadi explicou como nasceu “mulher e negra” e como se transformou numa “palestiniana”. ”A identidade negra palestiniana é um lugar de resistência”, afirmou antes de prosseguir com a defesa da “resistência contra o racismo e a militarização das nossas sociedades”.

A investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES), Diana Andringa falou com a RUC sobre algumas das aprendizagens percebidas ao longo das sessões paralelas e plenárias .

De acordo com Diana Andringa o congresso confirmou o que “a interseccionalidade pretende dizer” – “que há muitas lutas e todas elas são válidas”. A investigadora do CES adiantou que o pior erro que pode acontecer no futuro será “cada um fechar-se na sua luta e transformá-la apenas numa luta identitária”. “Todas estas lutas se misturam e o que é preciso é lutarmos contra as opressões”, disse.

Para a investigadora do CES, no decorrer dos trabalhos, ficou “visível algum receio” de que o mundo “não esteja a mudar para melhor”. Com o crescimento da extrema-direita ou com o exemplo vindo de políticos como Trump ou Bolsonaro, houve quem “perdesse a vergonha” de defender “ideias racistas”, lamentou. A investigadora chamou a atenção para a necessidade de continuar a refletir “em conjunto” sobre os temas.

A conferência teve como principais oradoras Ruth Wilson Gilmore, diretora do Centro Território, Cultura e Política e professora de Geografia Política da Universidade da Cidade de Nova York e a ministra da Justiça Francisca Van Dunem.

Francisca Van Dunem surpreendeu a assistência no primeiro dia com alguns números sobre a população prisional portuguesa que no que diz respeito à taxa de encarceramento é superior à maioria dos países europeus, referiu Diana Andringa à RUC.

O legislação de Proteção de Dados Pessoais, condiciona a questão “censitária” no nosso país. Diana Andringa confessa não ter uma posição “clara” sobre o levantamento da aferição de pertença de cada cidadão a um determinado grupo. No entanto, a investigadora entende que a impossibilidade, por vezes, “nos enfraquece na discussão sobre o sistema prisional” porque nos faltam alguns dados estatísticos sobre a caracterização da população presa.

Da comissão organizadora do seminário fizeram parte investigadores do Michelle Sales  e Sérgio Dias Branco do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX ad UC, Caterina Cucinotta e Érica Faleiro Rodrigues do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Lisboa e Júlia Garraio e Diana Andringa do Centro de Estudos Sociais da UC.

Isabel Simões

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