4/12/19

Novas formas de ouvir música condicionam a que se faz e divulga em Portugal

A proposta para a tarde de sábado passava por tentar conhecer “o estado da nova música portuguesa”. A conversa agendada para a última tarde de novembro foi organizada pelo estúdio Blue House . O encontro foi marcado para a Rádio Baixa às seis da tarde. A assistir, alguns elementos de bandas de Coimbra e de outros territórios. A moderação pertenceu a Tiago Castro da SBSR.FM.

O que se disse no encontro dos quatro produtores e ou divulgadores acabou por ficar marcado pela forma como as plataformas de divulgação musical podem condicionar o percurso das bandas e artistas e a formação de públicos.

Fausto da Silva do programa Santos da Casa da Rádio Universidade de Coimbra, começou por explicar o que o motiva a continuar a divulgar nova música portuguesa. “Continuo a achar que há muita qualidade no que se faz em Portugal”, disse.

“Quando há artistas que eu conheço a querer ir ao Festival da Canção, está tudo mal” – Victor Torpedo

O guitarrista dos The Parkinson, Victor Torpedo é músico e produtor, preocupa-se com a existência de “grandes bandas que ninguém conhece”. Referindo-se ao concerto do circuito Super Nova que iria realizar-se nessa noite no Salão Brazil, onde os “Lonzdale’s Fantasy” iam atuar, lamentou que quando os trouxe a Coimbra estivesse pouca gente a vê-los.

“As pessoas já não vão a concertos conhecer uma banda e ver um concerto, as pessoas vão porque é um evento” – Ricardo Jerónimo

Ricardo Jerónimo agente na Blue House começou por explicar como de há quinze anos a esta parte se criaram circuitos de divulgação à escala portuguesa. No entanto, em simultâneo, muita coisa mudou quanto a públicos no país, disse. Sente que o paradigma se alterou nos últimos anos e que as pessoas vão com os amigos a um “acontecimento”, já não vão para “conhecer uma banda e ver um concerto”. Deu como exemplo o concerto dessa noite em que três bandas estariam em concerto do circuito Super Nova. Caso cada uma delas viesse por si só, poderiam não ter a mesma quantidade de público.

“Sou de uma geração que gosta dos objetos” adiantou “Rui Ferreira da LUX Records, à pergunta do moderador – se o formato físico ainda fazia sentido. O gosto vem de sempre e não por agora ser moda, advertiu. O produtor lembrou a edição do disco em vinil “Fossanova” que produziu em 1999 dos Belle Chace Hotel, quando em Portugal já ninguém o fazia. A partir de 1994 já só os Moonspell editaram em vinil mas através de uma editora estrangeira.

Fausto da Silva, introduziu a problemática da Internet e das redes sociais e das plataformas de divulgação que permitem o acesso a todo o tipo de música em qualquer ponto do globo. O aumento da acessibilidade coloca problemas de escolha. “As pessoas comem tudo o que lhes dão sem sequer provar”.

Já Ricardo Jerónimo considerou que é preciso repensar a forma como se divulga o trabalho das bandas e que se tente perceber as motivações dos públicos. “Hoje em dia as motivações são outras e os tempos não vão voltar para traz”, disse.

De tudo o que se ouviu e de que apenas contamos uma pequeníssima parte, ressalta a necessidade de promover outros debates com protagonistas que comecem agora a chegar ao mundo da música, sejam eles produtores divulgadores ou músicos.

As novas gerações que já nasceram no mundo digital não estavam representadas nesta conversa. Com a devida vénia aos quatro convidados que já tanto fizeram pela Nova Música Portuguesa vai ser necessário ouvir outros protagonistas. O mundo da música hoje, já não é o que era, mas todas as gerações têm as suas clivagens em relação às anteriores.

Fotografias do concerto no Salão Brazil: gentileza de Fausto da Silva

Devemos acrescentar que o Salão Brazil encheu para assistir aos concertos de “Lonzdale’s Fantasy”, First Breath After Coma e Solar Corona. Não podemos confirmar se as motivações da assistência foram o preço de três euros ou a qualidade das bandas. A verdade do que vimos e ouvimos é que a assistência mais jovem se divertiu tanto como os “marretas” da velha guarda.

Isabel Simões

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