13/10/19

Ativistas reúnem na Praça 8 de Maio para apoiar o povo Curdo

AS palavras “Jin – Jiyan – Azadi” no chão em frente à igreja de Santa Cruz assinalaram a participação das mulheres curdas nas unidades de combate ao Estado Islâmico por parte do Curdistão. “Somos pessoas que há muito tempo estão a construir redes de solidariedade com o povo curdo” revela Gea, uma das ativistas, à repórter RUC. No chão da Praça 8 de Maio, algumas faixas e bandeiras assinalaram o apoio das várias plataformas envolvidas no apoio aos povos de Rojava, zona do nordeste da Síria que a Turquia invadiu na última quarta-feira, dia 9 de outubro, após a retirada de tropas amenricanas por ordem do presidente dos EUA, Donald Trump.

Vindos de várias plataformas os ativistas não se identificam com um coletivo específico. Une-os a partilha de alguns princípios políticos, explicou Gea.

O encerramento da 4ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres e da Caravana Feminista que partiu do Curdistão a 8 de Março de 2015 e percorreu toda a Europa terminou em Portugal. A caravana chegou a 14 de outubro do mesmo ano a Coimbra vinda do Porto.

Gea conta como a situação evoluiu desde então, sobretudo depois de o presidente turco ter tido a confirmação da Comissão Eleitoral da Turquia (YSK) de anular os resultados das eleições municipais em Istambul ganhas pelo maior partido da oposição (ver notícia do jornal Público).

Segundo a Agência Lusa o Presidente dos EUA, Donald Trump, justificou no início da semana a decisão norte-americana de retirar forças militares da Síria, dizendo que quer deixar aos protagonistas regionais a tarefa de “resolver a situação”.

O Governo dos Estados Unidos anunciou no domingo, dia 6, que não iria obstaculizar uma operação turca contra as milícias curdas, no norte da Síria, dizendo que retiraria o seu contingente militar de várias zonas deste país, para abrir espaço de manobra para o plano de Ancara.

O Presidente norte-americano reconheceu que as milícias curdas estiveram ao lado dos Estados Unidos na luta contra o Estado Islâmico, participando de uma coligação internacional para derrotar aquele movimento terrorista, mas disse que elas já foram suficientemente recompensadas por esse esforço.

“Os curdos lutaram ao nosso lado, mas foram pagos com massivas quantidades de dinheiro e equipamentos para o fazer”, explicou Trump, acrescentando que os EUA “combaterão onde for para seu benefício e combaterão apenas para ganhar”.

Ao início da tarde de quarta-feira, dia 9, através da rede social Twitter, Erdogan anunciou o início da ofensiva. “As Forças Armadas turcas e o Exército Livre da Síria (rebeldes sírios apoiados por Ancara) iniciaram a operação ‘Fonte de paz’ no norte da Síria”, declarou o presidente turco.

Enquanto o momento de 2015 era um momento de “esperança”, hoje, a situação mudou consideravelmente, declara a ativista.

Ontem sábado, a agência Lusa deu conta de que o número de civis mortos na ofensiva turca no nordeste da Síria, que teve início na quarta-feira, subiu para 21, balanço adiantado pela organização Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).

A organização, que conta com uma ampla rede de observadores no terreno, disse que há feridos, mas não precisou o número exato.

O OSDH indicou ainda que há 74 mortos entre as Forças Democráticas da Síria (FDS), uma aliança de milícias liderada pelos curdos, diante do avanço do exército turco.

Entre as forças turcas oito soldados morreram e entre as milícias da oposição síria aliadas de Ancara houve 49 mortos.

A Turquia anunciou também ontem que as suas forças capturaram a cidade de Ras al-Ain, no nordeste da Síria, após quatro dias de bombardeamentos e combates contra as milícias curdo-sírias na região.

As Forças Democráticas da Síria integram as Unidas de Proteção do Povo (YPG), milícia curdo-síria, e outras forças árabes que combateram o Estado Islâmico (EI) na Síria.

A Turquia declarou que o objetivo da ofensiva na Síria é combater e afastar da região as YPG – apoiada até agora por forças ocidentais, entre os quais os Estados Unidos da América, pelo combate ao EI – que os turcos consideram uma organização terrorista pelas suas ligações com uma insurgência curda na Turquia.

Gea chama a atenção para a força mundial que tem o Daesh e de como nos campos onde estão prisioneiros se encontra gente de vários pontos do mundo. Com a invasão turca alguns dos prisioneiros fugiram dos campos. A ativista considera que mais do que ameaçar a Europa a fuga vai provocar sofrimento nos povos da região.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) reuniu-se de urgência, na quinta-feira (10), para abordar a ofensiva turca no nordeste da Síria.

A reunião ocorreu em resposta a um pedido da França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Polónia, os cinco países da União Europeia (UE) na atualidade presentes no Conselho de Segurança, segundo as mesmas fontes, citadas pela agência Efe. O encontro foi inconclusivo e não houve concordância para emitir uma declaração após a reunião fechada sobre os ataques da Turquia no nordeste da Síria, segundo informação divulgada.

Entretanto, a embaixadora dos Estados Unidos da América (EUA) na ONU, Kelly Craft, advertiu esta quinta-feira a Turquia que “sofrerá consequências” se a sua ofensiva no nordeste da Síria não proteger as “populações vulneráveis” e se permitir um ressurgimento do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico (EI).

Um fracasso na hora de cumprir com as regras de proteger as populações vulneráveis ou garantir que o [grupo extremista] Estado Islâmico não possa explorar estas ações para se reorganizar terá consequências” disse aos jornalistas Kelly Craft, no final da reunião da ONU.

Na reunião co Conselho de Segurança da ONU, os cinco membros europeus que pediram a reunião desta quinta-feira (existem 15 países-membros) instaram a Turquia a uma declaração conjunta “para cessar a ação militar unilateral”. Consideram que o ataque ameaça o progresso contra o EI.

Os membros do Conselho advertiram que as “renovadas hostilidades armadas no nordeste minarão ainda mais a estabilidade de toda a região e vão agravar o sofrimento dos civis e provocar mais deslocações.”

O embaixador da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, cujo país é um importante aliado sírio, disse aos jornalistas que qualquer declaração do conselho sobre a Síria deve abordar questões mais amplas, incluindo a presença de forças estrangeiras no país.

Segundo Erdogan, a operação militar que arrancou na quarta-feira visa “os terroristas das YPG e do Daesh [acrónimo árabe do grupo extremista Estado Islâmico]” e pretende estabelecer uma “zona de segurança” no nordeste da Síria.

A ativista acusa o Estado Turco de ter uma estratégia de ocupação do território que não proteje as populações locais. Começa por lembrar a atuação do Estado Islâmico na região.

O presidente da Comissão Europeia em funções pediu, no mesmo dia da invasão, o fim da ofensiva lançada pela Turquia no norte da Síria, advertindo que nenhum financiamento europeu será concedido ao plano turco de criar “uma zona de segurança” no território sírio.

“A Turquia deve parar com a operação militar em curso. Não irá resultar. E se o plano da Turquia é a criação de uma zona de segurança, não espere pelo financiamento da União Europeia (UE)”, afirmou Jean-Claude Juncker, diante do Parlamento Europeu reunido em Bruxelas.

Juncker falava momentos depois de o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ter anunciado o início da operação militar no nordeste da Síria contra a milícia curda das Unidades de Proteção Popular (YPG), apoiada pelos países ocidentais, mas considerada terrorista por Ancara.

“A Turquia tem problemas de segurança na sua fronteira com a Síria, que devemos entender. No entanto, exorto a Turquia, bem como outros atores, a agirem com contenção. Uma incursão irá agravar o sofrimento dos civis, que já está além do que as palavras possam descrever”, reforçou Jean-Claude Juncker.

Gea considera a política europeia um contrassenso e clarifica as razões.

A Turquia acolhe atualmente cerca de 3,6 milhões de refugiados, a grande maioria oriundos da Síria.

A Turquia faz parte da NATO. O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, apelou, na quarta-feira dia 9, à Turquia, para “não desestabilizar ainda mais a região”, reconhecendo, porém, as “preocupações legítimas de segurança” de Ancara.

Numa conferência de imprensa em Roma, Jens Stoltenberg disse que a Turquia, membro da Aliança Atlântica desde 1952, “tem preocupações legítimas de segurança”, ao ter sofrido “ataques terroristas horríveis” e por ter recebido vários milhares de refugiados, grande parte oriundos da Síria.

Stoltenberg falava horas depois do início da operação militar no nordeste da Síria, anunciada previamente pelo Presidente turco.

Na capital italiana, o secretário-geral disse que a NATO foi informada sobre a operação em curso, frisando que “o importante é evitar ações que possam desestabilizar ainda mais a região, aumentar as tensões e causar mais sofrimento humano”.

Citado pelas agências internacionais, Jens Stoltenberg acrescentou que a Turquia deve agir com “contenção” e que qualquer ação deve ser “proporcional”.

O secretário-geral da NATO discutiu a ação militar com o líder turco na sexta-feira em Istambul.

Os chefes das diplomacias dos Estados-membros da Liga Árabe também já se pronunciaram, este sábado (12) no sentido de que sejam adotadas “medidas urgentes” contra o que chamam de “agressão turca” contra o nordeste da Síria, adiantou a Agência Lusa.

A primeira reunião do Comité Constitucional da Síria da ONU acontece em 30 de outubro, em Genebra, organizada pelas Nações Unidas, segundo a ONU News

Isabel Simões (com Agência Lusa) 

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