17/08/19

UMA ALDEIA CHAMADA CEM SOLDOS

Depois de um ano de ausência, o nervosismo para voltar à aldeia da música portuguesa, perto de Tomar, era muito. Durante o ano fomos sabendo das novidades. Iam-nos falando dos novos palcos, de uma pulseira que servia de porta moedas e dava para entrar também no festival, mas o que nos falavam com mais agrado era do espírito invulgar do Bons Sons, que não murcha, por mais voltas que o festival dê.

Quando aterramos em Cem Soldos, o coração batia acelerado. Tínhamos finalmente chegado. Vivíamos de novo aquele espírito que mistura raças, credos, idades, sexos, em torno da música portuguesa. Que baralha estilos, sem medo nem vergonha. Que deixa ouvir tudo o que há de bom para ouvir. Quer faça chuva ou sol. Por aqui encontramos palcos antigos com novos nomes, encontramos casas novas, e locais que voltaram a ter música, depois de um ano de pausa. A soma de tudo isto teve, como resultado final, mais shows por dia e concertos a começarem a horas mais tardias. No primeiro dia tudo parecia normal, mas ao quarto, o corpo é que paga. Mas que importa se a cabeça tem o juízo focado na música portuguesa.

O Bons Sons renova-se para continuar grande. Comemora 13 anos e 10 edições. Lança um livro, mostra fotos da Adriana Boiça Silva em janelas de casas, com artistas que engrandeceram o festival e convida artistas a juntarem-se em duplas. Estavam seis encontros, inesperados anunciados que tínhamos muita curiosidade em ver.

Mas a aldeia não é só isto. São as gentes locais que recebem os de fora de braços abertos, são os jogos do Hélder, as atividades para bebés, os passeios de burro, a danças, as conversas e os concertos surpresa. Enfim, é o amor….

Mas passemos ao prato forte, que é pela música que quase todos lá vamos. Ou talvez não….

Dia 1 – 8 de agosto

Tudo começou como normalmente às duas da tarde, no palco A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, que deixou a igreja, para se instalar num antigo lagar de azeite logo ao lado. O primeiro a subir ao palco foi Carlos Batista, que, munido de uma guitarra acústica, brindou os presentes com cantares tradicionais. Depois o palco Carlos Paredes, dentro da igreja, a receber um concerto por dia de música instrumental. Nessa tarde coube a vez à música acústica, e por vezes intimista, de Francisco Sales.

Logo de seguida o palco Giacometti, que este ano estava de cara lavada. Da Madeira chegaram os irmãos Mano a Mano, que com duas guitarras nos ofertaram um jazz simples e acolhedor. Aqui e ali um piscar de olho ao tradicional, quando pegaram em instrumentos da sua ilha natal. Já no lagar a vez aos Vénus Matina, um grupo simpático, que se passeia pelo jazz, mais retro, mas que necessita de perder a timidez. Têm belas ideias e pernas para andar. Logo a seguir à torreira do sol, a primeira grande confirmação do festival. De Coimbra, a dupla Raquel Ralha & Pedro Renato, mais o amigo Sérgio Costa nas teclas, ofertaram a todos uma mão cheia de belas versões. Tendo os três feito parte dos Belle Chase Hotel, acabaram em grande com “Living Room”.

Junto à igreja, no palco Amália, uma viagem ao Médio Oriente pelas mãos dos Senza. Foi um fim de tarde apaziguador. Muito rente ao corpo.

Descemos ao palco Zeca Afonso, para receber uma das maiores surpresas do festival. É raro ver uma orquestra filarmónica por estes palcos. Mas, como se disse já, o Bons Sons é um festival diferente que arrisca sem medo. E aqui a aposta foi ganha! A Orquestra Filarmónica Gafanhense prestou tributo à música portuguesa com temas de Zeca Afonso, Júlio Pereira, Zé Mário Branco e Fausto, entre outros. Foi enorme….

Fomos a correr até à eira, o agora palco António Variações, para ver a primeira dupla do festival. Benjamim e Joana Espadinha a misturarem-se da melhor maneira, a partilharem músicos e músicas. Dois artistas que se conhecem muito bem, que não tendo entrado em loucuras, deram um belo concerto, crivado de pop, que valeu sobretudo pela energia que saltou do palco.

No palco Lopes Graça a vez era dos Fogo Fogo, com os ritmos quentes de Cabo Verde, que não deixam o corpo sossegar. Um grupo de excelentes músicos, que apesar de terem dado um bom concerto, deixaram no ar a ideia de que a coisa poderia ter sido ainda bem melhor. Já do outro lado, os X-Wife, com o seu electro rock, abriam a pista de dança, num concerto que passou a correr, tal foi a fórmula usada que fez com que as músicas se colassem a nós. Estão em forma, estes rapazes do Porto!

A noite fechou debaixo de chuva, ao som dos Diabo na Cruz, já sem Jorge Cruz. Mas a prestação do grupo foi tão grande que todos se esqueceram desta partida pregada por São Pedro. Foi um concerto enérgico, que a meio recebeu a visita de Carlos Guerreiro dos Gaiteiros de Lisboa, e que nos faz questionar o porquê do fim do grupo. Já deixa saudades este rock popular.

Dia 2 – 9 de agosto

O segundo dia arrancou com o tradicional dos algarvios Cal. Usando muitos loops e sons pré gravados, a dupla imprimiu de forma brilhante uma invulgar modernidade a temas que, de outra forma, nos poderiam parecer já mais gastos.

Deixamos o lagar para entrar na igreja e escutar os órgãos de Dada Garbeck, que fazem soar algum minimalismo, misturado com alguma religiosidade, onde a voz nos traz cantos ancestrais.

Lá em baixo, no palco Giacommeti, o concerto mais rock de todo o festival. De Barcelos (só podia!) os Gator, The Alligator rebentam com tudo à sua volta. Rock, puro e duro, ao qual os músicos se entregaram até não terem mais pinga de suor para escorrer. Um show que fica muito para lá deste festival.

Voltando ao lagar de azeite, encontramos Adélia, uma dupla de meninas, que presta tributo às cantadeiras, na pessoa da transmontana Adélia. Foi deliciosa a sua prestação, que nos encheu a alma de carinho a provar que a tradição está bem viva. Voltando ao fundo do recinto, lá para baixo, ao chegarmos está Sallim em palco. A sua pop morna não conseguiu acordar os mais dorminhocos. Foi um concerto pouco esclarecedor, onde o baixista parecia apostado em atormentar a pobre da cantora. A morada de Afonso Cabral foi, essa tarde, o palco Amália. Na primeira vez em palco a mostrar as suas canções a solo, Afonso provou que é um belo compositor de lindas melodias pop, cantadas na língua de Camões. E, mesmo mais despidas, estas melodias provaram a sua magia, e mostraram um senhor, bem diferente daquilo que nos tem mostrado nos You Can’t Win, Charlie Brown.

O segundo encontro da festa coube a Lodo + Peixe no palco Zeca Afonso. Uma junção sem pontos muito fortes, que não imprimiu nada de muito novo ao pós rock de Lodo, nem às melodias de Peixe. Faltou mais sal.

Silêncio que se vai cantar o fado. Hélder Moutinho não deixou os créditos por mãos alheias, e com a sua forma muito própria de entoar as palavras, brindou todos com um dos mondemos maiores do festival. Foi tão lindo, que quase deu vontade de chorar.

Depois desta acalmia, subimos ao palco António Variações para sermos esmagados pelo rock de contornos electrónicos dos Paraguaii. A ideia que ficou, foi a de que as músicas do grupo, resultam melhor em disco. Faltou aqui qualquer coisa, para que este concerto nos tenha enchido as medidas. Devia ter sido mais bruto, digo eu.

Corremos a aldeia para chegar ao anfiteatro natural, do palco Zeca Afonso. Juntos em palco, First Breath After Coma e Noiserv. Foi tão grande este concerto, e nem os problemas com uma tarola o deitaram por terra. Uma verdadeira mistura, a denotar um trabalho de casa bem feito, com as músicas dos dois projetos a encaixarem na perfeição. É urgente voltar a repetir isto.

Cá em cima o blues e o jazz a misturarem-se, oferecidos por Budda Power Blues e Maria João. Um naipe de excelentes músicos a misturarem da melhor forma, originais e versões.

A fechar o dia, ou melhor a noite, o funána punk de Scúru Fitchádu, que tem energia a rodos para dar e vender. Mais uma vez um concerto sem espinhas, que quase nos partia a espinha. No fim o cansaço era tanto que só nos apetecia dizer: “bons sonos a todos”.

3º dia – 10 de agosto

A tarde do terceiro dia a trazer a Cem Soldos um pouco da cultura de Cabo Verde, pelas vozes e pés das Pequenas Espigas, que nos encantaram com os seus cantos e danças.

A seguir a igreja recebe Valente Maio, que nos trazem uma viola de arco e um violino, com muito de improvisação e alguma melodia, numa prestação das maiores, destes quatro dias. Estando no palco Carlos Paredes, fizeram uma sentida homenagem ao mestre da guitarra portuguesa.

No palco Giacometti, Jorge da Rocha e o seu contrabaixo, ladeado por uma moça em flauta e outra em violoncelo. Foi pena, a prestação não ter sido a outra hora e em outro palco. Assim as canções mais intimistas do Jorge perderam-se no meio do calor. Ficou a vontade de o ver outra vez, porque apesar de tudo esta foi uma prestação segura com bons momentos.

No lagar de novo o tradicional dos Rezas, Benzeduras e outras Histórias que pegam em ditos e rezas tradicionais e lhes vestem belas roupagens. Foi um momento sereno e invulgar, muito também por culpa de alguns instrumentos usados e de alguns sons pré gravados.

Voltamos de novo ao Giacometti para ouvir um digeridoo, um berimbau e muitas percussões manuseados pela mestria de Tiago Francisquinho. Foi uma viagem mais dançável por terras do médio oriente.

Saímos daqui rumo à eira para escutar o rock, de apenas baixo e bateria dos Baleia Baleia Baleia. Mais uma vez a prova de que não sabem dar maus concertos. Este é um rock que nos agarra não só pelo ritmo mas também pelas palavras.

Depois junto à igreja a dupla Miramar (Peixe + Frankie Chavez), num concerto super intimista em que a imagem se mistura da melhor maneira com o ritmo. Sons instrumentais, que passam pelo blues ou pela folk, a rasparem os poros da nossa pele. Que mágico que isto foi….

Sem tempo para respirar, que os Três Tristes Tigres já tocavam no palco Zeca Afonso. A curiosidade era muita para rever a banda de Ana Deus e Alexandre Soares. Sabemos que não são um grupo de massas, que gostam de desmontar tudo, e eles não facilitaram a coisa, ao deixarem de parte os seus maiores clássicos. Tocaram dois temas novos, o que pode indiciar que a banda tem futuro. Podemos dizer, que foi um concerto que agradou, mas do qual se esperava um pouco mais.

Na parte de cima o hip hop de Stereossauro, já mandava beats. Nem sempre um grande disco, faz um grande concerto. E aqui foi o caso… Num registo que vive de muitos convidados, eles aparecerem todos samplados, tornando a prestação muito monótona. O Bons Sons tinha merecido alguma visita amiga, e assim o concerto teria asas para voar.

Voltou a ameaça de chuva e a hipótese de os Pop dell’Arte poderem ter de arrumar os instrumentos, pois o palco onde tocavam era descapotável. Felizmente tudo não passou de uma ameaça. Mesmo assim, e apesar de alguns pingos, este foi um concerto morno, e sem a chama de outros tempos. Faltou engrenagem, muito por culpa de um João Peste que nos pareceu debilitado. Mesmo assim foi bonito escutar alguns dos grandes clássicos da banda

Quem gosta canta e aplaude, Os outros aproveitam para ir comer e descansar. Tiago Bettencourt, o nome mais inesperado deste festival, deu um concerto igual aos que sempre dá. E houve quem cantasse as músicas todas.

A fechar a noite a dupla do festival da qual ninguém se vai esquecer. JP Simões estragou a vida aos Glockenwise. E a coisa podia ter mesmo dado para o torto. No fim ninguém falava da banda de Barcelos e dos seus novos temas cantados em português. Apenas se comentavam as “peripécias” de JP em palco. Os Glockenwise não mereciam isto!

4º dia – 11 de agosto

O último dia começou com Vozes Tradicionais Femininas da Casa da Comarca da Sertã de Lisboa, a trazerem a palco os ensinamentos das velhas cantadeiras.

No Palco Carlos Paredes, Ricardo Leitão Pedro dedilhava um instrumento da família da Cora, debitando sons orientais, que por vezes se misturavam com cantos mais religiosos.

Ao sol, Galo Cant’Ás Duas, deixam em palco todo o seu suor, trazendo um som que tem muito de pós rock. Dois músicos de se tirar o chapéu, deram um concerto grande e um dos que mais nos agradou por estes dias.

A seguir, Telma, só ao piano, no lagar, com a sua música mais ligeira, no momento que mais se desenquadrou de todo este festival.

A maior enchente junto ao palco Giacometti coube a Pedro Mafama, que se apresentou em palco apenas munido de uma DJ. Quem gosta, gosta, canta aplaude e abraça o músico. Os outros são já capazes de achar, esta electrónica, e vozes sempre em eco, algo monótonas. Mas gostos não se discutem!

Seguimos, rumo ao Zeca Afonso, onde nos esperavam Joana Gama e Sopa de Pedra, que nos ofereceram o concerto de todo este festival. Notou-se um trabalho previamente feito, onde as artistas entraram literalmente dentro umas das outras. O lado mais erudito e contemporâneo da pianista Joana Gama, casou de forma brilhante com as vozes tradicionais das Sopa de Pedra. É urgente não deixar morrer este trabalho.

Junto à igreja dois tremendos músicos de jazz. Ricardo Toscano no sax e João Paulo Esteves da Silva no piano, fecham a tarde com um jazz que nos arrepia o corpo. Foi de mestre!

De volta lá abaixo para escutar Luísa Sobral. Duas cordas e três sopros tornam as canções da Luísa muito mais intimistas. Sempre muito alegre e conversadora, foi a artista que conseguiu uma maior empatia com o público, essencialmente as crianças. E que bem que soube ouvir as suas canções assim despidas.

Quando chegamos ao palco Lopes Graça eram as cores do tradicional que coloriam a noite trazidas pelo cavaquinho do mestre Júlio Pereira. Um concerto com momentos mais intimistas e outros a convidarem o pé a bater.

Tirando o homem da proa João Correia, todos os restantes músicos já tinham passado pelo festival deste ano. Equipa de luxo que dá assim um outro brilho ao pop mais folk dos Tape Junk. Por tudo isto, este foi um bonito momento, sem espinhas, o que se viveu lá em cima na eira.   Dino D’Santiago é enorme, Mesmo estando um pouco adoentado, deu um concerto gigante, que tocou cada um dos presentes. Ritmos de Cabo Verde a convidarem o corpo à dança mesmo que as forças já faltem. No fim veio para o meio do povo, agradecer o carinho.

A última dupla da festa levou a palco Sensible Soccers e o percussionista Tiago Sami Pereira. Poderia ter resultado bem melhor. A música dos Sensible Soccers tem espaço para outro tipo de abordagens. E o que pareceu aqui, é que o Tiago acabou por ser mais um membro do grupo e não teve espaço para mostrar a sua arte. Foi pena… podia ter sido lindo.

Os últimos dos últimos foram os Moullinex. Começaram no Palco Aguardela e no Lopes Graça, em simultâneo, em formato banda, durante uma hora que iniciou com alguns clássicos dos anos 80 e passou também por tradicionais portugueses em ritmos mais funk. No palco alguns convidados de peso como Ghetthoven ou Dino D’Santiago. Depois Moullinex em formato DJ. Não podia ter acabado da melhor maneira a festa da música portuguesa.

Por fim…

Agora resta contar os dias para que chegue a hora de voltar a viver de novo a aldeia. O Bons Sons é um festival que se entranha em nós. A pulseira ainda mora no nosso pulso. Obrigado por tudo Cem Soldos…

Texto & Fotos de Nuno Ávila

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