11/06/19

RUC @ NOS Primavera Sound – Dia 3

DAY 3 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

A vida são dois dias e o NOS Primavera Sound são três. Não é assim? Talvez estejamos a confundir festivais. Era este terceiro dia, no entanto, que chamava mais atenções no grande esquema do cartaz para a edição 2019. E vamos já dar uso ao spoiler: correspondeu. Foi também, ao terceiro dia, que nos vimos livres do fantasma dos cancelamentos, ainda que Erykah Badu tenha assustado. Fica ainda a confirmação da melhor sandes de pernil com queijo da serra do recinto. Mas vamos ao que interessa – os concertos:

Viagra Boys

Os Viagra Boys vêm de Estocolmo sem necessidade nenhuma do fármaco que lhes dá o nome para deixarem o espaço para a sua audiência no Palco Seat completamente cheio de pessoas, mesmo com o sol quente da tarde de sábado a raiar diretamente sobre as cabeças de quem os via. Com “Street Worms”, o seu primeiro disco, lançado há pouco mais de 2 meses, Sebastian Murphy é rápido a despir a t-shirt e a rastejar no chão, a grunhir enquanto canta um post-punk agressivo e frio. Acompanhado de um baixo avassalador, uma guitarra a pedir-nos um headbang constante, um saxofone a juntar-se à parede de som e uma bateria que quase rebenta tímpanos, Murphy não tem medo de ser quem é, de ter aquela barriga de cerveja, de constatar as ironias chatas da vida, da opressão que sentimos, de gozar com a masculinidade tóxica, de ser uma rockstar autêntica com uma garrafa de vinho branco quase vazia a meio do concerto. E ainda diz que a mãe dele vai ficar muito orgulhosa quando souber de quantas pessoas estiveram no NOS Primavera Sound à frente dele. Bom para ti, Sebastian – e diz também à tua mãe que foi um prazer ter-te cá.

VIAGRA BOYS _ DAY 3 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Jorge Ben Jor

Eram 19h50 quando o septuagenário Jorge Ben Jor entrou no Palco NOS com a sua banda. Sublinhe-se septuagenário (74 anos, para sermos claros), porque a energia do brasileiro não tem precedentes. Num concerto perfeito para acompanhar o fim da tarde, viveu-se uma celebração da MPB no parque da cidade. Num registo de constante medley, com arranjos únicos e poucas pausas (as que existiram serviram para agradecer a colaboração do público), passou-se por temas tão identitários como “Mas que nada” ou “País Tropical”. Se o dia já vinha animado, Jorge não fez por menos. Depois de Ben Jor, “A Minha Menina” é a Tropicália.

JORGE BEN JOR _ DAY 3 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Snail Mail

Ninguém – nunca – vai poder dizer que o indie rock morreu. Desde que hajam adolescentes, o indie rock vai existir. A prova disso é Lindsey Jordan, a guitarrista dos Snail Mail, um projeto de Maryland começado por ela que gravou o ano passado o seu primeiro longa-duração: Lush, lançado com a Matador Records. Na clareira do Palco Pull&Bear, pouco depois das 20h30, reunia-se um público talvez mais pequeno que esperado, mas que só tornou o embalo do pôr-do-sol uma experiência mais intimista – Jordan afirma que a banda está “very far away from where we live”, mas não deixa que os nervos a afetem e a voz da norte-americana ouve-se com encanto e prazer. Pristine, um dos singles para Lush, é ecoado pelo público que lá estava, e fecha um belo concerto do indie que promete continuar a ser muito relevante para muita gente.

Rosalía

ROSALÍA _ DAY 3 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Um dos momentos mais esperados deste NOS Primavera Sound era a estreia da catalã Rosalía em território luso. Justificadamente. El Mal Querer, projecto editado em 2018, promoveu uma ascensão meteórica da cantora que se faz acompanhar por nomes tão diversos quanto J Balvin (presente no dia anterior) ou do nosso bem conhecido El Guincho (passou pelo Palco RUC em 2009). A artista vem quebrando a barreira entre o nicho e o mainstream, provocando uma fusão que raramente se vislumbra. Em palco foi tudo o que se podia querer. Sem dúvida um dos concertos do festival, Rosalía abriu “Con Altura” e desde aí que teve o público nas mãos. As coreografias preparadas ajudaram a encher o Palco NOS mas a voz da artista não precisa de muita ajuda. Durante vários minutos, quase solenes, Rosalía encantou a capella com flamenco. A artista deixou muitos agradecimentos no Porto mas, sinceramente, nós é que temos que agradecer. Que regresse em breve.

Low

Houve momentos no último dia em que as escolhas não eram fáceis. Passámos por isso e, certamente, não estávamos sós. Pelas 23h20 uma das hipóteses eram os norte-americanos Low. Para quem, como nós, estava exausto depois da performance de Rosalía, a encosta do Palco Super Bock era amiga. Meio sentados, meio deitados, o rock pausado do grupo de Alan Sparhawk, Mimi Parker e Steve Garrington baixou-nos o ritmo cardíaco e deixou todos numa espécie de transe a cada acorde. Apesar da já longa carreira, engana-se quem pensar que foi um concerto de êxitos. Aproveitamos para avisar os mais distraídos que Double Negative (Sub Pop, 2018), foi um dos álbuns do ano passado.

Erykah Badu

Este parágrafo vai parecer um pouco uma dedicatória de amor, ou uma prosa romântica, mas acho que nunca teremos palavras para descrever o quão gigante Erykah Badu é e será. Começamos o concerto com meia hora de atraso que, depois de tantos cancelamentos, deixou os festivaleiros do Primavera com algum receio, mas sem notícias até à primeira hora da madrugada. No entanto, batem os sinos da uma da manhã e a nossa espera é recompensada por uma Badu em palco a celebrar 22 anos de Baduizm – o seu primeiro filho musical, exatamente com a mesma idade do seu primeiro filho biológico, da sua relação com André Benjamin. Erykah lembra-se tão bem dos Outkast (“Do you know Outkast? They’re my favorite group!”, pergunta-nos) que nos presenteia com uma cover absolutamente incrível de Liberation, original do grupo de Atlanta, e o espetáculo não fica só pela setlist – a voz da texana mantém-se tão forte, poderosa, ribombante e flexível como sempre foi e a rainha da neo soul sabe bem que o é, dando-nos mais de uma hora e 20 minutos de deslumbre, com direito a coreografias, a um outfit com as óbvias ligações à natureza que esperamos de Badu, e um fecho para o palco principal do NOS Primavera Sound absolutamente incrível. Se foi mesmo a sua primeira vinda a Portugal, que seja a primeira de muitas. Memorável, como tantas rainhas o são.

MYKKI BLANCO _ DAY 3 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

São 6 da manhã, obrigamo-nos a arrastar o que resta das nossas pernas para fora do recinto e em direcção à cama. Assim fecha mais um NOS Primavera Sound. Uma edição com algumas apostas de risco, em que uma depressão atmosférica chegou a ameaçar o início do festival, mas que, chegada ao fim, faz lembrar tantas outras. Foram muitos os concertos de qualidade, voltou a dar para conhecer novos valores da música e lembrar quem tanto já nos deu. Para nós, que aqui estivemos durante estes 3 dias, foi uma edição de sucesso. E agora vistam-se os calções e arranque-se país fora: está aberta a época.

João André Oliveira escreveu sobre Jorge Ben Jor, Low e Rosalía.
Leonardo Pereira escreveu sobre Viagra Boys, Snail Mail e Erykah Badu.

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