8/06/19

RUC @ NOS Primavera Sound 2019 – Dia 2

Tal como uma fénix das cinzas: assim renasceu, ao segundo dia, o NOS Primavera Sound. O sol voltou e o público veio atrás, com uma adesão bem superior à do primeiro dia. Infelizmente o fantasma dos cancelamentos não desapareceu e o produtor britânico Mura Masa foi a vítima do dia. Ainda assim houve muito para ver e há muito para dizer.

DAY 2 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Nubya Garcia

Dificilmente se poderia pedir melhor cenário para a actuação de Nubya. O palco Pull&Bear, escondido entre as árvores numa pequena colina, recebia os raios do sol que já ia em trajectória descendente mas longe de se pôr. Eram 19h00 quando o saxofone da londrina se começou a escutar e se deu o matrimónio perfeito com o público. O jazz com laivos de soul trazido por Nubya não teve rivais no final de tarde e deixou os presentes com a leveza de espírito perfeita para encarar o resto do dia.

NUBYA GARCIA _ DAY 2 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Sons of Kemet

Pouco depois das 20 horas, os Sons of Kemet (em formato XL) preenchem o Palco Pull&Bear com 4 baterias, uma tuba e um saxofone. Às 20h20, a festa começa na clareira do palco mais isolado do NOS Primavera Sound e, até ao seu final, a banda do Reino Unido liderada por Shabaka Hutchings recusa dar qualquer chance ao público para parar de se mexer. Com lembranças da energia de Death Grips naquele mesmo palco há 2 anos, os ingleses não tem medo de mostrar a incrível coesão entre os membros e a mestria dos instrumentos (inclusive Moses Boyd numa das baterias) e mesmo com os poucos vocais que nos ordenam “I wanna take my country forwards” (gritados por Joshua Idehen), a presença em palco é absolutamente indiscutível. A resposta do público é óbvia e o (infeliz) cancelamento de Mura Masa puxa para que a clareira em frente ao Palco Pull&Bear esteja quase cheia e em movimento, com uivos e ovações constantes a pedir mais – entre o palco e o público, a energia retribuía-se equivalentemente. Se puderem, vejam os Sons of Kemet ao vivo. Ficámos todos com vontade de levar o nosso país p’rá frente.

SONS OF KEMET XL _ DAY 2 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Branko

João Branco já é conhecido do público português e notou-se. Com a tarefa quase hercúlea de substituir Kali Uchis, o amadorense vinha obviamente com vontade de manter a fasquia alta e faz por isso. Vem apresentar Nosso, o último longa duração do fundador da Enchufada lançado este ano, mas não se fica pelas colaborações ou por uma simples passagem pela música – o Palco Super Bock torna-se numa dancefloor e a audiência não recusa a metamorfose do Parque da Cidade numa pista. Quando começa Sempre, a colaboração com Mallu Magalhães, nem era preciso o sistema de som – o refrão é cantado letra a letra por todos, e isto acontece várias vezes – com Over There, com Tudo Certo, com Reserva Pra Dois, nem parecia que os comentários nas redes sociais quando Branko foi confirmado existiram. Um pequeno destaque pessoal para os vários remixes de PEDRO que se ouviram, especialmente o de Sentah, original de Mina, DJ londrina que acabou de lançar o seu primeiro disco. A Enchufada está para ficar na zona, e muito bem liderada. O espírito dos Buraka continua em toda a gente.

J Balvin

O nome mais controverso do cartaz da edição 2019 do NOS Primavera Sound teve, na pior das hipóteses, efeito na curiosidade do público, tendo reunido uma enchente no Palco NOS até então não verificada. As conclusões poderão seguir duas teses. Por um lado, e apesar de serem muitos os presentes, o colombiano não conseguiu prender as atenções durante boa parte do concerto, percebendo-se que parte do reportório é ainda desconhecido deste lado do Atlântico (ou pelo menos em Portugal). Por outro, é inegável que o colorido espectáculo arrastou milhares de pessoas e, nos momentos em que se recorreu dos êxitos que o tornaram um ícone global, conseguiu arrancar vários coros do público. Uma pequena passagem por vários êxitos latinos em que teve participação levou a um final de apoteose com Mi Gente, o tema maior do reggaeton moderno. No fim, as conclusões são mistas. Talvez houvesse razão e J Balvin fosse uma melhor aposta para outros festivais e outros públicos.

J BALVIN _ DAY 2 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

James Blake

Era 01h00 quando se começou a escutar Assume Form, o tema de título do mais recente trabalho de James Blake. Mal tomou conta de palco, um silêncio sepulcral invadiu a larga enchente que o esperava. Blake abdicou dos painéis de LEDs e baseou-se num forte espectáculo de luzes para apresentar o longa-duração editado em Janeiro pela Polydor Records. De pano vermelho ao fundo de palco iniciou uma viagem introspectiva diametralmente oposta ao antecessor de palco principal. Pouco interventivo (nem mais era necessário), deixou leves agradecimentos ao público e resguardou a maior intervenção para o final. Apesar de basear o espectáculo no mais recente título, prendou os maiores conhecedores do seu trabalho com grandes temas como Limit to Your Love, Retrograde ou CMYK. Quase a fechar, um intenso auge pleno de graves com Voyeur deixou palco para a interacção mais longa de Blake. O artista anunciou o último tema (Don’t Miss It) e deixou uma palavra sobre saúde mental e a necessidade de comunicar os sentimentos. Uma mensagem honesta e um tema que conta a história do próprio James Blake. Emotivo, a fechar, como só o londrino sabe ser, foi o fim perfeito para um concerto que não tinha como falhar.

JAMES BLAKE _ DAY 2 @ NOS PRIMAVERA SOUND 2019 _ © Hugo Lima | hugolima.com | www.fb.me/hugolimaphotography | instagram.com/hugolimaphoto

Sophie

É entre os vocais e as texturas suaves, lentas e melódicas e um completo ataque aos sentidos o sítio de SOPHIE no mundo da música. Com uma setlist baseada muito em OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES, os banhos de graves eram misturados com texturas mais ambientais, os strobes eram trocados por luzes sólidas, a escocesa introduz-se ao público do Porto como uma excelente DJ e uma incrível produtora, montando e desmontando Faceshopping, HARD e Is it Cold in the Water como se não fosse nada, cosendo linhas de eletrónica e techno com o experimentalismo da PC Music e uma voz feminina quase angelical, retirando só o que precisa de cada faixa para conseguir distorcê-la ao ponto de se tornar numa experiência completamente nova. Com direito a uma convidada especial no final do concerto, SOPHIE é o novo normal no Primavera, e esperemos que se mantenha.

O dia 2 foi, apesar de tudo, uma celebração do sol. Dançou-se, cantou-se, gritou-se e pediu-se por mais de muito. Aparentemente, os festivaleiros no Porto lidam com as tristezas a darem tudo, e este 7 de junho foi a prova perfeita que o Primavera continua a ser o festival de eleição para descobrir, redescobrir e adorar música. Amanhã voltamos com mais, para vos reportarmos o final de mais um NOS Primavera Sound.

João André Oliveira escreveu sobre Nubya Garcia, J Balvin e James Blake.
Leonardo Pereira escreveu sobre Sons of Kemet, Branko e SOPHIE.

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Thu, 27 Jun 2019 12:43:01 +0000