21/05/19

Greve leva mais um contra a “elitização do ensino superior”

[atualização: 23 de maio, 03:20]

A Rádio Universidade de Coimbra (RUC) esteve à porta da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) durante a hora de almoço da última sexta-feira, dia 17. Junto à secretária que serve de ponto de encontro grevista, entrevistámos um terceiro estudante da universidade que aderiu às causas do manifesto “a Educação não é só para meninos”. Por um sistema de educação que não perpetue as desigualdades, o escolar de licenciatura natural do Brasil, reivindica a diversificação do perfil de aluno que frequenta o ensino superior.

O estudante contou à RUC que já não frequenta as aulas há algum tempo este semestre e tem outros “amigos e companheiros que não vão”. Os caminhos revelaram-se diferentes entre eles mas, afirmou o jovem, a muitos motivou uma descrença no ensino superior.


O estudante transitou de simplesmente faltar às aulas para passar a integrar a declarada greve ao sistema de ensino. A descoberta de um foco de ideias semelhantes às que afirma transportar, teve um influência direta na atitude que estava a tomar perante as responsabilidades da frequência universitária. Aconteceu quando foi à Faculdade de Letras na terça-feira da semana passada, levava o protesto 50 dias, e encontrou o pequeno grupo de grevistas e apoiantes, que ali se cruzam a várias horas do dia.

Na duração do protesto disse que percebeu uma atitude que não via há muito tempo. No manifesto “a Educação não é só para meninos” afirma que encontrou, em palavras, aquilo que foi até agora a experiência na universidade.


A “falta de democracia” e a “elitização enorme do sistema de ensino” são dois temas que referiu terem sido importantes para a sua mobilização. A elitização do corpo estudantil, resultado direto da política de propina, acredita que até é mais fácil de ver no caso dos estudantes estrangeiros.


O jovem afirma ainda que existem pontos de contacto entre a situação portuguesa e a que se vive no ensino superior brasileiro – de onde chegam notícias de grandes protestos depois do governo de Jair Bolsonaro ter anunciado cortes no financiamento das universidades públicas. O ensino público português está num estágio menos avançado de degradação que o do Brasil, acredita. O país vive “uma situação mais delicada e preocupante” desde que “o neoliberalismo entrou em força no Brasil”.

Mas mais do que comparar, o jovem acreditam que é possível fazer relações de causa efeito entre o seu país de origem e o país de acolhimento. Na opinião do protestante há uma uma história de séculos para a qual se pode olhar quando se refere o perfil do estudante que vem para Portugal.


O estudante afirma ainda que a diminuição das bolsas e acordos estatais são uma conduta propícia à redução da diversidade. Para promover a diversidade “não basta somente trazer gente de outros países, é preciso trazer gente das mais amplas classes, opiniões e origens”.


Estamos perto do fim das atividades letivas: passou o período dormente da Queima das Fitas, os exames estão aí ao virar da esquina, e as férias escolares entram a seguir. A possibilidade de que o protesto que agora fazem se esfumar em nada é algo que parece não os assustar. É apenas mais um problema para ultrapassar.


DG/AAC já conversou com os grevistas


No fim da tarde do mesmo dia 17 de maio, o presidente e o vice-presidente da Direção Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC), Daniel Azenha e João Assunção, estiveram com dois dos estudantes em greve à porta Faculdade de Letras. Daniel Azenha tinha afirmado anteriormente que pretendia contactar com o estudante que iniciou o protesto solitariamente. Assim o fez, ao passar de 54 dias.


André Jerónimo

7
18
39
0
GMT
GMT
+0000
2019-09-22T18:39:33+00:00
Sun, 22 Sep 2019 18:39:33 +0000