9/05/19

António Sousa Ribeiro: “O dever de memória não caduca com o tempo, pelo contrário”

O Carro dos Novos Fitados do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) desfilou no cortejo da Queima das Fitas, no passado domingo, sem o nome inicial “Alcoholocausto” e com a frente desprovida da alegoria de um comboio, como inicialmente esteve previsto.

Um cravo vermelho com um ponto de interrogação, um lápis azul e um quadro com a frase “Não podemos fazer aquilo que queremos, porque vivemos num país livre!”, pressupunha uma sátira pelo facto de terem sido instigados pelo Dux Veteranorum a retirar a alegoria e o nome escolhido.

Na terça-feira dia 7 de maio, um grupo de mais de setenta professores da FLUC, enviou às redações um comunicado que intitulou “MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE”.

No texto os docentes consideram que “apesar da não afixação no carro do nome inicialmente escolhido” o caso ” não pode passar sob silêncio e, muito menos, pode ser encarado como um simples episódio sem relevância”. Esclarecem ainda:

  • Que “Holocausto” é uma palavra que remete, sem subterfúgios, para o maior crime contra a humanidade alguma vez cometido”.

  • “Contrariamente ao que alegam os/as organizadores/as do carro, há limites para a liberdade de expressão, assim, como há limites para o uso da sátira e do humor”.

  • E que “A situação criada é ainda agravada pelo facto de, presentemente, circularem com insistência em todo o mundo teses negacionistas, rejeitando a própria existência histórica do Holocausto.”

A RUC falou com António Sousa Ribeiro, um dos signatários do comunicado. O docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra esteve nos nossos estúdios a gravar uma entrevista para o programa Perfil, na quarta-feira, dia 8 de maio.

O docente considerou que a escolha do nome “foi chocante” e provocou uma reação “de um conjunto amplo de docentes da FLUC” que entenderam que não podia “passar sob silêncio”.


António Sousa Ribeiro lembrou que “as palavras têm o seu peso específico”. Embora a palavra “Holocausto” tenha surgido antes da Segunda Grande Guerra, a partir dos anos setenta do século passado “está indelevelmente associada ao genocídio” de milhões de pessoas provocado pelo regime nazi. O Holocausto “constituiu o mais gigantesco crime contra a humanidade do século vinte”, disse.


“O significado paradigmático de Auschwitz não pode ser ignorado, nem pode ser apagado, por mais anos que passem” reitera o docente da FLUC. “O dever de memória não caduca com o tempo, pelo contrário”, acrescenta. Entende mesmo que “há responsabilidade das gerações posteriores” que “tem de passar pela consciência da linguagem que utilizam”.


Para António Sousa Ribeiro, “não se pode argumentar que a liberdade de expressão tudo consente”.


A “liberdade de expressão termina no momento em que é ofensiva da dignidade de outrem”, afirma o docente da FLUC.


A persistência na escolha do nome “Alcoholocausto” por parte dos fitados de História e a forma como esgrimiram argumentos, levaram António Sousa Ribeiro a considerar o que aconteceu como “um episódio triste da vida da Faculdade de Letras”.

Pode ler o comunicado “MEMÓRIA E RESPONSABILIDADE” na íntegra aqui.

Isabel Simões

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