13/04/19

Tipografia Damasceno celebra meio século com lançamento de livro

Rui Damasceno

O número 45 da Rua de Montarroio foi pequeno para receber os muitos que quiseram saudar a casa fundada por João Damasceno e Odete da Paixão Silva, “talvez a primeira tipógrafa do país”, como assinala José Luís Madeira, na página 31 do livro “Tipografia Damasceno: 50 anos”, lançado ontem, dia 11, na dita, pela Editora dos Tipos.

Com conceção e design gráfico de Joana Monteiro, entrevistas e revisão de Carina Correia a obra contou com o apoio da 21ª Semana Cultural da Universidade de Coimbra – Caminhos.

Se as imagens fazem parte da história dos trabalhos da tipografia, os textos pertencem a pessoas para quem o espaço foi local de “passagem intensa para o reino do encantamento” como escreve João Maria André ou de peregrinação, “pelas coisas todas que lá fomos imprimindo” como destaca José António Bandeirinha. Carina Correia conta à RUC que desde início houve vontade de criar um objeto livro com texto e imagens.

Joana Monteiro realça o acesso a “determinado tipo de materiais”, alguns que o livro contém, e que a designer “nunca tinha visto”. O encontro com esses elementos, demonstram “a afinidade” da Damasceno com as instituições culturais de Coimbra, ou não fosse o fundador João Damasceno e também o filho Rui Damasceno ligados ao teatro, revela.

João Damasceno pai, membro do Partido Comunista Português e ativista foi preso pela polícia política do Estado Novo. O que não o impediu de ser na tipografia “um profissional também e às vezes acima de tudo”, afirma Carina Correia.

Antes do 25 de Abril havia uma série de sítios em Coimbra onde as pessoas construíam as mensagens políticas. Na Tipografia Damasceno alguns desses textos desapareceram para que a polícia política que rondava a tipografia não os apanhasse. Na próxima semana Joana Monteiro e a ilustradora Ana Biscaia contam convidar algumas pessoas e voltar a construir lá mensagens para celebrar os 45 anos da revolução dos cravos.

Os tipógrafos sempre foram “pessoas avançadas em termos não só culturais como políticos. Carina Correia conta no livro a história da condenação de oito tipógrafos em Chicago nos Estados Unidos que foram presos em 1886 na sequência da manifestação de trabalhadores pelas oito horas de trabalho, que confirma a atenção destes profissionais ao que os rodeava.

Com as novas tecnologias nunca se desenharam tantas “letras como agora” esclareceu o docente no Departamento de Engenharia Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, João Bicker, que apresentou o livro. Apesar disso corre-se o risco de tipografias como a Damasceno desaparecerem, lamentou.

Para João Bicker, a importância da tecnologia não exclui os tipos e o manuseamento dos artefactos que permitem a construção de um texto. Por isso, enfatizou a importância das visitas dos alunos de design à Damasceno para “perceberem que as letras não são software”.

Casas como a Tipografia Damasceno merecem já a atenção das Universidades. Helder Alvelos, do projeto Anti-Amnésia do Centro para os Media Inesperados do Instituto de Investigação em Design Média falou com a RUC sobre a importância de “reenquadrar atividades ancestrais na contemporaneidade”.

A terminar o encontro não faltou um lanche na casa do Álvaro em Montarroio. Na ementa não faltou o bacalhau desfiado acompanhado por cebola e regado com vinho amigo. No final cantou-se a preceito os parabéns com a letra do costume e a música de sempre entre gente de esquerda.

Isabel Simões

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