11/04/19

Feira dos Lázaros: memórias que ligam a lepra, a Alta de Coimbra e a Quaresma

No passado domingo, dia 7 de março, aconteceu mais uma recriação da antiga Feira dos Lázaros pelo Grupo Etnográfico e Folclórico da Casa do Pessoal da Universidade de Coimbra (GEF-CPUC). Em dia de chuva e vento, com apoio da União de Freguesias de Coimbra (UFC), os membros do grupo voltaram a montar as bancas no Largo Dom Dinis. O lugar de destaque foi dado à doçaria tradicional da cidade.

A Rádio Universidade de Coimbra passou pelo Largo Dom Dinis em reportagem ao fim da tarde e falou com a coordenadora do GEF-CPUC, Luísa Bronze Lopes. Debaixo do toldo plastificado Luísa contou que a Feira dos Lázaros está ligada ao dia do ano em que eram permitidas as visitas aos doentes de lepra (os gafos), internados compulsivamente e em regime de isolamento numa das alas dos antigos Hospitais da Universidade de Coimbra.

A institucionalização dos doentes de lepra em Portugal remonta a anos anteriores à formação do Reino de Portugal. Em Coimbra o lugar destinado ao seu internamento mudou com o tempo como descreveu a coordenadora do GEF.

Primeiro estiveram na zona baixa da cidade, na Gafaria de São Lázaro, propositadamente instalada fora da muralha com o objetivo de diminuir as hipoteses de contágio à restante população. Esse imóvel, cuja construção ou formalização real aconteceu no reinado de D.Sancho I, está hoje em total ruína. O último lugar foi mesmo na velha Alta de Coimbra, até pouco antes do processo de demolição levado a cabo para dar origem à Cidade Universitária de Coimbra.

A ala hospitalar pertencente aos Hospitais da Universidade ficou conhecida também como Hospital dos Lázaros. É também do tempo dos reis que começa a ligação entre o quinto domingo da Quaresma e os leprosos.


“[…] Lázaro, Ramos e na Páscoa estamos”

A interrupção letiva da Páscoa começa daqui a poucos dias. Para muitos estudantes de vários graus de ensino vão contar-se uma ou duas semanas em que pelo menos as aulas vão ficar de lado. E se a Páscoa faz com que se deixem algumas coisas de lado com o pretexto de que se vai celebrar a ressurreição de um senhor, também faz com que muitas outras datas sejam assinaladas com referência ao dia do ano em que calha um dos mais relevantes feriados católicos. Nomeadamente, as datas do período da Quaresma.

“Ana, Magana, Rabeca, Susana, Lázaro, Ramos e na Páscoa estamos” é, ou foi, uma forma simples de se contar os domingos do período da Quaresma que separam o Carnaval e a Páscoa. O quinto domingo, o penúltimo antes da Páscoa, também conhecido como “domingo de São Lázaro” ou “domingo de Lázaro”, e que este ano calhou ser no dia sete de março, recorda segundo algumas versões da narrativa bíblica, a história da ressurreição de Lázaro da Betânia, uma das ações de Jesus que precipitaram a sua crucificação e morte.

Apesar de “Lázaro da Betânia” não ter relação com “Lázaro, O Leproso”, ambos são personagens das narrativas bíblicas. Terá sido uma confusão permanente entre os dois durante a Idade Média que levou à associação dos pacientes de lepra com personagem do episóidio que se assinala no quinto domingo da Quaresma.

A coordenadora do Grupo Etnográfico e Folclórico afirma que o quinto domingo da Quaresma era um dia de peregrinação à ala das infetocontagiosas do hospital. Em frente da fachada, e como é comum ver-se em qualquer momento de reunião de uma grande massa de pessoas, havia os que aproveitavam para fazer negócio.

Além das galinhas em massa de pão com penas, os doentes internados faziam ainda algum dinheiro com a venda de produtos cultivados no quintal do hospital. Conta Luísa que esse rendimento era o “dinheirito para o tabaco”.


Clama-se por doçaria feita com o preceito da história

Deitar um olhar àquela banca de doçaria de Coimbra era necessário. Os que não tiveram oportunidade de ver e cheirar podem ouvir a nossa entrevistada a enumerar o que trouxeram para vender aos passeantes.

Ao referir as arrufadas, sentiu ser necessário explicar a diferença entre as duas arrufadas da cidade de Coimbra.

Na presença de tantos doces com aspeto apetitoso, e já depois de nos ter dado a entender um conhecimento sobre as origens da doçaria conventual, Luísa fez questão de referir que aqueles não são como os das pastelarias. Além da confeção ser guiada por receituários antigos, resgatados a uma freira do convento de celas, quem bate a massa são os membros da Casa do Pessoal da Universidade de Coimbra.

Mas entre o manjar branco, a arrufada, o arroz-doce, a queijada e o licor, sentiu-se que ali havia mais história para contar do que aquela que se adivinha pela área ocupada por homens e mulheres trajados a rigor.


A ligação do GEF à Feira dos Lázaros tem 28 anos. A dos Salatinas tem mais

A recriação da Feira dos Lázaros pelo Grupo Etnográfico e Folclórico da Casa do Pessoal da Universidade de Coimbra acontece no largo Dom Dinis desde 1991. Luísa Bronze Lopes, que além de coordenadora do GEF é vice-presidente da CPUC, afirmou que foi a pesquisa da história a conduzir a recriação da feira. Mas a folclorista referiu ainda que o facto de terem estado no grupo duas pessoas que nasceram ali – na colina agora ocupada pela Cidade Universitária de Coimbra – e que conservavam a memória dos dias de feira, não foi um acaso para a existência desta recriação.

A memória e o saudosismo dos colegas nascidos na Alta de Coimbra tiveram bastante peso há 28 anos. Ser originário da velha Alta de Coimbra tinha um lado bairrista. Ser originário da Alta de Coimbra era ser Salatina. A essa pergunta, se os dois membros que referiu eram salatinas, Luísa respondeu e acabou a desvendar mais sobre as suas próprias motivações.

Deu ainda conta de quanto significado tem continuar a promover aquela pequena feira domingueira.


Este ano foi fraco, os próximos logo se vê

A chuva do fim de semana em nada ajudou ao evento. Os que estavam no largo Dom Dinis, tinham de aproveitar as barracas cedidas e ali colocadas pela UFC. Os membros do grupo que mostravam os produtos a céu aberto, munidos apenas com um tapete para estender no chão, viram-se confinados ao abrigo da zona coberta entre os Departamentos de Física e Química. Luísa Bronze Lopes confirmou que o tempo não favoreceu a presença dos saudosistas e turistas.

O caráter anual da feira e a altura do ano em que acontece são os elementos com que se joga o sucesso da feira a cada ano. A vice-presidente da Casa do Pessoal da UC, afirmou fé no futuro mesmo que o interesse dos mais novos pelo Folclore seja menor.

A recriação da Feira dos Lázaros aconteceu numa organização conjunta entre o Grupo Etnográfico e Folclórico da Casa do Pessoal da Universidade de Coimbra e a União de Freguesias de Coimbra. Teve ainda a participação dos Grupo Folclórico “Os Camponeses do Mondego” e do Grupo Folclórico da Vila de Pereira.

André Jerónimo

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