1/02/19

‘LA NUIT DES IDÉES’ debateu o que se quer para Coimbra Capital Europeia da Cultura

Numa noite fria e chuvosa, a sala foi pequena para acolher todos os que se deslocaram à Alliance Française para mais uma noite de discussão de ideias. ‘La Nuit des Idées’ é uma iniciativa de França que acontece todos os anos por altura do final de janeiro em vários países do mundo. Em 2019 o encontro teve como mote “o presente”, assinalou Cristina Robalo Cordeiro, docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, moderadora do debate.

“Uma reflexão sobre o passado e o presente” tendo em vista a candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027 foi a proposta da moderadora. Uma candidatura que se quer “aberta, coletiva e solidária”, em que importa o caminho a fazer até lá, bem como o que vai ficar na cidade depois de 2027, caso ganhe, disse.

Convidadas as diretoras do Museu da Ciência, Carlota Simões e do Museu Nacional Machado de Castro (MNMC), Ana Alcoforado e um dos elementos que preparou a candidatura da Universidade de Coimbra Alta e Sofia a Património da Humanidade, Raimundo Mendes da Silva. O presidente da Associação Académica de Coimbra, Daniel Azenha também foi convidado mas razões de última hora impossibilitaram a presença.


Propostas dos oradores

“Pediram-me para falar sobre Coimbra, muita coisa havia a dizer”, a começar pelos Árabes, passando pelos Judeus até à Época Medieval… “escolhi o Iluminismo”, afirmou Carlota Simões.

O iluminismo diz-se que nasceu em França mas com a reforma Pombalina de que o Laboratório Químico, o Gabinete de Física Experimental, o Museu de História Natural, o Jardim Botânico e o Observatório Astronómico são exemplos, tem referências fortes na cidade. Figuras como Giovanni Antonio Dalla Bella, Domenico Agostino Vandelli ou José Bonifácio Andrade e Silva permitem ligar na atualidade a universidades europeias e brasileiras e dar uma dimensão internacional ao grupo de “amigos” da candidatura.

“Através do iluminismo podemos unir muitos amigos nacionais e estrangeiros em torno da candidatura” mencionou a diretora do Museu da Ciência. Carlota Simões propôs uma exposição sobre o iluminismo no edifício onde o Marquês de Pombal criou o Gabinete de Física. A mostra incluiria objectos oriundos das universidades que fazem parte destas redes.

A diretora do MNMC, Ana Alcoforado, abordou a questão dos ‘graffiti’ com que a Alta da cidade de Coimbra se debate para lançar uma ideia de transformação de forma a transmudar “uma das nossas maiores fraquezas em força”. Para Ana Alcoforado o maior desafio que a candidatura enfrenta é o de tornar a “cidade mais colaborativa” e para isso apresentou a ideia de transformar os muros grafitados de forma a que a população possa deixar as suas reflexões que possam depois ser transformadas em projetos. Desta forma talvez seja possível conseguir “uma cidade menos degradada em que todos possam zelar pelo espaço público”, disse.

Raimundo Mendes da Silva, docente na Faculdade de Ciências e Tecnologia participou na candidatura da Universidade de Coimbra Alta e Sofia a Património Mundial da Humanidade. E foi dos 17 atributos que justificaram a candidatura que o docente partiu para revisitar alguns aspetos comuns com a candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura.

Raimundo Mendes da Silva propôs que em cada ano dos sete que faltam para a realização se valorize um dos aspetos, seja a arqueologia ou a investigação virada para o futuro. Lembrou ainda que a valorização do património industrial abandonado pode ser um dos exemplos a considerar, à semelhança do que já aconteceu na Holanda com o parque da empresa Philips.


Público apresentou propostas

Recordando alguns dos critérios conhecidos para avaliação das candidaturas pela União Europeia — programa de atividades especifico, apoio autárquico e uma forte dimensão europeia da candidatura através da sua ligação a outras cidades — um dos presentes fez referência à figura de D. Pedro, Duque de Coimbra. Uma figura da Coimbra do século XV, pioneira, capaz de conciliar várias vertentes da cultura e potenciar laços entre regiões da Europa por ser “o príncipe das sete partidas”.

Outras ideias de fundamento patrimonial foram lançadas na reunião. Uma delas fundamentou-se na arqueologia, num dos edificados mais antigos que existe na cidade, o Criptopórtico Romano, e o seu potencial para integrar o projeto de candidatura das fronteiras do Império Romano a Património da Humanidade. É de recordar que o Império Romano teve na Península Ibérica, e durante algum tempo, o seu limite a sudoeste. Foram também abordadas as potencialidades de aproveitar as ligações fortes, embora pouco explicitas, à cidade indiana de Goa e de integrar a rede de cidades criativas da UNESCO em áreas como a literatura.

Além das vertentes conceptual e de inspiração, muito presentes nas ideias levantadas para discussão, foram abordadas questões práticas como a necessidade da “constituição de um gabinete de informação e comunicação” que realize um trabalho constante de divulgação e ligação aos cidadãos da região. Para ilustrar a importância deste trabalho foi dada como exemplo a divulgação, local e nacional, dos Jogos Europeus Universitários que tiveram lugar em Coimbra no verão de 2018.

Segundo as opiniões e comentários laterais que se ouviram dos presentes, os Jogos Europeus Universitários foram duas semanas de importância continental muito mal aproveitadas para a divulgação da cidade e do país. Cristina Robalo Cordeiro perdeu a vantagem da surpresa e optou por revelar que recentemente foi constituído um gabinete de comunicação e uma linha telefónica com o propósito apresentado. Revelou ainda que o sítio da Câmara Municipal de Coimbra na Internet está em processo de remodelação, quase concluído, e que prevê uma área dedicada à comunicação e divulgação do projeto.

O coordenador do movimento Cidadãos por Coimbra, Jorge Gouveia Monteiro, também interveio no espaço do debate. Jorge Gouveia Monteiro reforçou a necessidade de “elevar o bem-estar cultural dos nossos concidadãos” afirmando que o grande objetivo da candidatura deverá ser “multiplicar o número de pessoas que acede a bens culturais”. Além do principio de integração dos cidadãos, Gouveia Monteiro referiu a oportunidade de Coimbra se afirmar como uma “cidade sem medo” dos refugiados. Uma cidade que opta por abrir os muros em vez de se fechar sobre eles.

A ideia de combater a efemeridade do projeto foi algo que Cristina Robalo Cordeiro repetiu. A professora da UC frisou que no núcleo de todos os trabalhos até agora realizados, esteve sempre a busca por uma dinâmica de transformação que deixe marcas duradouras na cidade e nas pessoas, independente do sucesso da candidatura, e que perdurem além de 2027. O ponto sobre a inclusão dos cidadãos foi algo amplamente referido pelos que se apresentaram na audiência.

Uns apelaram ao combate do que consideram ser uma injusta acusação de imobilismo a uma cidade que é na verdade um epicentro da mudança. Outros pediram atenção e apoio à produção contemporânea, jovem e emancipada do vórtice da Universidade de Coimbra. Uns falaram da falta de atratividade de uma cidade cuja juventude ativa acaba a “fugir para o Porto e para Lisboa”. Outros retomaram a ideia de que os nativos de Coimbra não gostam da cidade.

Esta última, aliás, foi anotada por Cristina Robalo Cordeiro como “recorrentemente presente” nas audições que tiveram até à data com os agentes culturais. Declarou “é preciso que as pessoas gostem de Coimbra e é preciso que Coimbra se deixe gostar”.

As vozes que se ouviram na casa da Alliance Française falaram ainda da criação de museus de orgulho conimbricense com localização no centro histórico (com temas a ir da cidade, à língua portuguesa e à canção de Coimbra), condomínios de comércio e serviços, denominação de “áreas de localização cultural”.


Comissão sente que está no caminho certo

O membro da comissão de preparação da candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura, António Pedro Pita, foi dos últimos a tomar a palavra. Começou por afirmar que, depois do que acabava de ouvir, tinha confiança de que a comissão estava a dirigir bem o trabalho de reflexão preliminar. A ideia de Jorge Gouveia Monteiro sobre o usufruto, pelos cidadãos, dos equipamentos e da oferta cultural também não escapou ao professor da FLUC que lhe juntou um aviso para que se pense sobre o “traumático dia seguinte a estes grandes eventos”.

“Depois de 2027, temos de cuidar bem de 2028”, afirmou. Já durante a sessão, Cristina Robalo Cordeiro tinha dito que “é muito importante ganhar […] o que se passará em 2027 é fundamental[…] se calhar, mais importante ainda, é o que se vai fazer daqui até lá e o que poder perdurar no futuro”.

O professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra referiu também que é necessário identificar os bons exemplos que existem implantados no terreno. Na sua opinião é importante organizar a “gente tresmalhada”, dar-lhes condições para operarem, e depois pensar quais as redes de contacto exteriores em que Coimbra se insere. Um esforço de “organizar o universo” para o qual é muito relevante a entrada em funcionamento do Conselho Cultural Regional.

António Perdo Pita: “É difícil organizar o Universo mas a malta está a caminho”
António Pedro Pita sobre as reuniões do futuro Conselho Cultural Regional

Ao longo da sessão houve lugar a momentos de poesia pelos elementos da Secção de Escrita e Leitura da Associação Académica de Coimbra.

Atuação de Mossoró


André Jerónimo e Isabel Simões

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