28/01/19

Sobre a Loja Social da União de Freguesias de Coimbra

Na Rádio Universidade de Coimbra regularmente dedicamos atenção ao que se passa pela(s) cidade(s). No programa 1111 do dia 23 de janeiro usámos como pretexto a Loja Social da União de Freguesias de Coimbra, aberta a 26 de outubro de 2018 na delegação de São Bartolomeu. A entrevista de que fizemos uso no programa foi realizada a 8 de novembro de 2018 no espaço da Loja Social e teve a participação do presidente da União de Freguesias de Coimbra (UFC), João Francisco Campos, e da assistente social Ana Madeira.

O primeiro momento foi aquele em que o presidente afirmou que a Loja Social não apareceu apenas para cumprir um objetivo. João Francisco Campos não vê a criação da loja como um fim em si mesmo, mas sim, como uma das valências naturais de um apoio social de proximidade que quer fazer mais do que caridade, mais do que acalmar a necessidade até que se torne uma necessidade outra vez.

O presidente afirma: “A ideia é ajudar as pessoas, não perpetuar a pobreza”.


A loja social vem materializar a solução para suprir uma dificuldade identificada na união de freguesias: poder atuar rapidamente em situações identificadas como urgentes sem depender das outras instituições da cidade. Através deste mecanismo a UFC pode ser ágil devido à proximidade e à disponibilidade imediata dos bens. Além das infraestruturas e dos projetos da UFC, o autarca destaca a importância de se ter aberto um posto de trabalho para integrar a assistência social nos quadros da freguesia. Uma ação essencial, proposta durante a campanha autárquica e que, afirma também o presidente, era unânime em todas as forças políticas.


A localização designada para a Loja Social foi a delegação de São Bartolomeu da União de Freguesias de Coimbra. Esta é uma loja sem montras: uma sala na cave do edifício, cheia de prateleiras e peças de vestuário, roupa de casa, brinquedos e amostras de mobiliário, onde quem chega fica a sentir que está em privacidade. Fica a ideia deixada por João Francisco Campos: os problemas estão onde as pessoas estão, as pessoas estão onde as instituições estão. Mas as instituições estão porque as pessoas e os problemas já lá estavam.


O lugar de assistente social na UFC é recente e a pessoa que o ocupa é Ana Madeira. Ela responde à questão específica da caracterização sociodemográfica da baixa de Coimbra.


O autarca da União de Freguesias que a autonomia de atuação das estruturas sociais da UFC é completa. Existindo o material e as pessoas, a única coisa que o presidente diz interessar é a transmissão da informação sobre o que é que se está a passar. Assim, todas as intervenções são avaliadas e decididas sem intervenção de qualquer agente político.


A Loja Social é uma consequência da análise dos problemas sociais nas freguesias. Uma consequência que João Francisco Campos diz só fazer sentido se agora for causa de outras futuras consequências. Essa reprodutividade das ideias também só acontece com colaboração entre instituições, públicas, privadas, políticas, administrativas, sociais e educativas. Como estas instituições só existem porque têm pessoas dentro, o trabalho social não se faz só pela intervenção sobre as necessidades. Faz-se muito quando se trabalha a consciência coletiva, passo a passo, cidadão a cidadão.

Porquê escolher um modelo de atuação com uma loja social? Foi o que perguntámos em seguida ao presidente da União de Freguesias. João Francisco Campos diz que foi um caminho natural em que a loja social fez sentido no contexto da UFC e especificamente na delegação de São Bartolomeu, e incluído num ecossistema de outros projetos.


O espaço funciona sobretudo com o perfil de gabinete de atendimento onde a assistente social conversa com quem precisa e com quem quer colaborar.


Ana Madeira também abordou alguns detalhes da criação e do funcionamento da loja social. Descreveu aquilo que acontece no dia-a-dia e que envolve a loja, a freguesia e a própria.


Como é que se chega à população que quer ajudar? Como é que as pessoas sabem da existência da loja social? O autarca fala numa dualidade sensível que tem de ser equilibrada com cuidado. A divulgação — entenda-se, a promoção mediática que numa primeira análise serve para alertar a comunidade e os que querem ajudar — não pode comprometer a privacidade do utente que necessita do serviço. O presidente da UFC acredita que a atitude a adotar não passa pela vertente mais publicitária e massificada da divulgação. No equilíbrio pretendido, a atitude é a de informar a comunidade através dos mecanismos de proximidade. Mecanismos simples, de pequeno alcance. Gestos pequenos como passar a palavra.


Por fim, questionámos presidente sobre a avaliação do trabalho feito no seio da Loja Social. Perguntámos: Qual é a bitola para considerar que o projeto da Loja Social foi bem sucedido?




No arranque do 1111 do dia 23 de janeiro sugeriu-se que o tema daquela hora seria “proximidade”. Concretamente, o valor da proximidade e do contacto objetivo das estruturas de serviço público com os indivíduos que preenchem uma comunidade. Na informação RUC aflorámos outras vezes o caráter de proximidade das uniões e juntas de freguesia nas comunidades. A semana em que transmitimos esta entrevista foi também aquela em que as histórias que chegaram de Lisboa incluiram infelizes momentos protagonizados por forças de segurança e população. Um exemplo muito conveniente para também sugerir que é muito ambiguo aquilo que a proximidade, e a falta dela, conseguem cozinhar no futuro do conjunto das comunidades cuja unidade apelidamos de país. Em lume alto ou brando as coisas podem azedar e muitos exemplos recentes conseguem testemunhar essa realidade. Deste programa fica a intenção de refletir sobre as posições políticas e um compromisso moral das sociedades proclamadas como democráticas para com a funcionalidade eficaz, em direção ascendente, do elevador social. Um compromisso das sociedades para o bem-estar dos indivíduos que, vezes demais, está afastado da rotina diária, numa dimensão além do uso inofensivo da palavra solidariedade. O apoio social é para a independência do indivíduo e da família.




André Jerónimo

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2019-07-17T21:14:09+00:00
Wed, 17 Jul 2019 21:14:09 +0000