27/01/19

Estrela Serrano: “estão esgotados os modelos comunicacionais antigos”

Estrela Serrano, Rita Figueiras e Vasco Ribeiro

“O acesso ao espaço público é contínuo e ininterrupto. O que acontece ao valor notícia, o que acontece ao valor da palavra quando o político está sempre a comunicar?”

Foi a interrogação que Estrela Serrano, investigadora do Instituto de Comunicação da Nova, deixou aos conferencistas que marcaram presença no Teatro Paulo Quintela, na manhã de 25 de janeiro. A mesa redonda “Comunicação Política”, em que participou com Vasco Ribeiro, docente na Universidade do Porto e ex-assessor de imprensa na Assembleia da República, iniciou o segundo dia do VI Congresso Internacional Comunicação, Jornalismo e Espaço Público na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC).

“Media: Poder, Representação e Epistemologia” foi o mote do encontro que prestou homenagem a Isabel Ferin Cunha professora associada do Departamento de Filosofia, Comunicação e Informação da FLUC, pelo trabalho desenvolvido no âmbito das Ciências da Comunicação.


À margem da mesa redonda a RUC falou com a também ex-assessora de imprensa na presidência de Mário Soares, sobre a presença dos políticos em programas de entretenimento e se essa presença vai ser mais frequente no futuro. Estrela Serrano respondeu de forma afirmativa porque entende que “estão esgotados os modelos comunicacionais antigos” e adianta que a própria “população está cansada de ouvir os discursos formais” pelo que os espaços de entretenimento são “um oásis” para os políticos “mostrarem que são iguais ao povo”.



A investigadora, lembrou que as mensagens políticas “hoje em dia estão implícitas”. A presença de uma líder (Assunção Cristas) num programa da manhã para cozinhar e falar da família ou dos tempos livres, permite mostrar características que “não mostra quando está num comício ou numa cerimónia oficial”. “O assunto não é novo”, assinalou. Kees Brants da Universidade de Amesterdão tratou o tema numa publicação do ‘European Journal of Communication’ em 1998, sob o título “Quem tem medo do infotainment”.



No entender da investigadora a própria Política também se “transformou”. Por força de os jornalistas não terem tempo para investigar, as notícias “saltam para o online”, “saltam para as televisões”, disse. O jornalismo canónico só existe em “redutos e jornais de referência” e os media estão cada vez mais ‘mais tabloidizados’, “hoje modernamente populistas”, acrescentou.



Para Estrela Serrano os princípios básicos do jornalismo “não estão desatualizados, pelo contrário”. O jornalista tem um “contrato com o público” ao reger-se na atividade pelo “código deontológico” facto que o distingue de um “comunicador que escreve na internet” em qualquer espaço, esclareceu.



“Hoje em dia a realidade qual é? A que vemos e lemos nos jornais sérios ou a que aparece nas redes, que é outra coisa?”, perguntou a investigadora. Enquanto o jornalista tem um “contrato social” com o seu público, o cidadão que opina nas redes não tem essa responsabilidade, afirmou. Na opinião de Estrela Serrano, torna-se necessário separar o “trigo do joio” e aqui cabe um papel às comissões de ética e deontologia que critica por não atuarem. “Há um trabalho muito grande a fazer para manter o jornalismo são, com honestidade, rigor e transparência”, concluiu.


Clara Almeida Santos e Isabel Ferin Cunha

Entre 24 e 25 de dezembro, dez oradores, 13 moderadores colaboraram no Teatro Paulo Quintela e em mais duas salas da FLUC para a discussão de temas como a “Comunicação Política” a “Investigação em Ciências da Comunicação ou a Construção da Identidade dos Média”, para além das 39 comunicações em sessões paralelas divididas pelas temáticas do congresso.

Pela FLUC passou ainda a análise de programas de televisão, discursos políticos e a Auto-Mediatização da Presidência da República de Marcelo Rebelo de Sousa entre vários outros temas.

A encerrar o congresso a docente da FLUC, Clara Almeida Santos apresentou o livro de homenagem e entrevistou, Isabel Ferin Cunha

Dada à estampa pela Imprensa da Universidade de Coimbra, a obra tem como editoras Ana Cabrera, investigadora no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Clara Almeida Santos docente na UC e Rita Figueiras, docente na Universidade Católica Portuguesa.

Isabel Simões

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