30/11/18

1111 – Uma visita à Coimbra medieval

No 1111 de 28 de novembro estivemos em conversa com a docente do Departamento de História, Estudos Europeus, Arqueologia e Artes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Maria Teresa Veloso. O tema: Coimbra durante a época da História a que chamamos Idade Média. Em pouco mais de uma hora, conduzimo-nos pelo tempo cronológico e passámos em revista alguns dos momentos mais importantes para a história do município.

A História é composta por documentos e fragmentos, tem imprecisões que paulatinamente vamos aperfeiçoando e sofre as generalizações necessárias para “martelar” os seus pedaços num dado tempo cronológico. Enevoam-se assim algumas nuances dos lugares. Se para Portugal o contexto geográfico peninsular é determinante, Coimbra representa um caso ainda mais particular, seguramente a par de tantos outros, dentro do que caracteriza habitualmente a época medieval.

A convenção estabelecida marca o fim da Antiguidade e o início da Idade Média durante o séc.V, mais precisamente no ano 476, ano da queda de Rómulo Augusto, último governante do Império Romano Ocidental. A fragmentação de um império tão extenso e duradouro não só viria a provocar como já era o próprio resultado de vários conflitos e de instabilidade política, administrativa e religiosa. Os povos do Império Romano do Ocidente separam-se em vários jovens e revigorados estados e o Império Romano Oriental recria-se na forma do Império Bizantino. A acompanhar todos estes processos acontecem as transformações culturais e civilizacionais que apontam para a mudança da era histórica.

A medievalista, Maria Teresa Veloso, acredita que a passagem para a Idade Média na Península Ibérica acontece um pouco mais tarde na cronologia dos acontecimentos.

 

I – A idade média na península ibérica e a convivência com os muçulmanos

Antes da queda definitiva do Império Romano Ocidental em 476, a Península Ibérica já era um dos focos de agitação preocupantes para os governantes romanos. Era local onde os Lusitanos já haviam tentado revoltas, e onde os outros povos, oriundos de partes distantes da Europa, acabaram por entrar e ocupar porções de território desde o ano 411. A ocupação do território da península durante esse período (o das chamadas Invasões Bárbaras) acontece com uma transição genericamente suave dos modos de vida e estrutura social deixada pelos romanos. Tão suave que Maria Teresa Veloso caracteriza os povos ocupantes com a expressão “romanizados”. É também por esta altura que o cristianismo, a jovem religião, cria raízes na Península Ibérica. Apesar da fragmentação do império e das constantes reformulações nas fronteiras dos novos reinos, a transformação cultural mais profunda nos territórios da antiga Hispânia, segundo a professora de história, coincide com a entrada dos muçulmanos pelo norte do continente africano e a sua estadia na península por cerca de 780 anos, até 1492.

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Para Maria Teresa Veloso os limites da época medieval na Península Ibérica coincidem com a chegada e saída dos muçulmanos cujas marcas ficaram até hoje e fazem parte do ADN de Portugal e Espanha. Aqui na região, a professora enumera: Alcarraques, Almalaguês, Almedina.

Coimbra foi muito tempo um território de fronteira entre cristãos e muçulmanos sendo inclusive alvo de conquistas e reconquistas. Mas ao contrário do que é percetível no enquadramento habitual desta convivência, as transferências culturais não aconteciam apenas nos campos de batalha ao som do escudo e espada. Na verdade, a convivência mundana entre cristãos e muçulmanos aconteceu de diversos modos. Os Moçárabes, os cristãos arabizados da Península Ibérica, são uma das pontes mais evidentes entre os dois mundos aparentemente inconciliáveis.

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II – 1111: o povo de Coimbra não era simples povo

A mudança de poder entre cristãos e muçulmanos aconteceu em Coimbra por 4 vezes. Em 714, os Visigodos perdem Aemium aquando das invasões Muçulmanas. Em 878, o Reino das Astúrias reconquista Qulumriyah, Em 987 a capital do Condado de Coimbra volta para os muçulmanos. E por fim, em 1064 a cidade troca de mãos pela última vez e fica fixa na cristandade. A convivência entre cristãos e muçulmanos, o estatuto de entreposto comercial de fronteira e a posição central em várias batalhas valeu a Coimbra a acumulação de privilégios e riquezas ao longo do tempo. Segundo Maria Teresa Veloso, depois de 1064, a gente comum do povo não era assim tão comum. A riqueza e posição geral dos coimbrões torna-se foco de atenção por fazer deles capazes de reivindicar e entrar em negociação nas questões politico/administrativas da cidade: era gente “capaz de se apresentar na guerra, armada e a cavalo”. A situação seria de tal forma evidente que é o próprio Papa Pascoal II a referir-se ao povo de Coimbra, na primeira carta enviada por um Papa ao Bispo de Coimbra, como Milites Christi (soldados de deus; cruzados).

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Esta referência proveniente da Santa Sé confirmava que o patamar social da população de Coimbra não era tão distante assim do da nobreza local. Esta invulgar condição social será mesmo um dos contextos a justificar a atribuição da carta de foral de 1111 por Henrique de Borgonha, conde de Portucale (Conde D. Henrique), e Teresa de Leão (Infanta Dona Teresa).

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Mas Maria Teresa Veloso faz nota que em Coimbra, mais grave do que a imiscuição na direção política da cidade, eram as tentativas de manobrar o poderoso clero local.

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Em alturas do século XII, Coimbra é uma pequena cidade muralhada com três portas de entrada, plantada numa colina de fronte para o Mondego. Fora da muralha, pouco existe: entre os primeiros edificados contam-se as igrejas de São Bartolomeu, Santa Justa e Santiago. Apesar do seu tamanho, os interesses que tem dentro trazem à cidade as gentes e os assuntos. Chega-se a Coimbra para visitar monarcas, falar com os da Sé — que além do seu preponderante papel no ensino, tem importância pela propriedade e administração de terras que vão do rio Leça, a norte, até Soure e que se estende a oriente até Viseu — ou tratar de assuntos militares. Ao final de contas, Coimbra tinha Foral mas continuava a ser fronteira, e sê-lo-ia até à conquista de Lisboa em 1147.

Com a criação (autoproclamada) do Reino de Portugal em 1128, D. Afonso Henriques, torna-se Afonso I de Portugal e escolhe Coimbra para capital e posterior local do seu sepulto. Para demonstrar poder, riqueza, e devoção humilde à cristandade e à Santa Sé, manda construir o Mosteiro de Santa Cruz (1131).

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Como a professora recorda, a visão que temos de Santa Cruz hoje é apenas a fachada da igreja, e já muito alterada. Na altura o mosteiro estendia-se pelos terrenos do que é hoje a Rua da Sofia e a Sá da Bandeira. Acabaria por se tornar um rival institucional da Sé de Coimbra e um local de culto, ensino e cultura a que Maria Teresa Veloso apelida de “universidade antes da universidade”.

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O Mosteiro de Santa Cruz surge já num período diferente na história cultural de Coimbra e a sua ligação já não é com a vida mundana. Além da nova instituição ser da vertente do clero regular (diferente da vertente secular da Sé), está ligada ao Mosteiro de São Rufo de Avinhão em França e com ele trabalham em rede na transferência de conhecimento. Maria Teresa Veloso destaca a figura de Santo António de Lisboa, que foi instruído em Santa Cruz e que de lá transporta toda a bagagem cultural capaz de impressionar os outros povos europeus.

 

III – Da preponderância política a centro cultural

Saltamos de 1131 para 1290. O país está completo, a capital já está para sul do Mondego e o Rei é D. Dinis. No dia 1 de março desse ano, ele manda criar por decreto real a instituição que hoje conhecemos como Universidade de Coimbra. E se no nome da instituição de ensino ainda não existia a palavra “universidade”, tampouco era Coimbra que figurava como cidade da sua implantação.

É costume dizer-se que a capital do reino era onde o rei estivesse. Não sendo exatamente assim, era onde o rei decidisse fixar a corte. E num jovem país com ímpeto expansionista, à medida que acumulou território a sul, foi facto que os reis, as cortes e os locais de sepulto desceram com a fronteira. O Conde D. Henrique e Dona Teresa estão em Braga, Afonso I e Sancho I em Coimbra, Afonso II e Afonso III em Alcobaça, Dinis I em Odivelas. A descida geográfica até à expulsão definitiva dos mouros e estabilização das fronteiras é um dado que a professora usa para realçar o facto de Coimbra perder preponderância política, à semelhança daquilo que havia acontecido antes com Braga e as zonas mais a norte. Em 1249, Afonso III termina a reconquista e D. Dinis é o primeiro a governar sem que a reconquista aos mouros fosse a principal preocupação. As suas atenções estavam no Direito e na administração e a sua preocupação era a de criar um corpo de funcionários da coroa a quem pudesse confiar partes importantes do governo do reino.

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Por alturas de 1290, Coimbra é então uma cidade de tranquilidade, de culto e estudo. Apesar disso D. Dinis escolhe Lisboa, a capital, como local para implantar a escola que, acreditava, ira tornar a sua visão para Portugal uma realidade.

 

IV – A itinerância da universidade como proteção de um grupo privilegiado

A criação da universidade em Lisboa não corre bem. Os jovens escolares eram causa de um número crescente de queixas que alegavam muito barulho durante a noite, “escândalos graves e dissensões” (alarme social) e comportamento violento, tanto entre eles como com os locais e com os forasteiros. Lisboa em si era um centro comercial destacado e uma cidade já bastante movimentada pela chegada e partida de embarcações, produtos, passageiros e tripulantes. As tentações eram muitas e em muitos casos coincidentes com locais “poucos recomendáveis” onde o convívio com os marinheiros era próximo.

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Ao fim de 19 anos, D. Dinis vê-se forçado a encontrar uma solução para o foco de problemas que se gerava em trono do seu grupo protegido. A professora recorda que é neste momento, a 15 de fevereiro de 1309, que se funda o ensino superior em Coimbra e que se começa a era “Depois da Universidade”. D. Dinis manda transferir o estudo geral de Lisboa para a futura “cidade dos estudantes” num extenso documento onde explica as razões e detalha a operacionalização do funcionamento e da implantação da instituição no seu novo e “erradicável” local de poiso.

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Em Coimbra, uma parte dos mesmos problemas aparecem ao fim de pouco tempo. Um dos factos que Maria Teresa Veloso apresenta para fazer perceber a rapidez com que se deteriorou a situação, é a anulação da permissão de circular durante à noite pela cidade, mesmo que identificados pela candeia. Ao fim de três anos, os estudantes eram obrigados por decreto real a um recolher obrigatório ao fim do terceiro toque do sino da Sé. Explica Maria Teresa Veloso que não era bem um castigo que se estava a aplicar aos estudantes, era mais uma outra maneira de os proteger.

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Apenas o flagrante delito em fabrico de moeda falsa, rapto de mulher ou infusão de sangue poderia trazer consequências mais graves.

Além dos problemas ligados ao comportamento imune de responsabilidade, surgem outros que afetam a organização e tranquilidade da cidade em si. Maria Teresa Veloso dá particular destaque ao surgimento do problema da habitação que colocava em grande desigualdade os senhorios e os inquilinos. D. Dinis havia escolhido o local, criado uma tabela de rendas com teto e definindo as punições a quem não cumprisse. A determinada altura D. Dinis regista a palavra ódio para definir o sentimento da população para com os escolares.

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Outro aspeto em que Coimbra se mostrava equivalente a Lisboa era o do alarme social provocado por zaragatas, por vezes violentas e fatais, com a população da cidade. A professora diz que o grupo dos escolares era exclusivamente masculino, jovem e solteiro, logo, conflitos de honra com pais, irmãos e enamorados das raparigas eram comuns.

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Muitos privilégios, foro próprio (o foro académico, semelhante ao do clero), tribunal próprio, prisão dedicada, a proteção incondicional aos estudantes era de tal forma evidente que a professora apelida este novo grupo de cidadãos especiais como afilhados do Rei e quem os importuna-se tinha de responder perante a coroa.

A universidade volta a passar para Lisboa e só vai fixar-se em Coimbra no reinado de D. João III em 1537.

 

V – O início da idade moderna: a Língua Portuguesa

A expulsão dos mouros da península só aconteceria em 1492 com a extinção do reino de Granada, mas em Portugal, as fronteiras estavam relativamente fixas desde 1297 e viviam-se períodos de paz. A professora referencia um acontecimento importante e relativamente unanime para marcar o fim da época medieval: as cortes de Cantanhede que reconhecem João I de Portugal como Rei após a crise de sucessão de 1383-85. No entanto Maria Teresa Veloso prefere deixar uma pista para outro momento importante, mais de 150 anos antes da elevação do Mestre de Avis ao trono, e até anterior ao reinado de D. Dinis. Um dado para se perceber que havia uma mudança cultural profunda já a borbulhar à superfície: a primeira utilização do português em registos oficiais do reino.

Antes de D. Dinis impor a Língua Portuguesa como língua oficial em 1297, já se havia produzido um documento nessa língua que ganhava forma e espaço. O primeiro testamento do Rei Afonso II, é redigido em Coimbra, em português.

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Para Maria Teresa Veloso esta é uma evidência da vanguarda cultural de Coimbra e que aponta para o inicio da passagem da Idade Média para a Idade Moderna quase três séculos antes da expulsão definitiva dos muçulmanos da Península Ibérica.

 


Pequena cronologia

  • 411 – criação do reino Suevo na Península Ibérica
  • 465-468 – incursão dos suevos na zona de Condeixa-a-Nova (Conímbriga)
  • 476 – fim do Império Romano Ocidental
  • 561-572 – criação do bispado de Conímbriga
  • 569 – invasão de Conímbriga pelos Suevos
  • 585 – anexação do reino Suevo pelo reino Visigodo
  • 589 – invasão de Conímbriga pelos Visigodos, transferência da diocese de Conímbriga para Aeminium (Coimbra)
  • 711 – entrada dos mouros na Península Ibérica
  • 878 – reconquista no reinado de Afonso III das Astúrias; a cidade é reconquistada e a administração das terras é cedida ao Conde Hermenegildo Guterres, cunhado do Rei.
  • 1064 – reconquista de Coimbra – Fernando I de Leão, o Magno, reconquista a cidade para os cristãos depois de um cerco de seis meses
  • 1111 – atribuição do Foral a Coimbra
  • 1128 – batalha de são Mamede; autoproclamação do reino de Portugal
  • 1131 – abertura do Mosteiro de Santa Cruz
  • 1139 – aclamação interna de Afonso I
  • 1143 – assinatura do Tratado de Zamora. Independência de Portugal reconhecida pelo reino de Leão
  • 1147 – conquista de Lisboa
  • 1217 – primeiro documento oficial do reino redigido totalmente em Português
  • 1249 – fim da reconquista
  • 1290 – fundação da universidade portuguesa
  • 1297 – fixação das fronteiras; oficialização da Língua Portuguesa
  • 1309 – primeira transferência da universidade para Coimbra
  • 1385 – cortes de Coimbra/Cantanhede reconhecem João I
  • 1492 – expulsão dos Muçulmanos da Península Ibérica

A entrevista completa a Maria Teresa Veloso está disponível no mixcloud da informação RUC e, exclusivo no podcast, estão  mais 2 dedos de conversa: primeiro falamos de pergaminhos perdidos (e eventualmente achados) e depois, a professora de história mostra-nos 3 livros no seu gabinete.

André Jerónimo

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