30/09/18

RUC @ MOTELX 2018

A Rádio Universidade de Coimbra esteve presente em mais uma edição do MotelX, o festival internacional de cinema de terror de Lisboa. Esta é já uma presença assídua, talvez pelo ambiente familiar que se gera ao longo de todos os dias do evento. Durante (mais ou menos) uma semana dá-se um encontro especial entre quem faz cinema e quem vê cinema, com um respeito mútuo que dilui completamente qualquer tipo de pedestal e o histerismo de outros certames dá aqui lugar à ansia de descoberta.

Este ano marca a 12ª edição e não trazendo muitas novidades ao modelo, continua a ser uma boa bússola para todos os entusiastas do cinema de género, com uma seleção criteriosamente estudada para mostrar, surpreender e desafiar. Os grandes convidados deste ano foram Leigh Whannel, o criador de franchises com “Saw” e “Insidious”, Paco Plaza, o realizador por detrás de filmes como “REC” ou “Verónica” e Andy Nyman, co-autor do recente “Ghost Stories” e actor em produções como “Dead Set”, “Severance” ou “Peaky Blinders”. Estivemos à conversa com os últimos dois e em breve podem ouvir na antena dos 107.9fm.

Dando destaque às personalidades acima nomeadas, é importante referir que muitos dos filmes exibidos no festival são acompanhados pelos seus autores, acabando por se tornar numa experiência pedagógica sobre o processo de criar cinema, quer se goste do resultado ou não. É também importante destacar um par de homenagens que merecidamente tiveram lugar no festival entre os dias 4 e 9 de Setembro. A primeira das quais foi à autora da personagem de Frankenstein, Mary Shelley, que 200 anos depois se torna numa figura fulcral na luta das mulheres pelo reconhecimento e visibilidade que tanto tardou a chegar e que felizmente se começa a estabelecer. Na mostra principal, o chamado “serviço de quarto”, pudemos assistir ao biopic homónimo, produzido este ano e realizado por Haifaa Al-Mansour.

Ainda no campo das homenagens, pudemos assistir a uma selecção de filmes realizados por Solveig Nordlund, a cineasta sueca que cedo chegou a Portugal e dirigiu alguns dos filmes mais representativos do cinema de género nacional desde os anos 70. Os seus filmes mais recente incluem títulos como “Aparelho voador a baixa altitude” e “A Filha”, enquanto editora trabalhou para nomes tão icónicos como Manoel de Oliveira ou João Botelho.

Antes de falar do filmes, vamos falar dos prémios. Como já é habitual, o festival tem distinguido a melhor curta-metragem portuguesa e o melhor filme europeu, este último com o prémio Méliès d’argent. A curta-metragem digna da honra tem como título “A Estranha Casa na Bruma”, os mais conhecedores da obra de H.P. Lovecraft devem estar com certeza familiarizados com o título, já que se inspira num dos contos do celebrado autor. Guilherme Daniel foi o realizador que se destacou entre a competição com uma curta que tem tanto de simples como de engenhosa e se faz valer do baixo orçamento como escudo e arma, dando lugar a um terror conceptual que serve todas e quaisquer intenções de desconcertar o público. Foi ainda dada uma menção honrosa para a curta de animação “Agouro”, de David Doutel e Vasco Sá, que demonstrou um domínio técnico ímpar para contar uma história centrada numa zona remota do país. O prémio Méliès d’argent, por sua vez, foi entregue ao cineasta Lukas Feigelfeld, com o filme Hagazussa: A Heathens Curse”, um conto negro sobre a luta de uma mulher contra a sua própria sanidade, num tempo em que as crenças pagãs das bruxas espalham o medo pela mente das pessoas.

Entre os filmes exibidos há que dar o merecido destaque Mandy, a segunda longa-metragem de Panos Cosmatos e certamente um dos melhores filmes do ano. Interpretado por Nicholas Cage, Andrea Riseborough e Linus Roache, é uma sátira niilista ao sentimento de perda e acaba por se transformar numa profunda ode à solidão. Materializa na tela todo mecanismo de tentativa de superação, espanca-nos os sentidos e desarma qualquer procura de norte. As comparações estéticas entre Panos Cosmatos e Stanley Kubrick não são descabidas e fazendo alguns ajustes geracionais vemos muito do autor de “The Shinning”, sem que isso pareça minimamente referencial, quebrando o suficiente com o molde para se tornar num animal único.

“Knife + Heart” foi uma das grandes surpresas. O realizador francês Yann Gonzalez pegou no Giallo e deu-lhe a volta por completo trocando a misoginia e a exploração da sexualidade da mulher pelo oposto, apresentando um assassino que escolhe as suas vítimas dentro da comunidade da pornografia gay e pegando numa mulher em posição de poder como protagonista. Tal como “Mandy”, este é um filme que nos leva pelos sentidos e embora não seja tão estilizado e mais referencial, não perde por isso. Assume alguns clichés do género por um lado e por outro desenvolve as personagens de forma mais aprofundada que os seus contrapartes do género. Para rematar, temos uma excelente e atmosférica banda sonora da banda M83, cujo um dos elementos é irmão do realizador. Destaque para uma ótima interpretação de Vanessa Paradis e um elenco todo ele muito forte.

“Tigers are not Afraid” era um dos filmes mais esperados e não desiludiu. Uma mistura muito pouco convencional entre a dureza de um drama passado nas ruas violentas do México e uma aventura de fantasia, que tem tanto de visceral como de mágico e surge como uma das propostas mais comoventes do festival. A realizadora Issa López faz ao crime organizado da América latina aquilo que Guillermo Del Toro vez com “O Labirinto do Fauno”.

Em suma, muito se passa pelo Motel X para não deixar de ser uma Meca para quem gosta de cinema. Pode ser um género ainda olhado com desconfiança, mas só o faz quem também não tem muito a dizer sobre a sétima arte.

Em breve, na nossa antena podem ouvir entrevistas a Paco Plaza (Rec)

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Andy Nyman (Ghost Stories), John McPhail (Anna and the Apocalypse)

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e João Monteiro (Motel x).

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Texto por José Santiago

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