30/09/18

RUC @ MILHÕES DE FESTA 2018

A RUC foi até Barcelos (Braga) entre os dias 6 e 9 de setembro para a tão aguardada 11ª edição do festival Milhões de Festa, a nona edição em que o evento organizado pela promotora e editora Lovers & Lollypops decorre na cidade de Barcelos, em parceria com a câmara municipal.

Desde finais de junho que as redes sociais se vinham a encher com o slogan “A TRADIÇÃO JÁ NÃO É O QUE ERA”, curiosamente apresentado poucas semanas antes das datas em que o Milhões costumava decorrer, numa altura em que a esperança dos banhos na piscina municipal já se desvaneciam. O primeiro romper com a tradição era então a data de ocorrência, um salto desde as primeiras semanas de verão para as últimas, uma promessa de encerramento em grande da época alta dos festivais portugueses.

Durantes estes quatro dias de festa, o Milhões convidou-nos à experimentação de mais de 60 concertos e performances diferentes, por artistas dos mais diversos domínios da música e localização geográfica, revelando-se como uma verdadeira experiência de conhecimento e exploração, preenchido por um público também muito variado, de braços abertos a tudo o que o Milhões de Festa tem para oferecer.

Nesta edição, a programação deste cartaz tão diverso foi distribuída pelos palcos Milhões, Lovers, Piscina, Taina e ainda o Palco Cidade, cuja localização foi dada a conhecer horas antes de cada espetáculo e pretendia promover e envolver a cidade que tão bem alberga o festival.

DIA 1 (6 SET):

O primeiro dia do Milhões de Festa é de entrada livre, tem uma programação mais curta e não inclui a mítica piscina. Funciona quase como um dia de experimentação, um convite à degustação do que poderão sentir durante os próximos quatro dias, uma boa oportunidade para os indecisos e para os que desconhecem o festival.

A abertura deste primeiro dia ocorreu fora do recinto, com os Ensemble Insano no Palco Cidade, num concerto aberto a todos os que quisessem ouvir o supergrupo barcelense numa performance de improvisação direcionada por André Simão. Devido a atrasos com transportes e campismo, não conseguimos chegar a tempo destes primeiros concertos, mas com certeza foi uma abertura pesada no piso subterrâneo do parque de estacionamento da Câmara Municipal.

Já dentro do recinto, a festa começou às 18:30 com a curadoria do Palco Taina pelo editora portuense Favela Discos, que trouxe quatro convidados para animar este palco anexo à zona de restauração até depois da uma da manhã.

Além do Taina, também o palco principal (Palco Milhões) contou com programação neste primeiro dia. Por este palco tão especial, localizado de frente para uma colina que serve como anfiteatro coberto de relvado e com as paisagens do rio Cávado a servir de tela para os jogos de luzes, passaram os Indignu (com participação especial de Ana Deus), seguidos do duo 700 Bliss, são elas Moor Mother (na voz/rap e mixer) e a DJ Haram, duas produtoras e ativistas americanas que fizeram mexer as figuras que começavam a se amontoar mais perto do palco. Moor Mother atira os seus versos agressivos enquanto distorce e contorce os sons que estão a ser lançados, ao lado da DJ Haram, que calmamente lança batidas de diversos contextos, desde afro, latino e música do médio oriente até algo mais deconstructed club. Assim percorrem os temas do álbum de estreia Spa 700, intercalados com momentos de improviso e partes a solo de Haram com sonoridades distintas mas complementares ao noise afrofuturista produzido por Moor Mother, que canaliza a violência das ruas e a condição dos afroamericanos através da poesia cantada.

Seguiram-se os The Mauskovic Dance Band, que fazem jus ao nome e levam uma plateia mais concisa a juntar-se no meio e dançar ao som de disco cósmico misturado com influências afrocaribenhas, cumbia e sintetizadores que ressoam aos anos 80. Um concerto de psicadelismo refrescante, que antagoniza positivamente o anterior e desperta em todos a vontade de bater o pé.

Esta primeira noite do Milhões acabou com um set mais pop e revivalista de alguns hits/bops das décadas passadas, a cargo dos DJs do coletivo Aerobica.

DIA 2 (7 SET):

O segundo dia do Milhões marca a abertura da piscina e os concertos começaram logo ao meio dia no Palco Taina, que acolheu os Cumbadélica, aos quais se seguiram outros nomes durante a tarde como Decibélicas e um set pela artista de noise music Phantom Chips.

O primeiro concerto a que assistimos foi o dos The Evil Usses, em frente à Torre Medieval de Barcelos, local anunciado umas horas antes. Por entre as ruelas adjacentes fervilha a vida citadina de Barcelos e rapidamente juntou-se uma meia-lua de multidão em redor do quarteto vindo de Bristol. Os The Evil Usses mostraram de que são feitos: energia e diversão! Entre solos de saxofone distorcido, guitarrada elétrica e outros momentos de mera improvisação, o quarteto mostra-nos os seus vários “Usses” (o plural de “us”, palavra inventada pelos integrantes), saltando entre sonoridades mais jazzy/prog e outras mais alternativas/indie. Um delicioso começo para este segundo dia.

Já passavam das cinco da tarde quando findou este concerto, mas o sol nortenho continuava a raiar com toda a força e o corpo já só pedia PISCINA! Chegado à piscina, sobrava apenas uma das apostas do dia, o DJ K-SETS com a apresentação de parte do seu projeto de vida que consiste na recolha de cassetes de origens variadas e sonoridades pop arábica, cigana e mais ainda. Foi um mergulho do cassete.

Afinal a festa mal tinha começado, neste dia que marca também a abertura de um outro palco dentro do recinto, o Palco Lovers, situado entre o rio e uma alta parede medieval, com uma programação diversa que se prolonga pela noite dentro e uma atmosfera noturna que quase faz-nos sentir numa discoteca espaçosa, funcionando como a pista de dança do Milhões de Festa, que às altas horas da noite leva até si nomes proeminentes da cultura clubbing e música de dança.

À hora de entrada no recinto, já os Krake Ensemble tinham terminado e ao longe já se ouvia Lena d’Água e Primeira Dama com a Banda Xita, a estranha combinação que muitos questionaram, mas que acabou por agradar aos que se dirigiram ao Palco Lovers. O resto da noite ocorreu aos saltos entre os palcos Milhões e Lovers. Primeiro o halucinante concerto dos Circle, seguidos dos Warmduscher e já bem perto das duas da manhã chega até nós outro grande destaque do cartaz, é ele Squarepusher, alter-ego do inglês Tom Jenkinson, um dos nomes associados à Warp Records e ao movimento da música eletrónica a que muitos chamam de IDM, numa estreia em Portugal à velocidade da luz.

Squarepusher apresentou-se completamente coberto por um fato de esgrima que funcionava também como tela projetiva. Atrás dele dois massivos ecrãs que emitiam estruturas e linhas em decomposição compassadas com as batidas. A música em constante mutação combinada com visuais igualmente mutantes e distorcidos concederam uma experiência avassaladora e estimulante; não deu tempo para fechar os olhos nem parar de dançar loucamente.

Foto: Nuno Pires

Depois deste pé de dança, a colina foi o sítio escolhido para o descanso. De lá ouvia-se de longe o punk-funaná-noise de Scúru Fitchádu no Palco Lovers, ao qual se juntou um bonito espetáculo de trovoada de verão, que se aproximou desde bem longe e culminou numa chuvada que tomou todos de assalto e levou à fuga de maior parte dos festivaleiros (incluindo eu). Para trás ficou o set de DJ Lynce acompanhado de visuais por Berru.

DIA 3 (8 SET):

Como depois da tempestade vem a bonança, acordámos para mais um dia de sol em Barcelos, num terceiro dia de festival que começou também ao meio-dia com Eduardo Morais a passar música no Palco Taina. Ao longo do dia a programação deste palco contou ainda com uma aula de yoga e concertos de Nashgul, Greengo, Pé Roto e Ell Granada, fruto de uma parceria com o SWR Barroselas Metalfest.

Pelo Palco Piscina passaram King Gong e Gonçalo, seguidos da performance BodyVice de Natalie Sharp (frequente colaboradora de Gazelle Twin), que veio complementar a aposta do Milhões de Festa em romper com a tradição, incluindo performances interativas no recheio do festival. O encerramento da piscina ficou a cargo da artista Afrodeutsche, numa altura em que do outro lado já podíamos ouvir um soundcheck pesado de WWWater, que viria a abrir o Palco Milhões logo à noite.

Mais acima na cidade tivémos concerto de Vaiapraia e as Rainhas do Baile no  Coreto de Barcelos. Vaiapraia grita e escrutina toda a raiva e frustração, numa performance que se aproxima de um estado de loucura e extrema lucidez, acompanhado pelas incríveis guitarrista Shelley Barradas e baterista Lúcia Vives, uma fórmula que resulta em puro queer punk com influências de bedroom pop. Passo a citar os meus apontamentos: “ONDE É QUE EU FICO?”, a questão que Vaiapraia deixou no ar.

A noite começou às 21h com WWWater, alter-ego da artista belga Charlotte Adigéry, que se apresenta ao vivo na companhia de Boris Zeebroek nos sintetizadores e Steve Slingeneyer na bateria. Um concerto em que os intrumentais minimalistas de WWWater recebem um tratamento especial, são mais abrasivos do que em estúdio, uma boa adição à bonita voz de Charlotte, que intercala momentos de r&b com outros mais agressivos e complementares às batidas mais fortes que são produzidas e que levaram os que já estavam no recinto a se aproximar para dançar com a carismática e sempre sorridente Charlotte.

Passamos agora para o palco Lovers, à espera de um concerto que já se adivinhava vir a ser algo diferente e estranho, dada a estética musical e visual apresentada por Gazelle Twin, que aparece por volta das 22h em trajes vermelhos e brancos, de cara coberta e aspeto macabro. A performance foca-se na distorção e desumanização da voz de Gazelle, que chuta problemas e questões sociais e antecipa ainda o seu próximo álbum, a ser editado neste mesmo mês.

Saltámos depois para o jazz de Nubya Garcia no palco Milhões, concerto ideal para se ver de trás junto à relva, num relaxamento patrocinado pela ambiência criada por Nubya com os seus eletrificantes solos de saxofone. A Nubya seguiu-se, nesse mesmo palco, o concerto dos Electric Wizard, uma das bandas que motivou mais pessoas a aderir a este terceiro dia, num regresso ao Milhões de Festa que ficou marcado pela grande afluência de público. A melhor imagem representativa deste momento é o vislumbre de centenas de cabeças a abanar em sintonia sob o poder do doom/stoner metal que emanava do potente sistema de som. Um concerto pesado a encerrar a programação do Palco Milhões.

Hora de rumar à pista de dança do Milhões, nada mais do que o Palco Lovers, que continua até às 6 da manhã com The Bug ft. Miss Red às 3:00 e DJ Paypal logo a seguir.

The Bug (Kevin Martin) aparece sozinho e formula logo uma combinação de grime, dub-reggae e industrial noise, que transporta o palco para uma atmosfera de club. Passados uns minutos salta Miss Red para o palco, a MC entra a matar e anima todos os que ficaram para ver o concerto. A encerrar a noite tivémos DJ Paypal, conhecido DJ da TEKLIFE, uma crew de footwork de Chicago. Durante duas horas, Paypal demonstrou os seus dotes de mixagem e levou a multidão ao êxtase com um set divertido, que juntou batidas dilacerantes, meme/internet culture, samples perfeitamente alinhados e um espetáculo de luzes hipnotizante.

DIA 4 (9 SET):

A última tarde de festa em Barcelos é sinónimo de última oportunidade para aproveitar um bom banho na piscina, descansar no relvado ao som de boa música ou dançar em frente do Palco Piscina. Para lá fomos ao início da tarde, por onde passaram Paisiel, seguidos dos Tajak, que inundaram a piscina em psicadelismo obscuro, que se continuou com o stoner dos Pharaoh Overload.

Simultaneamente, no Palco Taina, passou o duo que constitui o Independent Music Podcast e ainda uma curadoria do coletivo Fat Out que apresentou a Festa da Abelha Gorda (uma celebração da cena experimental, queer e eletrónica) com atuações de Croww, Marilyn Misandry, GSY!PA, Hajahh e Queen Bee Supergroup.

A meio da tarde ficámos a saber que o concerto de Johnny Hooker, agendado para as 19h no Palco Cidade, decorreria na piscina, onde permanecemos para assistir a um apaixonante concerto que encerrou definitivamente o Palco Piscina. Johnny Hooker encanta e protesta, ele que milita pelos direitos LGBT no Brasil e canta numa luta pelo amor igual.

A noite começou com os The Heliocentrics no Palco Milhões, um concerto pulsante pela banda inglesa, que transporta a plateia para outra dimensão com o seu estilo tão individual de jazz psicadélico. No Lovers seguiram-se os Mouse on Mars, o duo de eletrónica que veio para estourar a pista de dança onde se reunia um aglomerado considerável de pessoas. Uma sucessão de faixas que se desconstroem, transformam, aproximam-se do caos e voltam a retrair.

Antes do regresso a Coimbra, ainda parámos para ver a abertura do concerto d’Os Tubarões. Para trás ficou a performance dos UKAEA e mais tarde, a Silent Disco no Palco Taina, a aposta do Milhões de Festa para o fecho destes quadro dias, que além de saudades, deixam vontade de passar o ano inteiro na rotina tão bonita que é a deste festival.

Sobram memórias de um festival que continua a prezar pela acessibilidade, variedade e pela experiência única e incopiável, desde as tardes ao sol na piscina a uma experiência de campismo utópica; mas maior que tudo é o desejo de regressar a Barcelos para mais uns quantos Milhões de Festa, milhões de amigos e milhões de bons concertos.

Texto de Vítor Nóbrega & Fotografias por Rafael Farias, Renato Cruz Santos e Marcelo Baptista ©

 

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