6/09/18

RUC @ ZIGUR FEST 2018

Em Lamego há um festival que se “embrulha” com a cidade. O ZigurFest, extensão digna do trabalho da ZigurArtists, toma de assalto vários espaços históricos da cidade. A música molda, assim, da melhor maneira vários locais, convidando os seguidores do festival, a conhecerem alguns dos mais belos espaços da cidade. Convém referir, que cada grupo ou artista é escolhido para tocar em cada um dos espaços de forma a que o seu trabalho se misture harmoniosamente com o ambiente, deixando dessa forma espaço ao espectador, para que possa desfrutar do momento não só com os ouvidos, mas também com os olhos.

Segundo ponto de interesse do festival, é o cardápio que nos é oferecido. Por aqui não passam os tubarões da musica portuguesa. Não tocam bandas da segunda linha avançada da música nacional. Por aqui passam, maioritariamente, artistas emergentes, daqueles que fazem o futuro da nossa música. Mas claro que seria impensável fazer um festival só assim, apesar das entradas serem gratuitas. E é por isso mesmo que vemos por aqui nomes, já mais cimentados, sem contudo se perder o fio condutor que move o evento. E os sons vão do jazz, ao rock, à eletrónica, ao hip pop, só para citar um pouco daquilo que se ouviu durante quatro dias em Lamego.

O ZigurFest tem ganho folgo, devido a uma equipa que tem amor ao que faz, colocando Lamego no mapa da música nacional, e o festival no calendário dos eventos a não esquecer no verão.

1º Dia – 29 de Agosto

O primeiro dia foi de aquecimento. A festa começou no Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos, com dois projetos locais. Os Ulnar e os Sal Grosso juntaram corpos para, por entre denso fumo, nos ofertarem uma eletrónica de contornos mais noise.

Terminado este primeiro evento descemos até ao largo da Cisterna. Aí encontramos os Zarabatana, um trio, que nos ofertou um som, que mistura jazz, improvisação e ritmos tribais. São três, todos de mascaras de cartão na cara. Ouvem-se precursões, um contrabaixo e um trompete. Em suma, foi um belo fim de tarde.

Foto: Nuno Ávila

Para a noite estava guardada a primeira surpresa do festival. A bela sala Grão Vasco do Museu de Lamego acolheu a voz de Dullmea. Apenas a voz, que é trabalhada, com efeitos de pedais e loops. Só pecou pelo fato de as duas faixas apresentadas serem demasiado extensas. Contudo, teve momentos brilhantes, que valem pela estranheza que provocam no ouvinte. Mas depois tudo se entranha. O resultado soa melhor em disco. E que belo disco têm a Dullmea…

2º Dia – 30 de Agosto

Para inicio de segundo dia, somos convidados a subir até ao castelo. Aí chegados, somos surpreendidos pela bela paisagem que vai moldar os concertos.

Os primeiros da tarde são os Mazarin. O seu som, numa fusão perfeita, passeia por entre o jazz, especialmente quando entra o sax e o hip hop. Apresentaram instrumentais carregados de groove que nos cativaram por inteiro.

De seguida o duo Terra Chã, que deitou pelo ar sons onde a eletrónica de ritmos mais dançáveis é o prato forte. Um bom aperitivo para o jantar.

Foto: Nuno Ávila

Já de barriga recomposta, vamos até à porta da Igreja da Nossa Senhora da Boa Esperança, para assistir ao concerto de Mathilda. A religiosidade do espaço abraçou de forma perfeita a música doce de Mathilda. Fazendo-se acompanhar do seu primo Gobi Bear, provou mais uma vez que tudo aquilo que dela se diz, é bem verdade. Comungou-se pop, num concerto, tão bonito, intimista e sereno, que dificilmente se esquece.

Logo ali ao lado, no Palco Alameda, os Gume tomam de assalto o cenário, fundido ritmos, que têm muito de hip hop, alguma coisa de jazz e um certo sabor a África Um coletivo de belos executantes que espalhou bonitos aromas pelo ar, convidando o corpo a acompanhar o ritmo das canções.

Entram os Sereia em palco logo a seguir. Homens de barba rija, vindos do Porto. Rock esquizofrénico, a lembrar Mão Morta, muito por causa das vocalizações. Até por lá andou um senhor em fato de banho e óculos de natação a fazer segundas vozes. E um outro a vaguear em palco, que pouco mais do que isso fazia. Valeu sobretudo pela estranheza que provocou.

A noite findou com os ritmos mais tecno de Inversos. Dançar era obrigatório. E o corpo respondeu de tal forma que o melhor era seguir para casa para descansar o esqueleto.

3º Dia – 21 de Agosto

Voltamos ao Castelo no inicio da tarde para desfrutar dos sons mais ambientais de André Gonçalves. Um momento sereno e introspectivo, que convidou muitos dos presentes a deitarem o corpo na relva.

Foto: Nuno Ávila

Depois… depois vieram as Savage Ohms e nada voltaria a ser como dantes. Um grupo de quatro meninas, do qual só a guitarrista não tem passado musical, ligadas à editora Spring Toast. Ainda a darem os primeiros passos, mostram que é no krautrock que estão as suas raízes. Foram uma enorme surpresa estas senhoras. Deixaram uma bela imagem, e a certeza de que existe aqui espaço para poderem evoluir e crescer. São para já uma das grandes esperanças da nova música portuguesa.

Foto: Nuno Ávila

Depois do jantar, sentados no bonito teatro Ribeiro Conceição, para assistir ao show de David Bruno, um dos rostos dos Corona. O que faz aqui é completamente diferente. Não deixa de ser hip hop, só que aqui ele assume um lado deliciosamente kitch. A guitarra de Marquinhos vinca muito esse lado de canção mais pimba, que veste muito bem toda a postura tida por David Bruno. Foi lindo….muito!

Sem sair do local, somos levados por caminhos mais rock, pelos NU de Santo Tirso. Um rock, por vezes mais industrial, a lembrar aqui e ali os Mão Morta. Mostraram as suas garras, num concerto que foi sempre em crescendo, até ao caos final. Uma banda com alma e a capacidade de por tudo a nu.

Já com o céu como telhado vamos até à Rua da Olaria. Em palco Vaiapraiua e as Rainhas do Baile. Que dizer? Ou se gosta, ou não se gosta. A maioria dos presentes delirava e até sabia as letras e cantava. Rodrigo assume o seu lado mais homossexual (é verdade, não é ofensa), tanto na postura tida em palco como nas letras que canta. Entrega-se de corpo e alma ao rock que faz, e dá o litro até á ultima gota de suor. Têm presença de palco, espírito e energia, estes Vaiapraia e as Rainhas do Baile. Valeu por isso.

Foto: Nuno Ávila

Ângela Policia veio de Braga e na bagagem carregava um hip hop diferente. Tem base nas batidas e nas rimas, mas junta a isto uma flauta, um trompete e vibrações de uma guitarra eléctrica. Foi um concerto intenso, sem tempo para respirar. Uma das marcas que vai ficar para lá do ZigurFest 2018.

A seguir tivemos a Rua da Olaria, transformada em pista de dança por culpa de Inversus. Mais uma vez a electrónica, de ritmos fortes a fechar a noite e a não dar tréguas ao corpo.

4ª Dia – 01 de Setembro

Foto: Nuno Ávila

O fim de tarde do ultimo dia começou maravilhosamente com a voz e a guitarra dos Lavoisier, no Palco Olaria. “Nada se cria tudo se transforma” é o lema certo para a música do duo, que pega na nossa tradição, e em grandes poetas, e o junta com pedaços de outras canções. Tudo pensado apenas para vozes e uma guitarra eléctrica. A forma como abraçam a música e se entregam ao que cantam e tocam, não nos deixa indiferente. E assim nos rendemos por completo.

No mesmo local, seguem-se Paisiel. Um saxofone manipulado por um alemão, e precursões tocadas por João Pais Filipe, considerado já um dos melhores músicos nacionais. É jazz, é free, é hipnótico (por causa dos ritmos pré gravados (in loco) do sax que entram em loop, manipulados por pedais). Intenso! Abriu o apetite. Era já quase hora de jantar.

De novo no belo Teatro de Lamego. Abrem a noite os Bardino. Uma agradável surpresa. Um som, que tem um pouco de jazz, mas que afina essencialmente pelo psico e prog dos anos 70. Sons que se casam na perfeição, sem atropelos e que deixam o concerto fluir da melhor maneira. Ficou a vontade de os voltar a ver.

Depois, um dos nomes maiores do cartaz deste ano. O Carro de Fogo de Sei Miguel. Um conjunto de excelentes executantes liderados pelo mítico Sei Miguel. O que nos apresentaram foi free jazz, num concerto muito contemplativo. Pecou apenas por não ter tido momentos de crescendo, passeando sempre em cima da mesma corda bamba.

Foto: Nuno Ávila

Voltamos à Rua da Olaria, não para ver os Moon Preachers, que cancelaram a viagem até Lamego, mas para assistirmos ao concerto dos The Dirty Coal Train. Quem os conhecia já sabia ao que vinha. Som cravado, no rock, no punk e no garage. Partiram a loiça, deram o litro e suaram a camisola. O Ricardo, a Beatriz e o Suave, têm o rock tatuado no corpo. E não brincam em serviço. Foi bruto! Brutal!

Para refrescar a mente um passeio até ao Palco da Alameda. Por ali a noite começa com o hip hop de Allen Halloween, que vive essencialmente das palavras fortes. Casa cheia, com muita gente que conhecia as rimas. Pena foi o artista não se ter entregue mais à causa, e tenha deixado esse papel para os seus companheiros de palco. Mesmo assim, foi um conecto intenso.

Foto: Nuno Ávila

A seguir, a ordem é não ficar parado com o funaná/punk de Scurú Fitchádu. Apesar de desta vez serem apenas dois em palco, o concerto não perdeu folgo. A máxima é abanar o corpo até não se poder mais. E o lema foi mais uma vez cumprido, numa prestação de Scúru Fitcádu, que voltou a ser enorme. É um “terrível” animal de palco este senhor.

Fecham a festa os 2Jack4U. Sons acid, feito em tempo real, e com máquinas de carne e osso. Mais um fim de noite com sons electrónicos assentes na dança.

Lamego é uma terra bonita, crivada de esbeltos monumentos. Lamego tem vindo a despertar para a música nacional. Tem gente atenta e com vontade de fazer coisas acontecer. Por tudo isto fica a vontade de regressar em 2019.

Texto & Fotos Nuno Ávila

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2018-11-20T07:30:16+00:00
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