19/08/18

RUC @ BONS SONS 2018

Nesta edição de 2018 do Festival Bons Sons realizado como habitualmente na aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar, desde 2006, a Rádio Universidade de Coimbra esteve mais uma vez presente e promete para o ano regressar.

Esta edição fica marcada pela enorme afluência de público (38.500 visitantes tendo ultrapassado o anterior máximo de 38 mil em 2014), e pela entrega dos músicos nas suas performances que continua a ser nota dominante.

A hospitalidade e ambiente familiar, as atividades surpresa, o carisma de bandas nacionais e a atenção a detalhes tornam esta experiência sem dúvida à parte dos restantes festivais que se realizam no nosso país.

Este ano a organização apostou num sistema de serviços sem uso de dinheiro em formato físico e numa ideia de rara beleza: deixar escrito, nalgumas paredes de casas da aldeia, excertos de letras de canções de bandas que atuaram no festival.

Foi apresentado o novo palco Zeca Afonso em detrimento do Palco Eira, mantendo-se os palcos Lopes Graça, Amália (em vez de Tarde ao Sol), Giacometti, Aguardela, MPAGDP e o Garagem (que merecia ficar aberto até mais tarde).

De seguida e por ordem meramente cronológica, apresentamos as nossas perceções quanto ao que se sentiu nalguns concertos em destaque.

Jerónimo

rock electrónico, boas vozes a chegar a falsete, dois teclados a marcar o ritmo e uma guitarra que se desvia do que poderia ser estridente, mas que torna melódica (em volume mais baixo que os teclados), mas a permitir viagem a acompanhar. Sintetizadores dançáveis, algumas entradas a lembrar Depeche Mode. 

Fado Violado

um namoro do fado com o jazz, o flamenco, a,bossa nova, o samba, o tango, um passeio de influências, extensões e cumplicidades adocicado pelas suas vozes femininas.

Selma Uamusse

cantora moçambicana tem de facto muita marrabenta e garra na voz, mas falta-lhe, por vezes, a companhia de um som mais cheio a nível de cordas e metais ou até elétrico talvez. Mas a marrabenta está lá e aquele belo vestido amarelo não engana! Despediu-se com alegria partilhada no palco com o público de sorriso aberto, foi alegrezinho, mas podia ser poderoso.

Slow j

No inicio hip hop com piscadelas de olho a um nu rock/metal, voz daweaseliana e malandra, depois uma incursão por um mais hip hop clássico de discurso interventivo alla Valete. Nalguns momentos apresentou ritmos de dança que emperravam em soluços graves e foi perdendo o público que gosta de se mexer o que impediu que uma balada bluesiana tivesse brilhado como merecia.

Xinobi

Um som tipo Festival Forte, mas com uma mudança abaixo demorou um pouco a conquistar o público, muito por culpa das péssimas luzes que distraiam irritantemente quem queria ter espaço para entrar na onda.

Que sedutora aquela versão do tema principal de “Blade Runner”…

Tomara

Guitarras gentis com a meiguice de um miar sigur rosiano, na fronteira da pieguice indie sem contudo a ultrapassar e crescendos tipo Beirute sem metais. Uma espécie de som à Noiserv, mas em banda e sem loops e arranhando justificadamente no fim dos temas com destreza e sentido alla vulcao islandes.

Mazgani

A sombra de Nick Cave tuga que não descola esteve sempre presente, cantou zangado, altivo, rabugento, mas restrito sem riscos incalculados que lhe permitiriam sair da casca de um bar.

10000 russos

 Um rock progressivo de muitos efeitos de cordas e voz sem crescendo claro, que apenas mantém uma névoa psicamélica, noise mergulhado em pedais que o PA teimou em distribuir sem sangue quente, convida o público a passar da paciência à estática. Há partes hipnótico por vezes sim, dependendo muito da bateria que poderia levantar mais voo e da voz que se impõe em demasia sem nos levar a um lugar com suspense.

Sara Tavares

Está uma senhora, a sua musica está um doce sorriso que baila e nos derrete na melodia de aparência simples, nem aqueles sapatões a impedem que flutue e embale. Sara Tavares e suas tropas comunicam com público num namoro sábio e relaxado, dizem-se coisas macias e assim se marcou o festival, até com um pedido de casamento…

Foto de Fausto da Silva

Mirror People

Dance eletro suave groove a sambar num disco, parece o dia em que os B52 e Heróis do Mar se juntariam num ensaio. As fórmulas são simples, conhecidas, mas viciantes e bem dispostas, um miminho de fantasia anos 80. Belo crescendo final, espacial clássico.

Homem em catarse

Trouxe temas do seu álbum “Viagem Interior” e alguns inéditos, um até que só toca na sua cozinha. Contou a história de certo dia ter dado um donativo para restauração da igreja de Cem Soldos e agora estava agradecido por poder tocar ali. Homem loop que acabou com guitarra elétrica em distorção rasgada em catarse no lugar de paz consigo mesmo.

Foto de Fausto da Silva

Artesãos da música

Projeto apresentado por Tiago Pereira (Música Portuguesa a Gostar Dela Própria) constituído por 3 senhores que construíram quase todos os seus instrumentos acústicos que interpretaram musicas populares das várias regiões portuguesas. Destaque para a bizarro-genial bateria de tachos e panelas e para a bateria vertical do diabo de inspiração franco-germana. Transportaram o público por campos de aurora de Portugal.

O Gajo

O punk rocker que se apaixonou pela viola campaniça com brisas de chocalhos orientais, pedais e bombo, e, por vezes, uns coros abençoados de fusão fado hindu, one man band, talvez um teclado lhe ajudasse numa base excelente para bandas sonoras de filmes contemplativos, tecnicamente malandreco sem ser malabarista. De facto, quando mexe com o pé no bombo e no chocalho o povo também dança e assim se fez provavelmente o concerto revelação do festival.

Foto de Fausto da Silva

Miguel Calhaz

Um jazz que procura expressar e/ou interpretar as raízes populares portuguesas mais místicas, num nevoeiro misterioso que casaria bem com Madredeus de Rodrigo Leão e Brigada Vitor Jara embutidos em ritmos mais labirínticos, com contrabaixo de madeira velha, neurótica guitarra jazz, atrevidos sopros de metais e jogos de vozes populares com a bateria.

Zeca Medeiros

Poesia de voz roncada que nos mostra letras teatralizadas e musicadas com sábio carinho que gera simpatia ao segundo minuto. Um palhaço que fuma o cachimbo da paz, convidou João Afonso e Filipa Pais para cantarem em palco quando o espírito de utopia em Abril já há muito se partilhava.

Cais do Sodré Funk Conection

Apresentados por um capitão do Love Boat e lady Mamma nas vozes com 3 metais de respeito, o teclado do efetivo comandante Joao Gomes, baixo e guitarra elétrica. Há energia e vontade de dar um bom show, contudo, várias vezes, parece haver pouco espaço ao suspense instrumental que construa o surgimento justificado e natural da garra vocal funk. O casal de voz ainda não denota uma empatia para além dos chavões do funk mediático, faltam enlaces conjuntos  mais espontâneos sem shouts de soul power.

Conan Osiris

Glam electro de ritmos tradicionais ciganos com sintetizador e letras de peripécias urbana semi-banais apresentados pelo homem rã acompanhados de um bailarino de ginástica clássica com inspiração Shakiriana. Parece exótico de facto, mas… Parece haver algo mais profundo talvez ainda por explorar para além do hype (cómico) atual, uma espiritualidade cigana ainda tímida (por estranho que pareça) num hip hop não autoritário que aponta um caminho pelo escuro até além. A pergunta impõe-se obviamente: será este um sucessor de António Variações ou apenas uma moda passageira? Concerto incontornável neste festival.

Foto de Fausto da Silva

Peltzer

Vocalista no sintetizador, guitarra, baixo e bateria, pop progress . severa foi tipo conan, mas indie, tem qualquer coisa.

Dead Combo

Realmente com Alexandre Frazão aos comandos da bateria os Dead Combo ganham outra vida, é isto, grande concerto.

Foto de Fausto da Silva

Moonshiners

Folk blues cowboyado de Aveiro em canto partilhado, com os rapazes à frente e a rapariga na bateria, com o gajo como convidado num tema.

Linda Martini

Um caos organizado em que as camadas de som se querem encaixar com perfeição numa banda já de culto, com estrada e capacidade para se assumir como cabeça de cartaz. Guitarra com laivos de psicadelismo e baixo de metal, destacando-se Hélio na bateria a marcar o ritmo em diálogo com as cordas grossas. São de facto marcantes as variações intensas a fazer bater o pé e batuta imaginária empurradas por letras concisas, revoltadas, mas observadoras da sociedade. Banda muito madura em palco, na opinião de muitos (especialmente dos fãs já conhecedores) melhor concerto do Bons Sons 2018.

Para além das palavras escritas, pelo éter também se falou do Bons Sons! No sítio do costume: em 107.9 FM, no programa Santos da Casa, que podem ouvir aqui.

Texto Vasco Otero

Fotos Fausto da Silva

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