29/06/18

Apresentação do livro “Espectros de Batepá” sobre massacre em S. Tomé e Príncipe

«Espectros de Batepá. Memórias e narrativas do “Massacre de 1953” em São Tomé e Príncipe» é o título do livro de Inês Nascimento Rodrigues que relata um dos maiores massacres da história são-tomense. Na origem dos acontecimentos está uma revolta dos nativos de S. Tomé e Príncipe contra os contratos forçados para as roças de café e cacau com as mesmas condições de outros trabalhadores vindos de Moçambique e Angola. A crescente tensão entre colonos e colonizadores, levou a que o governador português de então ordenasse a perseguição e detenção dos revoltosos por toda a ilha. O massacre tem, assim, início a 3 de fevereiro, no centro da ilha de São Tomé, na zona de Batepá, como explica Inês Nascimento Rodrigues.

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Ao longo daqueles dias, centenas de pessoas foram encarceradas em locais de detenção improvisados. Muitos foram deportados para a ilha do Príncipe, outros levados para a praia de Fernão Dias, uma prisão a céu aberto, onde os prisioneiros eram obrigados a trabalhar à força do chicote e peso de correntes presas ao pescoço, cintura e tornozelos. Nunca foi possível apurar, com rigor, o número de vítimas mortais do massacre. Segundo a população são-tomense ronda as 1.032 pessoas, uma ou duas centenas nos relatos portugueses da época.

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A literatura são-tomense tem contribuído para a reescrita da história e preservação da memória. Foi através da leitura de autores de S. Tomé e Príncipe que Inês Nascimento Rodrigues tomou conhecimento da dimensão cultural e social do Massacre de Batepá. Considera que em Portugal ainda existem questões de racismo estrutural e mitos em torno do passado colonialista português que devem ser desmistificados.

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O dia 3 de Fevereiro é Dia dos Mártires da Liberdade e feriado nacional em S. Tomé e Príncipe, uma forma de preservar a memória dos são-tomenses que morreram ou foram torturados em 1953. Ao contrário de outras ex-colónias portuguesas, o Massacre de Batepá ocorreu fora de um contexto de luta armada pela independência, o que torna o episódio ainda mais importante para reflexão e estudo. Por isso, durante a elaboração do livro, a autora contactou com vários descendentes de vítimas do Massacre de 1953, jornalistas e escritores de São Tomé, um elemento essencial para a construção do livro.

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Este ano, durante a visita a S. Tomé e Príncipe, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, assumiu, 65 anos depois, a responsabilidade de Portugal no Massacre de Batepá. Para a autora do livro, S. Tomé e Príncipe ainda hoje continua a ser discriminado face a outras ex-colónias portuguesas, pelo que é importante fazer um debate sobre o futuro nas relações entre Portugal e os países africanos.

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Inês Nascimento Rodrigues refere que o livro será apresentado durante a próxima semana em S. Tomé e Príncipe, numa mesa redonda, em que será discutido o passado colonialista português, dias antes da celebração da independência do país.

Luís Martins

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