9/06/18

RUC @ NOS Primavera sound 2018 – Dia 2

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Raia sexta-feira e imensa gente suspira de alívio: poucas nuvens no céu, um sol de Junho agradável e uma brisa que ainda cheira a Inverno. Esta imensa gente, preparada para 3 dias de chuva no NOS Primavera Sound, recebe a segunda prenda: mais um dia tranquilo no Parque da Cidade, sem chuva e, se bem agasalhados, sem frio. Recinto cheio mais uma vez e desta vez ainda mais cedo que no primeiro dia, o Primavera acolhe os seus festivaleiros com um final de tarde calmo e um final de noite de arromba.

Comecemos então no Palco SEAT ao final da tarde: Amen Dunes merece destaque, num concerto que ganharia em ser numa sala fechada, o norte-americano recebe os seus ouvintes com histórias sobre o tempo que passou em Lisboa, sobre a própria criação das suas canções e com uma despedida da tour depois de 7 semanas na estrada. O ambient pop minimalista de Freedom, lançado este ano, ainda juntou um público numeroso e conseguiu adesão do mesmo interagindo várias vezes com ele entre faixas, contextualizando cada uma com um romance, uma estadia em Lisboa, um processo criativo; um bom momento amoroso e, de certa maneira, intimista dada a individualidade lírica de Damon McMahon.

Um pouco mais tarde, também vindos dos Estados Unidos da América, os veteranos Grizzly Bear sabem muito bem o que estão a fazer em palco e debitam malha atrás de malha, inclusive voltando a Veckatimest, que fez 9 anos em 2018. “We’re sad this is our only show in Portugal”, referem, a meio de um concerto que obrigou pessoas a libertarem o monstro rock com que nascem e, no provérbio habitual, a “abanar o capacete”. Tocam apenas 3 álbuns, Painted Ruins, editado este ano depois de um hiato de 5 anos, Shields, de 2012 e o já referido Veckatimest, deixando os seus primeiros dois discos para trás (Yellow House & Horn of Plenty), mas não deixam de ser bom entretenimento para a jovem noite de sexta-feira.

Uma pequena menção também há que ser feita ao Palco Pitchfork, que começou neste segundo dia do Primavera com Yellow Days, que só pareceu mais um artista de lo-fi indie, com um concerto que deixou muito a desejar, inclusive em relação à qualidade do som, que naquele palco se mantém abaixo do esperado para um festival como o NOS Primavera Sound.

O inicio da noite de sexta revelou-se um verdadeiro momento de excelência para escutar as manas Ibeyi. Duo formado pelas irmãs franco-cubana-venezuelanas, Lisa-Kaindé Diaz e Naomi Diaz, estrearam-se em Portugal para apresentar o seu segundo trabalho no formato longa-duração, Ash, lançado em Setembro de 2017. Com uma sonoridade bastante mais dançável que o soturno álbum de estreia, apresentaram-se num palco despedido, onde o jazz, a eletrónica e as sonoridades tradicionais latinas se intersectaram harmoniosamente. Uma intersecção que nunca esquece a notória dimensão intelectual de Ash, trabalho pejado de questões identitárias, raciais e sexuais, cujo contexto sociopolítico de 2017 e 2018 apenas conseguiu ampliar.

No Man is Big Enough For My Arms ou Deathless, temas fulcrais em Ash revelaram-se como os momentos altos de um concerto sem pontos baixos e eficaz na sua execução, onde a participação do público foi uma constante. A prova que um desvio aos palcos principais pode, por vezes, compensar (e muito).

Vince Staples é calculista, mas não tem medo de suar. E é isso mesmo que fez às 22h, tal como faz suar todos os que saltam com ele à frente do palco, puxando por mãos no ar e por pura diversão à encosta cheia de uma ponta à outra durante o seu concerto. Tocando maioritariamente faixas do seu último disco lançado o ano passado, Big Fish Theory, mas passando também pelos seus versos na Ascension dos Gorillaz, no remix da Ghost pelos Major Lazer e na faixa presente na banda sonora para Black Panther curada por Kendrick Lamar, Opps com Yugen Blakrok e pela icónica Blue Suede, já de 2013. Vince não se contenta com pouco e não receia pedir o que acha que o concerto dele merece aos que o ouvem e hit após hit, ninguém para de se mexer e a faixa final, Yeah Right, é um delírio colectivo por todos os presentes. A batida cai, o ecrã gigante do Palco escurece e o grito coletivo de “yeah right yeah right yeah right” ressoa pelo Palco NOS, dando um final mais que apropriado ao concerto do californiano.

Fever Ray – copyright_hugolima

Tortuosa, complexa e estimulante… adjetivos que tão bem caracterizam a carreira artística de Fever Ray, projeto a solo da sueca Karin Dreijer Andersson. Com o seu irmão Olof, com quem partilhava o leme dos The Knife, eram o futuro – um futuro que nunca se chegou a realizar, construindo, ao invés, uma utopia electro queer a que deram o nome de Shaking the Habitual, glorioso álbum final que se veio a materializar numa incompreendida tournée cum aula de DEEP (acrónimo para Death Electro Emo Protest) aeróbica, marcada, numa primeira fase, por duras criticas dirigidas não só ao mais que óbvio playback, mas também à sua dimensão híper concetual.

Um concerto de Fever Ray continua esta tão enraizada tradição de diluição da fronteira entre o concerto e a performance. Ouvir Plunge –  inquestionável álbum matriz de 2017, a par do trabalho homónimo de Arca – e ver Karin e o seu freakshow são uma experiência una – a incompreensão reinante em Shaking the Habitual deu lugar a este crisma político, feminista e queer, urgente na sua narrativa e preciso no ataque. Ataque e celebração, tensão e distensão, intimidade e exterioridade coabitaram num espetáculo claustrofóbico e cínico, uma hora gloriosamente camp e erótica low-cost.

Por seu lado, os temas do melancólico álbum de estreia ganharam novas roupagens, diluindo-se perfeitamente na electrónica solta e musculada de Plunge, reserva feita para If i had a heart, talvez o único tema que retém na integra as suas roupagens originais. Por seu lado, a hiperatividade de Plunge é ampliada, tornando momentos como IDK about you (com a produção da portuguesa Nídia) ou os berros de This Country em autênticas catarses colectivas. “FREE ABORTIONS! CLEAN WATER! DESTROY NUCLEAR! THIS COUNTRY MAKES HARD TO FUCK.

Rave carnavalesca, celebração anti normativa ou grotesca perfeição performativa. Que venha Arca!

Celebração é algo que também se ajusta ao concerto de A$AP Rocky. Já o tínhamos visto no Sónar de 2015, um escandaloso e aborrecido falhanço de um rapper histriónico que pouco mais fazia que saltar num palco gigante, movendo, a cada rima, uma multidão de fiéis. Se estes três anos não mudaram a faceta de agitador-nato, o corpo de fiéis cresceu, assentando A$AP a sua base concetual: rejeitando uma hilariante feição pretensiosamente vanguardista, abraçou, por fim, o imaginário de híper-riqueza, drogas e superficialidade, tão comum na narrativa hip-hop de que é militante.

Ao vê-lo em palco, acompanhado de todo um arsenal cénico, facilmente nos questionamos da capacidade de levarmos a sério um rapper que pouco mais faz que saltar em palco, receber soutiens de elementos femininos do público e coçar o escoto. Despida de conceito, a sua música vale como forma de puro entretenimento. Ora, foi isto que vimos no palco principal do NOS Primavera Sound: puro entretenimento, descargas histéricas de energia de público e violentos mosh pits. Ao contrário do brilhante concerto de Vince Staples, campo de excelência para a intelectualização do hip-hop enquanto ferramenta política, o brilhantismo de A$AP reside, só e apenas, na sua feição de entertainer. E nesse âmbito, foi, sem margem, para dúvida, um espetáculo brilhante.

ASAP Rocky – copyright_hugolima

Texto de Leonardo Pereira e Miguel Marques

Fotos de Hugo Lima (fotógrafo oficial)

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